Friday, August 31, 2007

O entardecer em Elsinore


Por aqueles tempos, o céu encontrava-se despido de horizonte e o luar era escasso como o pêlo de um cão velho.


O silêncio depositava-se, atencioso, sobre uma concha de feltro e aí adormecia. As conchas verdadeiras já haviam sido todas usadas – restavam algumas, raras, usadas pelos pescadores para desembaraçar as redes.


Durante o dia, o mato ardia sôfrega. E à noite abrandava o lume na serra. As pessoas fugiam, encosta abaixo, com os aquários gigantes onde repousavam as sereias moribundas.

E era essa a tragédia que invadia os antigos e os sábios: a morte agonizante das sereias eternas que habitavam as montanhas nos rios esplêndidos. Agora os rios secavam, e a terra, outrora fresca e deslizante, era agora seca e empedernida de uma caruma de crustáceos.

Na sua demanda, os habitantes das terras reuniam-se à noite na busca de uma razão para o flagelo que os afligia. Os sacerdotes invocaram uma culpa ímpia, e que após a devastação viria uma salvação mais bela do que o imaginável – mas apenas para os justos e fieis.

Como se tratava de uma terra pobre, em que só os donos das terras altas entendiam ao certo de que fidelidade se tratava, os sacerdotes foram assassinados por uma horda de adúlteros inquietos. E por algumas mulheres castas que, pelo acaso, se encontravam próximas do local.

De imediato a perdição foi proclamada pelos sábios pela perda de vidas tão próximas dos deuses. Foi elaborado um auto que condenava os assassinos, mas que não os pretendia punir – sendo sábios, sabiam que estes estavam em maioria.


Foi então que o céu se cegou, e a noite mergulhou sobre todos como um sono iluminado pela floresta ardente. O fim foi proclamado e um festim imenso se iniciou. Durante dez dias, ninguém adormeceu sem ser por exaustão. E o desespero a todos cegou.


Findos os dez dias, os homens e mulheres viram, não um, mas dois sois emergirem no horizonte. A luz era mais clara do que alguma vez fora vista, e o dia prolongou-se longamente. Entendeu-se assim que a estrela que os iluminava partira em busca de um amor astral – e que finalmente o encontrara. Só após a exultação pela sobrevivência durante estes dias tão vazios de sentido, repararam os homens e as mulheres que as crianças haviam desaparecido e que deles não havia rasto.


Procuraram muitas semanas pelas crianças, subiram as montanhas, partiram para o mar, desceram os vales mais distantes. Ninguém ao certo sabia o que acontecera às crianças durante aqueles dez dias de folia total. Ninguém parecia também querer lembrar-se.


As sereias foram arduamente inquiridas por uma resposta; mas mais do que não responder, elas pareciam não o querer fazer. Os homens decidiram então deitá-las ao mar, pois delas já não tinham necessidade. As sereias partiram com o seu olhar doce e materno. E desiludido.



Os sábios, receosos que, ao não darem uma explicação pelo desaparecimento das crianças fossem sujeitos à mesma fúria que os sacerdotes haviam sofrido, partiram, também eles, em balsas de pinho verde e com escassos mantimentos. Mas sendo sábios, e pouco sabendo da arte de navegar, logo se deixaram levar por ventos desconhecidos que os levaram a uma vazio imenso de vontade e de fé, onde o canibalismo reinou durante três meses.

Foi numa noite de luar abrasivo que as sereias mortas deram à costa – eram sereias de rio que nada sabiam do oceano infindo. As suas carcaças descosidas pela fome e pelo cansaço marulhavam na maré baixa. Tinham a expressão sedosa e lamuriante – mas não recriminavam ninguém; pretendiam morrer em paz.


Os homens e mulheres alinharam-se em frente ao oceano; deram as mãos e assim ficaram durante muito tempo – corroídos pela culpa, pelos erros, e pela perda das crianças.


No dia seguinte abandonaram Elsinore com poucos haveres, Apesar de ninguém o dizer de forma explícita, ninguém possuía já muita vontade de continuar a acordar dia após dia.
E assim findou Elsinore.


Monday, July 30, 2007

A excepção que confirma a regra – 2ª edição, porque agora de mais premente utilidade


A entropia na teoria da informação corresponde à incerteza probabilística associada a uma distribuição de probabilidade. Cada distribuição reflecte um certo grau de incerteza e diferentes graus de incerteza estão associados a diferentes distribuições (embora diferentes distribuições possam reflectir o mesmo grau de incerteza). De um modo geral, quanto mais "espalhada" a distribuição de probabilidade, maior incerteza ela irá reflectir.
Por exemplo, se alguém lançar um dado de seis faces, sem saber se ele é viciado ou não, a probabilidade mais razoável a ser atribuída a cada resultado possível é 1/6, ou seja, representar a incerteza usando a distribuição uniforme. Esta atitude segue o conhecido princípio da razão insuficiente de Laplace, onde atribuir probabilidades iguais aos eventos possíveis é a maneira mais razoável de alguém reflectir sua ignorância (e sua incerteza) quanto às probabilidades de ocorrência de cada evento.
Por outro lado, provendo-se a informação de que o dado é viciado e que ele dá números maiores, i.e. que a média é por exemplo 3.5 e não 3, então a pessoa naturalmente irá assumir uma distribuição alternativa à uniforme para expressar sua incerteza.
A informação complementar implica uma actualização da função distribuição para discernir o resultado de um evento enquanto variável aleatória – e não elemento determinístico. Ou seja, mais informação tem normalmente a desagradável consequência de obrigar uma alteração na forma de raciocinar; desagradável porque o arquétipo de pensamento anterior é contestado face à defesa pelos seus anteriores utilizadores – ainda não cientes da nova informação.
Estranhamente, é costume entre os humanos insistir no arquétipo anterior, apesar de já possuírem a nova informação que o invalida (e.g. o teclado qwerty). O que não deixa de criar a não menos desagradável consequência – de forma a continuar a validar o sistema antigo – de criar excepções às regras agora já não aplicáveis porque erradas.
Seguindo o nosso exemplo do dado viciado em canabis, assumir-se-ia agora que a probabilidade continua sempre 1/6, menos na faceta que origina o 4; e eis o paradigma antigo aglomerado com a nova informação que o invalida.
Isso a propósito de um artigo do Jared Diamond que aqui se reproduz à distância de um click:


http://www.geocities.com/malibu_malv/curse_qwerty.html

Reproduzir esta informação e torná-la apta a servir de base às relações interpessoais, é uma missão que o governo negará possuir qualquer envolvimento ou contacto.

Thursday, July 26, 2007

Goddam right boy!

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Yeats

Wednesday, July 25, 2007

Não sei

Porquê? E repetiu em tom mas leve. Repetiu talvez três ou quatro vezes, mas da última creio que já não procurava resposta. Era um porquê recostado à resignação que nada queria dizer, nem nenhum objecto tinha se não o de preencher o vazio que se aglomerava como o cotão.

Há palavras, frases inteiras que não se podem simplesmente dizer; as palavras devem arrastar-se pela língua, devem fluir sossegadamente até serem emitidas. Há palavras que não podem ser apenas despejadas. Precisam de ser pousadas. E depois devem também ser ditas com o olhar. E esse olhar deve ser doce como as palavras, deve ser suave; deve ser parte da palavra. No fim disso tudo, resta o mosto da voz. A minha voz pouco se eleva – quando o faço parece desadequado. Mas, apesar disso, é morna e permite dizer coisas com algum sossego. Alguma certeza.
Palavras, frases inteiras que devem ser ditas com cuidado, e apenas no momento certo.
Porquê? Foi o que ela me perguntou. E porquê, não é algo que se diga daquela maneira. Porque o porquê é imaterial, e deve ser dito como uma interrogação e não em voz baixa. Mas o porquê reverberou de forma diferente na minha cabeça. E pensei de facto: porquê.
Frases inteiras que devem ser colhidas com cuidado e em silêncio. E não devem ser muito repetidas. Aliás, não devem ser repetidas de todo. São frases que se dizem, uma, no máximo duas vezes na vida. E em intervalos prolongados de tempo. Muito prolongados.
O porquê era uma concha estendida ao contrário na praia. Escondia alguma coisa ou não escondia nada. Mas era um sólido curvo com estrias presas na minha garganta. O porquê calha bem em vozes rochosas.
Depois há frases que nem ditas podem ser; por elas deve passar apenas um murmúrio, um roçar de som que pouco se eleve. O porquê não pode ser dito desta forma. Mas o não sei já pode. Há uma forma de dizer não sei que se expira ao ser dito, e que, apesar de significar não saber, explica quase tudo de quem o diz. Não é a lamentação lodosa que busca a solução; esta forma de não sei que se diz em murmúrios transparentes não recrimina; diz antes: não sei porquê, mas isso não é importante.
Posto que a cinza dos gestos lavrados já fora levada de nós, e que o restolho que carpia pelo vento era um silvo já esventrado de destino, o não sei diria até demais para quem, de facto, nada mais queria dizer se não um mero, não sei.

Por isso disse apenas, porque sim.

Friday, July 06, 2007

O cronógrafo ratrappante


Não consigo deixar de pensar que o que segue, por antecipado, tem o sabor da sensação da surpresa forçada, que é, de entre todas as sensações disfarçadas que se podem forçar, aquela que tem o pior sabor. Não me parece que haja nada de mais pessoal, logo passível de facilmente identificar uma causa, do que o arrastar dessa certeza que se debilita e fraqueja como um pedaço de papel que murcha; e quando cessa – a certeza –, não o é originando vácuo; de facto, outra certeza surge no seu lugar.


Passei anos transportando este objecto de um lado para outro, sem nunca me interessar particularmente por ele. Tem ponteiros, vários ponteiros, ponteiros que giram, e tem um sistema numérico de base sessenta. Deve ser um relógio. Não o achava particularmente bonito, mas era antigo, provavelmente da primeira metade do século XIX, e era tratado como uma relíquia. E era. Tratava-se de cronógrafo ratrappante – porque podia medir dois acontecimentos diferentes ao mesmo tempo ou decorrendo em tempos que se cruzasem. Ora, dois diferentes ao mesmo tempo, não se distinguem na diferença pelo tempo. Mas distinguem-se na sua origem, forma, causa, cheiro. E também quando acabam. O cronógrafo de winnerl permitia exactamente isso.


Em vez da certeza que se possuía antes, surge uma outra coisa bifurcada: não só a desilusão pela certeza não afirmada, como a interrogação da causa dessa necessidade. Porquê não ter negada antes algo que se afigurava tão frágil de concretizar? Porque, de facto, se desejava que se concretizasse.


Gostava de saber se o cronógrafo ratrappante podia medir esses intervalos de tempo. O primeiro entre a elaboração de uma certeza e o início da dúvida, e o segundo entre esse início, e a certeza que nenhuma dúvida resta que a certeza anterior estava errada. Provavelmente um quociente entre os dois poderia dar uma grandeza física. Talvez uma grandeza palpável porque sentida, embora não numericamente. Mas desta forma, poder-se-ia calcular um coeficiente de ilusão – e o seu inverso, um rácio de desencanto.


E assim as certezas poderiam ser quantificadas; e uma análise estatística permitiria avaliar quantas dessas são de facto o produto do nosso desejo, e não a apreensão da realidade. E nós mesmos, enquanto entidade, teríamos uma identificação: nome, idade, altura, e coeficiente de desencanto.


Se tal acontecesse poder-se-ia fazer, de facto, algo de extraordinário. Quantificar a incidência de relações interpessoais por coeficiente. Não me surpreenderia nada que a verdade matemática esperada que, coeficientes inversos teriam maior predisposição para se contactar, não se verificasse. E assim tornasse o coeficiente de ilusão algo de bastante mais endógeno e imanente a qualquer um, do que um resultado da mera convivência inter pares.

Sunday, July 01, 2007

Sena


Por vezes acontece: encontro o mestre deles todos e fico sem palavras; recito-o sozinho com Debussy e quase que sinto algum prazer inequívoco na existência humana. Um prazer demasiado contagioso para ser partilhado. Faço uma figura ridícula comigo mesmo. Mas por certo ele não se importará - não tivesse ele sido um engenheiro de estradas como eu já fui. O homem por quem meço os meus passos, e que me é mais íntimo do que a maior parte destes cães-humanos que nem sequer sabem ladrar com pertinência.


Elogio da vida monástica

Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
A pessoa tratava de salvar a própria alma,
De mortificar o copo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
Uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
Estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
E que não podia deixar a solidão
Como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
Sem os inconvenientes e a incomodidade
Que o convívio humano traz consigo,
Desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
Ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
Como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
Com alguma imaginação de como o amor cheira.


Jorge de Sena

Tuesday, June 26, 2007

As caixas

Passados muitos anos, encontrei-o por acaso no supermercado. Olhava com muita atenção para dois detergentes de louça; comparava as composições, talvez o preço. Parecia intensamente concentrado nessa tarefa. Não sei porquê, mas na minha cabeça imaginei logo o cenário que se tinha separado há pouco tempo, e iniciado-se recentemente na escolha de detergentes. Depois pensei que era estúpido que mesmo casado não participasse nisso e achei o pensamento sexista – mas não me importei muito com a qualificação, achei apropriado o cenário.
Tentei aproximar-me mais; havia uma tentação em vê-lo melhor. Uma tentação que não se deve confundir com desejo. Não tinha qualquer desejo – apenas e talvez alguma curiosidade. Uma curiosidade forte, admito. Não que pensasse nele muitas vezes; aliás, não pensava.
É uma tendência muito feminina fantasiar o passado de forma a conferir uma tensão dramática à relação. Reviver uma história de um amor proibido, e de todos os entraves à sua concretização. Mas não houvera nada disso. Nenhum entrave bíblico em especial. Mas às vezes, mais tarde, dá jeito pensar que sim.
Ele agora passeava com o carrinho, de forma muito tranquila; nunca o tinha imaginado a emanar aquela tranquilidade numa actividade tão quotidiana. Estava mais gordo, mas não tanto quanto esperava. E estava muito mais velho.
Não sei porquê que continuava atrás dele. Estava à espera que se virasse? Não fazia a mínima ideia o que lhe iria dizer. Mas, no meio dessa tensão, comecei a imaginar o que ele diria. Ir-me-ia recriminar? Se calhar, bem lá no fundo, gostava que o fizesse. Não, não havia nenhuma razão explícita para recriminar – ele a mim ou eu a ele. Acho que provavelmente acabamos de maduro. Será que ele não repara que estou aqui. Nunca conheci ninguém tão distraído. Até se esquecia do próprio dia de anos. Gostava que ele se virasse. Dirigia-se para as caixas.
O tempo passou assim, pouco tempo, mas passou. Às vezes parece que arrancamos um post-it do frigorífico que é um bocado de tempo e ele entranha-se assim de um momento para o outro. Não é a lembrança do que foi vivido – existe a apreensão do que se sentia na altura. Arranca-se o post-it e lá se encontram milhares de sensações a borbulhar no instante. Não sabia bem o que fazer. Ficava minutos intermináveis a comparar preços e rótulos; depois escolhia um ao calhas. Não interessava. Nunca pensei que após tanto tempo pudesse sentir alguma coisa.
Houve uma altura que pensei mesmo em voltar para trás, ir direito a ela, perguntar o que queria. Mas por esta altura imaginava que ela já tinha visto que eu a tinha visto, e portanto que a estava a evitar. A ideia agradava-me. Estar numa posição em que a evitava. E portanto assim continuei, contrariado – profundamente contrariado. A certa altura, quando estava já perto de chegar às caixas, senti que já não aguentava mais.

Monday, June 25, 2007

The departure




Todas as coisas imperfeitas, penduradas ao sol na correia de aço enferrujado. A dormirem de mãos dadas como crianças. Todas as coisas imperfeitas desaguadas no fim do dia, quando o olhar se requebra, e o sorriso se esvai.


As coisas infinitésimas que se agarram à pele e dão comichão, e que não deixam dormir, noites em que a tosse ocupa o silêncio, e não deixa dormir, e coisas inúteis que ocupam a cabeça, e que não deixam dormir.


Todas as coisas imperfeitas como beijos mal dados, ou cerveja morna, ou não saber onde é que estás. Coisas que não deixam dormir. Onde é que estás?

O que é que somo nós se não uma inutilidade de coisas perfeitas.


Tuesday, June 05, 2007

Sem dúvida, ou a instabilização de sistemas contínuos

A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.

A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite – não necessariamente o limite do balde –, até que a água instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.

No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.

A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva e a base da teoria do caos. Ou que é menos intuitivo é aplicar esse princípio dentro de um sistema simples, apenas com duas variáveis. O exemplo mais simples é a destruição de árvores por parasitas. Um sistema de árvores com duas variáveis – idade e número – perfeitamente consolidado, instabiliza quando um determinado número as árvores atinge uma certa idade. Quando isso acontece, tornam-se susceptíveis do ataque de parasitas que, com o excesso de alimento, crescem geometricamente, atacando também as árvores mais novas – levando à catástrofe. Existe um ponto (the tipping point) de equilíbrio instável entre o número e a idade das árvores, que é atingido por acréscimos sucessivos e infinitésimos.Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe.
Para mim, entendo bem que a dúvida surja. Aceito que os sistemas instabilizem, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização pode não ser natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma questão de interpretação.

Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É uma forma de função inversa. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.

Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per se. Mas curiosamente a dúvida é também uma questão de escala. Com o tempo ela pode diluir-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural porque ela pode não existir. A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. Aliás, é tão simples quanto afirmar que, existindo dúvida, não existe certeza. Pelo que a dúvida cessa igualmente de existir – a dúvida sobre a certeza anterior.

A dúvida é interior e perceptiva – não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários.

A gravidade-lava


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny



A chuva preta sobre o corpo; a chuva quente.
A pele adormecida sobre o alcatrão. As bermas enchendo-se de saliva e o corpo transpirando solidão inquieta.
As mãos pesadas, as mãos apertadas em solidão.
Está escuro sobre as peles sossegadas. Os dentes.
A estrada escura. Os dentes. Este escuro e esta chuva.
Os hálitos sobre o alcatrão. Tudo fede uma solidão única e contagiosa; e nada parece certo.
As unhas. E todos os detritos.
Tudo o que sou indexado a uma gravidade-lava.
Uma quinta força – o tempo deformando os olhares e o sabor da chuva. Não sei bem onde estou. Cai uma chuva negra que frita a pele.
A gravidade-lava; a que suga e preenche; a inalação do oxigénio tóxico.
O ar gravítico que aperta e mordisca o ventre como crocodilos bebés. E toda esta chuva negra de alcatrão perfumada.
Os dentes e as mãos, e a saliva-lava-chuva e o corpo estendido.
Sem palavras.

Thursday, May 31, 2007

A filha única



Um dia perguntaram a Henry Ford se tinha realizado algum estudo de mercado antes de iniciar a produção do Ford modelo T. Ele respondeu: “Claro que não. Se tivesse construído o que as pessoas queriam, tinha de ter inventado um cavalo mais rápido”.

Aí está ela de novo. Aquela estreiteza incolor; a sensação de asfixia eterna. A desconstrução mental é a mais bela de todas; a vida que não se observa mas que se sente. É filha única, faz questão de ser sentida.


Quando o encontrei, não liguei muito à apatia desfraldada. Não era incomum. Depois iniciou a pronúncia daquelas milimétricas sílabas, que eu já tinha tido o gosto de esquecer. O esquecimento, é sempre uma forma de lembrança – pelo menos o processo até lá chegar. Memory is a good thing if you don't have to deal with the past. Antes ou depois do sol se pôr.

A percepção; eis como ela altera tudo. O mesmo formato, o mesmo pacote, o mesmo logo. Percepções diferentes. E depois nunca se sabe o que se quer realmente. E normalmente, é correcto não saber o que é. Um cavalo ou um carro. Mas como saber que na realidade se quer um carro se só se conhece um cavalo? Ou, extraviando um pouco a lógica, como saber que se deseja verdadeiramente o futuro, se só se conhece o passado.

Um dia perguntei-lhe como seria o mundo se a memória fosse inexistente. Seria melhor? – Bom, acho que de certeza que as pessoas seriam bastante menos pontuais. Passou a mão pela barba branca, riu-se um pouco. Estava velho. Pourri avant d’avoir mûri. O tempo é um cavalo bastante rápido.

Nunca tinha gostado de equídeos. São traiçoeiros por trás e insolentes pela frente. Sou como o Churchill – prefiro porcos, olham-nos nos olhos.

Tuesday, May 29, 2007

Do jacarandá emergiu Prometeu




Os jacarandás já floriram; aquela espumosa massa violeta topázio cobre agora as hastes metálicas da árvore; foi de repente, como se de uma plumagem caída do céu se tratasse – e uma semana antes do habitual.
O jacarandá é celeste e imponente, e não se trata propriamente de uma árvore. É uma sentinela adormecida que renasce num dia qualquer de Junho ou Maio, com vestes encardidas de eternidade – uma eternidade que dura uma paixão intravenosa, daquelas que se extingue quando a pele dos amantes se enrodilha com a saliva expulsa.
Não é uma árvore, mas Prometeu renascido para ser lavrado pela águia do Cáucaso, e depois murchar um azul rouco sobre o alcatrão. Entre jacarandás, o tempo escorre como alfinetes expulsos pela eternidade atordoada.



Wednesday, May 16, 2007

I've always depended upon the kindness of strangers

Um certo lodo na voz, um lodo espesso que se avoluma na boca e escorre pelas narinas. Aquela era a segunda vez; palavras diferentes, mas o mesmo sentido imaculado por de trás delas. Palavras lodosas que ele repetia sucessivamente, como se a gramática se pudesse desintegrar e elas pudessem perder o seu sentido metálico.
As repetições formam o pântano. R afundava-se no pântano das palavras repetidas, sentia a imobilidade a adquiri-lo, e toda aquela inevitabilidade como uma matéria reconfortante; é extraordinário o descanso mental que a ausência de opções configura; e essa inevitabilidade valida as precipitações mais inexplicáveis. E já se sabe, uma precipitação nunca vem só. R gostava de repetir essa sentença: as precipitações vêm aos pares. A seguir à inicial, surge sempre outra para corrigir a primeira. E depois o descanso, a espera, a certeza que mais nada pode ser feito. A inquietude paralisada.

Eu sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. R sorria, acendia outro cigarro. Fechava os olhos. Por vezes tinha um impulso em se habitar de uma realidade alternativa; não lhe custava muito; era só deixar os olhos fechados, a realidade desligada e sentir as sementes irromperem como uma pulmão magnético. R nunca tivera nenhum problema em se imaginar numa realidade diametralmente oposta, ou, se fosse caso disso, numa realidade no fundo de uma diagonal, ou num trecho paralelo. Num novo pulmão.

Sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. A frase era originária de um meio de transporte chamado desejo. No caso dele, talvez não fosse bem um eléctrico; talvez mais um metropolitano, algo bem mais obscuro e enterrado, com um ar mais denso e pesado. Apesar da aparência contrária, a frase encerrava uma certa esperança infundada: a que os estranhos eram boas pessoas, dispostos a ajudar. E que não valia sequer a pena de se preocupar muito com absolutamente nada – algum estranho estaria por perto para salvar o dia. E era esse o sentido que ele lhe conferia quando alguma coisa corria mal. Revelava o seu desprendimento inusitado; alargava a cápsula espaço-tempo para além da sua galáxia privada e todos os acontecimentos se tornavam num infinitésimo.

Ele talvez o soubesse, e talvez não o quisesse saber, talvez fosse um conceito demasiado natural para reparar nele, como um sinal no braço que só reparámos se desaparecesse. O que ele verdadeiramente dizia por de trás de todo aquele emaranhado de léxicos, era que todos lhe eram estranhos, até aqueles que ele podia adoptar circunstancialmente para uma partilha de espaços e emoções. Pessoas com as quais escolhia gastar o seu tempo, mas ainda assim desconhecidos. O seu fulcro era intensamente gravítico e desinteressado pelos outros. A sua solidão era uma escolha muito própria, mas não a primeira precipitação – a primeira era a de não se interessar por nada nem ninguém numa espécie de egoísmo romântico, e a segunda teria de ser, inevitavelmente, a sua solidão. E se quisesse ser um pouco mais cartesiano, a terceira seria depender absolutamente da bondade de estrangeiros, ou de todos, neste caso, dispostos a dar tudo o que pudessem, sem receber nada em troca.

Vou para a semana para Tokyo. E quase fechou os olhos depois de o dizer. Vais? Quanto tempo? Ela ajeitou a pachemina que lhe cobria o cabelo; tirou os óculos escuros à la Bouvier. Ele sempre achara aquele look de movie star dos anos 50 perfeitamente adaptado a ela. Sabes muito bem que não volto.

É curioso, um curioso não muito agradável, um curioso rançoso como comida estragada, é curioso mas não o devia ser. Por vezes os acontecimentos sucedem-se e, a partir de um determinado ponto, restam poucas dúvidas para onde eles se dirigem. Uma pessoa sabe, sobretudo porque já lá esteve. Mas há uma embriaguez, uma vertigem que imobiliza, e até um certo conforto pelo conhecimento do output.

Era a segunda vez que ele ouvia aquele sentido por palavras; palavras espirradas de um pneu furado à navalhada. A boca é uma navalha. O papel é uma boca quieta. As mãos dormem um silêncio absurdo.

No aeroporto, o movimento era intenso. O seu nome era repetido pela 2ª vez nos altifalantes. O pescoço estava frio e as mãos condensadas. F ainda soltou um sorriso inusitado ao ver R ao fundo do corredor. Não se levantou, mas ficou a observa-lo a procurá-la.

O seu nome foi então repetido por uma 3ª vez.

Tuesday, May 08, 2007

O sistema auditivo

Após quatro anos de intenso enamoramento barroco, quatro anos destemidos de Bach em todo o seu esplendor teocrático, desde as Paixões e as Cantatas do John Elliot Gardner, os Brandenburgueses – a banda sonora da minha existência – os Concertos para Violoncelo, as suites para Orquestra BWV 1066 a 1070, após todo esse divino e eterno Bach que sobreviveu a infidelidades tão cruéis quanto o enamoramento pela Sagração da Primavera do Stravinsky, pela Quinta de Malher, ou os concertos de Rachmaminov – não referindo as saisons em que fiz as malas e abandonei toda a lógica da existência com os concertos para piano do Nyman, ou com os Préludes do Debussy –, após todo esse destilar etéreo de beleza inaudita, eis que escuto Beethoven e me apercebo, ainda que levemente e apenas a espaços, de uma melodia que, ainda que sofrível e lourde, é quase suportável e digna de se inteirar do meu sistema auditivo.

Wednesday, May 02, 2007

Ouvindo Malher pela manhã

Ouvindo Malher pela manhã. O Adagietto que é o ronronar de uma mulher adormecida sobre a praia. A pele salpicada de areia e os cabelos inundados de mar. Malher pela manhã. Consigo ver a falésia íngreme e tostada de um laranja como couro; e avisto os homens lá em cima com longas túnicas turquesa encarando o vento tépido com os braços bem erguidos. Uma fila interminável de homens que se perdem de vista no topo da falésia; em baixo, uma mulher fervendo um choramingar de lágrimas em parafusos, apertando a carne da areia; apertando-a, esmigalhando as migalhas do silêncio. Ao fundo, a quinta e o Adagietto. A expectativa da exaltação, tão própria da celebração da despedida e daí, também do reencontro. As cordas irrompendo dos seus poços de madeira e prolongando-se pela memória cerrada, ecoando, deslizando, sobrevivendo. Malher pela manhã e vocábulos desordenados sobre a epiderme ao longo da noite, e pelo o que restou da eternidade.

Thursday, April 26, 2007

Gestos

Somos esses gestos pálidos segurando uma espécie de nada
Que conflui na expectativa da ausência;
Os gestos vertidos,
E os gestos sedosos,
Gestos sem intento, ou causa, ou expectativa.
Somos todos esses gestos amarrotados
Feitos do deslizar das mãos em basaltos mornos
Onde os corpos se estendem, infinitos.
Por vezes, é possível diagnosticar um sorriso,
Uma labareda latejando sobre esta espécie de asfixia
Que se forma em redor das bocas,
Como a lembrança súbita de um sonho inútil.
Somos gestos, esses gestos e apenas esses,
Insinuando-se por entre golfadas desorientadas
De ar estaladiço.
Um moroso trepidar de tempo em que
As mãos vagueiam estéreis sobre o cabelo molhado,
E os olhos se fecham, ínfimos.

Wednesday, April 04, 2007

Luz despida de electrões




A estrada quente, deflagrando géisers de ar amarrotado,
A quentura impossível sobre os gestos adormecidos,
A estrada inteira, indefinida – uma luz abstracta, maternal.
Um esboço pardo de tempo sincronizando as mãos sobre a areia
Rouca,
Luz despida de electrões, confinante sobre a parede da boca,
As bocas dispersas povoando uma latitude avulsa – movediça como vinho
Decantado no barro.
Sentir o marulhar da fotossíntese em lábios
Tão inquietos como planetas despidos de matéria e divindades.
Aqui, como astros anões,
Acordando em tépida asfixia – alimentando-me desta morosidade que desagua
Da noite.
Mas logo os flocos de chuva morna orvalham e
Pode-se desatar a viver.
Desatar a viver como um eclipse apaixonado por um Sol,
Ou um Sol cercando uma planeta – mas ao ver-te,
Ver hipotéticos sorrisos adivinhando-se entre o sal da tua boca,
E a luz condensando-se pela pele como um reboco,
Ver-te assim – faz-me apenas querer não me mexer e ficar
Quieto sobre essa doçura d
emasiada óbvia.

Monday, March 19, 2007

Magnolia


1 Then the LORD said to Moses, “Go to Pharaoh and say to him, ‘Thus says the LORD, “Let My people go, that they may serve Me. 2 “But if you refuse to let them go, behold, I will smite your whole territory with frogs. 3 “The Nile will swarm with frogs, which will come up and go into your house and into your bedroom and on your bed, and into the houses of your servants and on your people, and into your ovens and into your kneading bowls. 4 “So the frogs will come up on you and your people and all your servants.”’” 5 Then the LORD said to Moses, “Say to Aaron, ‘Stretch out your hand with your staff over the rivers, over the streams and over the pools, and make frogs come up on the land of Egypt.’” 6 So Aaron stretched out his hand over the waters of Egypt, and the frogs came up and covered the land of Egypt. 7 The magicians did the same with their secret arts, making frogs come up on the land of Egypt.

Mangnolia, ao contrário de One Million Dollar Baby, é um filme sobre a falta de esperança; a falta de esperança numa das suas formas mais monolíticas e definitivas que é o arrependimento. Subsiste sempre a esperança do perdão. Mas estes personagens que habitam o Magnólia estão muito para além do perdão; a percepção da sua finitude e o peso da culpa necessitam de um tipo de perdão superior – uma redenção que é muito mais alcançável pelo não perdão e pela continuação da dor decorrente da doença que têm.


Earl Patridge e Jimmy Gator são os centros amorais da história. Um abandonou a mulher quando esta adoeceu, obrigando o filho de 14 anos a tomar conta dela. O outro abusou sexualmente da filha. Ambos exprimem um amor sombrio pelas mulheres; um amor marcado pela distância, pelo desprezo e pela traição. Mais do que procurarem o perdão dos filhos, procuram uma absolvição superior. Por isso sentem-se confortáveis com a sua dor. Exibem a sua doença como contra-peso de toda a dor que provocaram.


Mas não os únicos latejados pelo arrependimento. A filha de Jimmy Gator, Cláudia seguiu um caminho de abusos após fugir de casa, marcado pela droga e pela prostituição. A mulher de Earl, Linda (uma sublime Julianne Moore), casou-se por dinheiro, e é uma infiel compulsiva.
Há poucas vítimas no filme: Frank T.J. Mackey, Donnie Smith, e Stanley Spector são vítimas. O primeiro é o filho abandonado de Earl e agora um misógino profissional. Donnie e Stanley são o antes e depois. Ambos concorrentes vencedores do concurso apresentado por Jimmy Gator e produzido por Earl Patridge, são abusados pelos pais que se aproveitaram e se tentam aproveitar do sucesso dos seus filhos.


Na realidade, todos os filhos são de alguma forma vítimas e cada um reage à sua maneira. Uns arranjam desculpa para perder e se deixarem corromper (Donnie Smith) e Claudia, outros arranjam desculpa para ganhar e terem sucesso (Frank T.J. Mackey).


Existe um desarmante centro moral da história. O polícia Jim Kuring (um genial John C. Reilly) acorda de manhã, faz exercício, realiza as suas orações e fala sozinho no carro com Deus. Refila com quem diz palavrões, e fala a toda a gente como se fossem crianças. Jim sofre de um tipo especial de falta de esperança: a ausência de amor. Jim, como Donnie não são pecadores; seguem as suas vidas minúsculas num corredor preto e branco, sem capacidade para apreender a ambiguidade do desbotado, do cinzento fisco – e não são recompensados pela sua pureza. Antes pelo contrário, todos os elementos amorais da história têm sucesso – ou se são vítimas, como Frank T.J. Mackey, alcançam o sucesso através da mentira, do encobrimento, da falsidade. A única moral prevalente é que é imoral não ter sucesso.


No fim do filme, o nosso anti-herói Jim Kuring elabora um discurso sobre a lei e a ordem; discorre sobre a dificuldade em julgar e aplicar a lei. O cerne do discurso é perdão. O quê que podemos perdoar? O quê que não podemos deixar passar? Pela primeira vez, Jim aproxima-se se um domínio descolorido, sem contraste.
O quê que se pode perdoar? Qual é o domínio das acções passíveis de perdão e aquelas exclusivas do castigo.


Este arrependimento que divaga pelo filme é um arrependimento muito próprio e desprovido de esperança. Não só o perdão não é suficiente, como o castigo não é uma pena – antes algo porque se anseia. Em a Million Dollar Baby tem-se o contra-ponto exacto. Maggy não pretende julgar, nem pretende impor qualquer moral. Ela quer realizar os seus sonhos. E realiza-os sem magoar ninguém.


Não existem sonhos no Magnólia, apenas insidiosas e purulentas recriminações sem fim pelo sucesso ter sido alcançado pela falsidade e pela dor, ou por não se ter alcançado sucesso algum. Emana dele toda uma moralidade muito cristã que afirma que ninguém está desprovido de pecado, a não ser os imbecis rectilíneos. Não existem Maggys. Mas tem sapos.

Monday, March 12, 2007

Shumi


Faz por agora três anos. Três anos sem aquele sorriso de aceitação e compreensão profunda. Três anos sem aquele sorriso maravilhoso. Passei horas e hora intermináveis com ele, e sempre que ele me surge na memória, encontra-o com aquele sorriso doce. Há três anos que tento escrever uma linha sobre esse sorriso e não consigo.
Parecia que nele, existia a íntima percepção da alegria que todas as pequenas coisas poderiam conter; não era uma alegria feita de restos. Era uma alegria densa, feita de todos os pedaços aderentes à vida; daquelas alegrias só ao alcance de quem passou pelo eclipse da esperança na vida, ajoelhou-se na berma da estrada, ponderou ficar por lá – observando cadáveres de sonhos serem arrastados, pedaços de ilusões desmembrados como arame cortado – e voltou a erguer-se.
Agarrar a sombra gasta, fixar o fundo escuro da ruela íngreme e prosseguir, sem dúvida aparente, ou hesitação latente – o ar sério e concentrado quase lhe ficavam estranhos (assim como uma roupa apertada). Não era difícil ver que alguma coisa estava mal; o sorriso perdia substância e o olhar condensava-se em coisa sem brilho. Não; é ridículo imaginar que algum de nós sabia o que se passava. Ninguém fazia ideia. E também não era concebível que o soubéssemos. Ou era? Evito a pergunta muito frequentemente. E vejo-o a fechar os olhos, incomodado pelo próprio fumo do seu cigarro.
Algumas pessoas passam, durante algum tempo, por certas experiências que, pela sua natureza, afectam todos e afectam com força. E só há duas formas distintas das pessoas serem afectadas: ou se afastam ou ficam juntas. Algumas afastam-se; e é muito fácil fazê-lo. Não partilhar as coisas não as faz desaparecer, mas ajuda. Outras ficam juntas. Ficam mais juntas; irmanizam-se. Estou a vê-lo a agarrar a pele da barriga e a esticá-la com força, a rir, rir, rir… Gargalhas roubadas ao receio permanente.
Há outras ainda que possuem um poder extraordinário que é o de obrigar as outras a juntarem-se por ele. Não que as obrigue, ou faça referência, sequer de forma indirecta. Algumas pessoas possuem uma alegria e uma inocência tão próprias, exibem de forma tão nua tanto as suas fraquezas como a sua grandiosidade, que simplesmente é impossível não as seguir. O João era uma dessas pessoas.
Revi o Seven há pouco tempo. O filme termina com aquela frase célebre. “O mundo é um bom lugar, e merece que se lute ele; eu concordo com segunda parte”. Eu também.

Friday, March 09, 2007

As mãos e os vidros



Mãos abertas, vidros manchados. O cheiro à tinta agora colocada e a noite que amorna a pele sugada ao tempo. Houvesse nesse tempo matéria tão mais suave que o desta voz que sara a alma fria; mãos abertas e quentes, vidros manchados e baços. Somos rascunhos inacabados de um nada permanente. Matéria de geometria rectilínea que alimenta todos os gestos incertos. Mãos abertas, esfoladas sobre o feltro do vidro. O cabelo quente; o cabelo mais quente que aniquila a miopia toda. Houvesse mais miopia e assim sentisse mais calor pelo cabelo todo. As mãos manchadas sobre o vidro.