Thursday, February 14, 2008

Acontece-nos



Eu gostava daquele prédio. Gostava do pátio das traseiras asfaltado onde as crianças jogavam à bola. Via alguns jogos nas tardes domingo. E não era o único. Os miúdos ensaiavam as tabelinhas, os remates de longa distância, as fintas de corpo. E sabiam-se observados pela massa associativa do quarteirão. Por vezes ouvia-se um aplauso das bancadas de vidro seguido de um, Boa miúdo, e o miúdo fingia não ouvir mas via-se que ficava orgulhoso e sem jeito. Normalmente após um Boa miúdo, o miúdo em causa subia as meias, passava a mão pelo cabelo suado, e dava um ok desajeitado para o companheiro de equipa. Fingia que não era nada com ele.
Eu gostava das birras do Joaquim que era o dono da bola. O pai assistia aos jogos das bancadas de vidro e não se cansava de gritar, Vai Joaquim, vai! Vai para o golo! Quando as coisas não lhe corriam bem, o Joaquim mandava calar o pai e ameaçava os outros que se ia embora com a bola. O pai mandava-o jogar em vez de falar, o que, como é óbvio, ainda o enfurecia mais. Eu exibia mentalmente um cartão amarelo por protestos, e dava mais um gole na cerveja. Passava os Domingos assim, e não me importava nada.
Quando mudei de casa passado algum tempo, passei a ocupar os meus Domingos com uma esplanada simpática que havia lá perto. A casa era maior, com mais luz e espaço para arrumar os meus discos. Á frente, havia um jardim com uma fonte que orvalhava o ar com o cheiro a terra molhada. Era um sítio calmo e com pouco barulho, mas isso depressa começou a incomodar-me mais do que a satisfazer-me. Com o tempo, toda aquela acalmia meio bucólica começou a saturar-me e as saudades do meu antigo apartamento comprimido entre outros tantos iguais surgiram. Sentia que faltava ali qualquer coisa; talvez as crianças, talvez os gritos do pai do Joaquim. Alguma coisa.
Fazia pouco sentido que fossem as crianças. Eu sempre tinha gostado de crianças, mas com perímetro de segurança devidamente montado à volta. Tinha mesmo tomado a decisão, plenamente consciente, de não deixar semente – o que foi, apesar de tudo, uma decisão fácil de tomar para quem tinha uma mulher que não podia ter filhos. Bem sei que, ao conhecer essa circunstância, podia ter tentado arranjar uma solução; ou então outra mulher. Mas não. Acho que na realidade, até fiquei satisfeito com toda essa ausência potencial de vida.
E apesar de tudo, era dos miúdos que sentia falta. Não dos miúdos em si; era da sua ausência de destino. Um miúdo não tem peso; é leve como um dente de leão. Pode vir a ser tudo. Eu já não podia ser coisa alguma a não ser aquilo que era. Era um homem cheio de destino, ou cujo destino havia preenchido sem dar conta de si. Eu era como uma farinheira cheia pronta a ir para o fumeiro. E aqueles miúdos eram só tripa – tripa transparente e ávida de destino.
Durante a guerra – sim, estive numa guerra, não interessa qual porque elas são todas iguais – conheci um oficial que de vez em quando, um quando meio satisfeito mas ao mesmo tempo conformado, dizia, Todos os homens têm um destino a cumprir excepto os soldados, que primeiro têm de cumprir o seu dever. Depois costumava sorrir num monossílabo, assim entre o assentimento e o desprezo. Era um tipo curioso. Morreu já depois da guerra num acidente de automóvel. Talvez tivesse razão.
Quem andou na guerra tem uma dificuldade do caraças em entender que um tipo sobreviva à guerra e depois morra num acidente. Acham-se isentos. Têm a mania que controlam essas coisas todas. Até qualquer coisa parecida com o destino. Primeiro o dever, depois o destino. Deve ser algum mecanismo de compensação. Deve ser isso.
Eu nunca me senti culpado pelos que lá ficaram. Ficaram lá os que tinham de ficar. Nem, tão pouco, me senti especial ou um herói. Aliás, na guerra nunca conheci um herói. Pelo menos vivo.
Ultimamente costumo ir outro jardim que é aqui perto – são duas paragens de autocarro. É menos bonito e tem menos sombras, mas tem miúdos. Tem um gramado cheio que Joaquins a jogar à bola. Gosto mais deste. Sou invadido pela leveza habitual enquanto tento discernir o quê que estes miúdos vão ser daqui as uns anos. Também tem umas mães engraçadas, mas eu já estou demasiado velho para essas coisas.
Houve um tempo - não há tanto quanto isso, embora a mim me pareça que foi noutra vida - em que ainda sentia essa leveza em mim, e não precisava da leveza dos outros. Já era casado há uns vinte anos, mas saí de casa sem uma hesitação. Não era, diga-se, a primeira vez que saía de casa. Mas dessa vez, não estava propriamente a sair de casa – estava a sair de uma vida que, de repente, tinha compreendido que não era a minha. Nessa altura, pela primeira vez, estava a cumprir um destino. Mas é claro que, na altura, não o sabia.
Chamo-lhe destino mas sei muito bem que não existe nada escrito sem ser pela nossa mão. O destino somos nós. Infelizmente, achava que destino era aquilo que já sabia que ia acontecer antes de acontecer. Era uma ideia que se tinha antes e que, de repente, acontecia. Mas não é assim que se passa.
O destino acontece-nos, era assim que ela dizia; e tinha razão. Acontece-nos quando o vivemos, e é tão inevitável que não vale a pena ter pressa. Vai acontecer. Na altura não o sabemos. Claro que não o podemos saber. Isso era batota. Destino não é querer muito uma coisa e depois tê-la. Isso é ambição. E aquilo que obtemos nunca é igual ao que idealiza-mos - a desilusão é inevitável.
Destino é ter sem desejar, sem lutar por isso, sem fazer absolutamente nada, e mesmo assim receber o que ainda não sabemos que queremos – e queremos acima de qualquer coisa na vida.
E foi assim que se passou. Uma encharcada de destino súbita; quase fiquei diabético.