Wednesday, May 31, 2006

As peles não criam electricidade


As mãos dadas e os segredos guardados na cómoda.
O silêncio pesando como um abraço granítico.

Tenho um universo morto na minha garganta; engulo cores e diapositivos de placentas.
E aglomero léxicos desprevenidos com a saliva espessa.
Algumas coisas gravitam e outras são estáticas.
Algumas rodam e outras estão fixas.

Algumas coisas estão simplesmente feitas para nunca se encontrarem; é a distância que as cria – não o contacto.
Entre elas um murmúrio musical como a catedral engolida.

Mesmo de mãos dadas, as peles não criam electricidade.

Sunday, May 14, 2006

Lisboa embargada


Lisboa embargada, Lisboa adormecida. Já te falei de Lisboa. A Lisboa amanhecida que me fixa estremunhada. É a minha Lisboa. Aquela luz suave que desliza pelos ossos e anuncia as estrelas. É dessa Lisboa que falo. A minha Lisboa.


Quando me disseste aquilo, não pude deixar de pensar no fim de ano. As janelas abertas nos prédios amarelos pálido. Havia aquela necessidade de verdade imensa.
Sabes o que é que fiz a seguir? Sigur Rós como um transplante de córnea. Na voz de JFK disse-te, Nós somos todos Islandeses.

O gelo sobre a pele, e a verdade como gelo. A ordem lógica das coisas. É claro que sim. Vais-me perdoar se discordo que as coisas têm uma ordem, e que essa ordem é lógica.

A única coisa lógica é a Lisboa que se embebeda sobre a calçada estéril. O que é bom. Se a calçada se reproduzisse com a especturação dos Lisboetas, Lisboa seria a maior montanha de calhaus deste planeta. Mas continuaria a ser a minha Lisboa.

Thursday, May 11, 2006

Memory is a good thing if you don't have to deal with the past



Quando ele a viu, ele era exactamente aquilo que ele queria que ela visse; provavelmente nem era exactamente aquilo que queria ser. Mas era aquilo em que achava que ela queria que ele se tornasse. E isso é independente da hipotese se voltarem a encontrar.
Sim; mesmo que ele tivesse a certeza que não voltariam a ver-se, ele tentaria atingir aquela imagem hiper-estabilizada, segura e disponível. Por mais inconsciente que o processo ocorra, a verdade é que quando se anseia um reencontro com alguém, esse reencontro é com mais do que uma pessoa. É com essa pessoa e com a pessoa que era-mos. Uma pessoa ainda não ciente do desejo de possuir uma imagem hiper-estabilizada, segura e disponível; e completamente não ciente do desejo permanente que a outra pessoa – que nos faz desejar ser isso – provoca em nós.

Bem que se pode argumentar com o tempo em que o fomos; uma coisa é certa: ser novo e ter certezas nítidas está apenas ao alcance de quem é novo e não tem esperança nenhuma no que o futuro lhe possa reservar – demasiadas certezas demasiado cedo é um acto de intensa desesperança.

É portanto obvio o que acontece – e ao mesmo tempo ridículo, e por isso mesmo ridículo. Existem tempos em que se vivem momentos únicos e irrepetíveis da vida. Não que não se desconfie que são únicos. Eles são sentidos como tal e é isso que, logo no momento, os tornam únicos. O que não se desconfia é que são irrepetíveis. Principalmente para quem os vive na altura.

Como distingui-los então? Como saber que o foram? Não é difícil. Basta reparar numa absurda tendência (uma espécie de patologia hepática) em encenar as mesmas circunstâncias com pessoas diferentes. As mesmas situações, provavelmente até nos mesmos sítios, de uma forma estranhamente semelhante. Uma óbvia encenação de um reencontro, não com o objecto original, mas com uma réplica que antes não o era – nem se pretendia que o fosse – mas que, por não provocar o burst anterior, o mesmo estado de enchantement, mimetiza-se em tal.

No entanto o processo é inevitável, pois só quem não cede à desesperança demasiado cedo é que interrompe a continuidade dessa circunstância idílica por um futuro totalmente incerto – que é aliás a mesma sede de futuro que leva o encontro original a desenvolver-se de forma tão intensa e completa.