A realização do absurdo por Camus, e as consequências dessa realização, é um problema comum a todo o existêncialismo, que erra, como toda a estrutura do existêncialismo erra, ao derivar uma tese geral – uma premissa dialéctica que advém da observação da história enquanto movimento fenomenológico – para o nível particular da existência de cada indivíduo. Erra clamorosamente.
Erra porque não admite a inacção ao nível individual perante o cavalgar imparável da história. Erra porque extrai desse cavalgar a vontade combinada de todos os seres. Erra porque reduz a vontade do ser, à vontade dos seres em seu redor. Erra porque parte da singular premissa que o ser humano é uma térmita, um ser únicamente gregário e social, sem vontade própria se não a que lhe é implantada por uma torrente macroscópica dialéctica. Erra no fundo, no atomo da questão ao assumir que a história é o resultado da vontade combinada dos seres que nela habitam, pelo que do seu desenrolar, se pode retirar conclusões sobre os seus intervenientes ao nível individual.
O ser humano não é uma térmita; é um lobo com uma lealdade implantada para os aos seus e uma desconfiança intrínseca em relação aos outros. Aldous Huxley elabora exaustivamente sobre esse aspecto semi-grupal da nossa identidade no Regresso ao Admirável Mundo Novo. A busca identitária realiza-se no ser humano entre aqueles que o acompanham; a sua lealdade é devida ao seu clã, à sua tribo, aqueles que ele assume que são lhe são iguais. Não a todos. Apenas a alguns. Tal qual resolução da questão Hegeliana que é a identificação do outro como um igual – o senhor e o escravo.
O absurdo não existe em Sísifo enquanto ser social. Existe em Sísifo enquadrado individualmente num movimento dialéctico. A revolta de Sísifo nesse plano seria nula caso não estivesse sozinho nesse afã estéril. Seria não existente caso fosse partilhado com o seus – com aqueles que ele reconhece como iguais a ele. A resolução da questão de Camus encontra-se na credibilidade da aceitação da história. Um homem, Sísifo, que desprezou a morte e os Deuses em vida, é condenado a passar o resto da eternidade num trabalho vão: erguer um rochedo por uma colina para depois o deixar cair. Sísifo executa esssa tarefa diligentemente, em vez de preferir a morte. Nele ergue-se uma estrutura identitária mais forte que a futilidade da existência: a culpa. A culpa da sua futilidade em vida, mas que apenas faz sentido numa existência sujeita ao juízo dos outros, e como tal, Sísifo executa a sua tarefa acompanhado pelos os outros que o culpam e o forçam a castigar-se, buscando assim a remissão. Culpa, castigo, remissão. Uma das mais poderosas estruturas identitárias da nossa civilização aí se encontra presente. Em Sísifo, observando o rochedo despenhar-se do novo no sopé da colina não existe nenhum absurdo.
A credibilidade do castigo é também medida pela sua aceitação. Por alguma razão Prometeu, condenado a estar preso a uma árvore para que uma águia lhe depenicasse o figado durante todos os dias até ao fim da eternidade, dado que este lhe crescia de novo durante a noíte, se encontra preso. Não seria credível que alguém de livre vontade aceitasse tal sofrimento sem preferir a morte. No caso de Sísifo, ele não prefere a morte.
Caso um extraterrestre que nos visitasse, a existência poder-lhe-ia parecer estranha, desobjectivada, desprovida de sentido se fosse encarada a um nível estrictamente individual com a tela da história por trás. Mas não o é ao nosso nível semi-grupal – nível esse composto por um universo de lealdades e afectos pelos outros, valores e tradições pelos demais – todos os elementos que nos permitem criar essa maciça ilusão de continuídade através da preservação da identidade.
Chegado aqui, apresenta-se a verdadeira questão filosófica do mundo de hoje. Um mundo que aniquilou tudo aquilo que absorvia essa sensação de estranheza; um mundo que aboliu as religiões, matou Deus, inutilizou as ideologias, relativizou tudo, globalizou tudo, tornou tudo num produto standard, pôs tudo online, e que no processo desagregou as famílias que agora, a existirem, vivem em pontos diferentes do mundo, em apartamentos minúsculos, com um filho ou nenhum, e sem amigos – apenas elementos orgânicos de um processo subreptício designado por, wait for it, networking.
A verdadeira questão, é imaginar como estabelecer uma identidade – algo que foi um dado adquirido durante milhares e milhares de anos, algo que originou costumes e tradições (tudo amuletos de identidade), algo que precipitou guerras (ainda precipita segundo alguns: Samuel Huntington), algo que nos definiu de acordo com a nossa natureza, e essa é segundo Huxley, uma natureza semi-social, como lobos.
A verdadeira questão é como nos definir para além da condição de cidadãos – em que a cidadania se resume à participação eleitoral – submersos num sistema em que as instituições se revelam impotentes, incapazes de prevenir a aniquilação do planeta, ou garantir o funcionamento regular do mercado – sem cíclicas espirais de destruição maciça de valor em troca da apresentação de deslumbrantes rácios EPS. A verdadeira questão é como nos definir para além da simples condição de consumidores, simples autómatos de criação de riqueza e distribuição da mesma em pequenas, médias ou grandes superfícies, num exercício esgotante de hedonismo. Cidadãos num estado de cidadania mediocre, destituídos de identidade, leves como uma pena, e com um cartão de crédito. Eis-nos. E não nos satisfaz.
Como redefinir essa identidade? A esta questão não tenho resposta; apenas verifico um equilíbrio densamente instável.
Verifica-se um regresso a valores tradicionais em todo o mundo – valores ligados à religião, e à família. Um regresso extremo, sem ponderação, como todos os movimentos que se fazem por reacção e não por construção – e.g. o cresimento de ordens religiosas como a Opus Dei. Tenho certo por certo que parte da resposta aí se encontra: numa redescoberta da espiritualidade. Mas não me parece contudo que seja neste formato. Uma redecoberta impositiva que inscreve fronteiras artificais num mundo global; uma que impõe modelos anacrónicos na determinação do papel da mulher; uma ainda sustentada por alicerces de culpa. Não me parece que seja víavel aceitar uma nova espiritualidade com velhos princípios porque esses, esmagam, como sempre esmagaram, a individualidade. No mundo de hoje, a individualidade já não pode ser negada.
Verifica-se ainda um movimento para tornar próxima essa espiritualidade perdida através de uma abordagem inovadora: algo presente no fenómeno de proliferação de seitas, entre as quais, a Igreja da Cientologia, conhecida entre outras coisas, por ter sido criada por um escritor de ficção científica – profeta suposto de uma confederação das galáxias criada há 75 milhões por um tal de Xenu. Centenas de milhares de pessoas seguem estas seitas e dedicam a elas grande parte dos seus recursos e tempo. À parte da efabulação estranhamente aceite por pessoas aparentemente inteligentes e bem sucedidas, o relevante na Cientologia e em outras seitas é o seu apelo pelo universal e galáctico, como se os mitos terrenos já não fossem suficientes. E de facto, começam a não ser porque nos encontrámos cada vez mais longe deles e das parábolas que representavam, e mais próximos do exterior, mais conscientes da finitude e da precariedade do nosso pequeno planeta.
Verifica-se também a criação de mecanismos artificiais de sustentação de uma identidade conjunta como nas novas redes sociais: e.g. facebook. Algo que não é verdadeiramente genuíno, nem nunca o poderá ser. Algo que representa em termos simbólicos a ilusão de uma tribo, mas que na práctica não passa de uma rede de contactos oportunistas.
Verifica-se a proliferação de ONG’s. Organizações de defesa do consumidor. Organizações de defesa do ambiente, dos animais, das minorias, de todos os que não são como nós ou que são, que partilham ou não os mesmo interesses, sem se saber exactamente o que é a maioria ou o que é que a define. O que é o nós, posto de forma mais simplística. De tudo isto, uma coisa estou certa: é um equilíbrio meta-estável. Tal não nos diz o que vai acontecer; apenas nos diz que não vamos ficar assim durante muito mais tempo. A malaise de 1914 prolifera e esta noção de final de história – da qual já foi apoainte convicto –, desagrega-se em torno dessa primal questão dialéctica que é a dirrecionalidade da história. Se considerarmos que não nos tem levado para nenhum sítio que os arautos nos indicaram, a existir tal direcionalidade, afinal para onde nos leva?
A única questão filosófica que se deve pôr é a seguinte: após a destruição do fragmentado tecido indentitário que evolutivamente nos preservou grupalmente enquanto clãs com lealdade familiar, e que progressivamente nos elevou a povos acompanhados de religiões com lealdade cultural, será que é possível criar uma indentidade ainda mais elevada, erguendo-nos à condição global de humanos terrestres, ou, antes pelo contrário, mergulharemos num novo foclore identitivo em extrema rotura social?
Certo é que a história progrediu de tal modo que o indivíduo se libertou da armadura que lhe conferia a protecção suficiente para a resolução da questão existencial. E sem essa placenta, Sísifo não será capaz de continuar a empurrar o rochedo.