
Actos existem em que não estamos nós, mas um aglomerado de primeiras pessoas do plural, todos entrelaçados por um único desejo, mesmo que, por vezes, seja imperceptível. É exemplo disso o acto de aplaudir; nesse acto existem sempre duas incertezas: a hesitação do aplauso inicial (ninguém quer ser o primeiro a aplaudir), e a hesitação da duração desse aplauso (ninguém quer ser aquele que vai dar as últimas palmas que irão soar a um móvel a cair no chão).
Em ambas a circunstâncias reside o temor de, numa sala repleta de público, o único aplauso a ecoar ser o nosso, e de imediato todos os olhares se pousarem sobre nós. Dirão então: “Será que aquele ainda não percebeu que não está mais ninguém a aplaudir?” Ou pior: “Porquê que ele está a bater palmas se a peça ainda não acabou?”
Constrangimentos sucessivos surgem nestas situações, todos relacionados com o sentimento de nos sentirmos isolados da multidão. Porém, casos há, em que não é a solidão que nos constrange entre a multidão. Durante o acto do aplauso, esse acto partilhado pelo público, surge um sentimento de comunhão entre perfeitos desconhecidos por um elemento que, provavelmente até à altura, seria também desconhecido.
Os aplausos propagam-se (a palavra correcta seria francesa: répandre) e em nós propaga-se o fervor da comunhão. Existe um claro desfasamento entre a decisão tomada de terminar o aplauso, e o acto físico de o terminar. Pegando nas palavras de Jorge de Senna, um dos poetas mais esquecidos do meu pequeno país e retirando-as do seu contexto: “...Este pousar em que não estamos nós, mas uma sede, uma memória...” Este pousar em vez de mãos que se interrogam, é um estremecer de vibrações, uma energia colectiva que se aglomera, e perpetua o acto do aplauso, sempre, muito para além do razoável. Pegando no mesmo cenário (caso ainda não saiba estamos num teatro e acabamos de assistir a uma interpretação gloriosa do Hamlet), identificamos outro conceito essencial nesta comunhão de massas: a energia mínima de activação.
Esta será a quantidade energética necessária para que surjam aplausos, ou que as pessoas se levantem, ou que vaiem a interpretação. Assim, se no final do espectáculo, apenas uma ou duas pessoas se levantam para aplaudir a interpretação, as outras pessoas não se sentirão pressionadas para o fazer, e continuarão o seu aplauso sentadas.
Se no entanto o número de pessoas que se levantarem chegar à energia mínima de activação, o restante público sentir-se-á pressionado para o fazer também, e é certo que a maior parte da sala se irá erguer para aplaudir de pé (mesmo que considere que a interpretação foi apenas razoável); tal não significa que todos o façam (alguns poderão entender que a interpretação foi de fraca qualidade), mas por certo que agora esses irão sentir-se como nós há bocado, quando começamos a aplaudir esta mesma peça antes dela ter acabado; e essa sensação é a que pertencem a uma minoria e que estão a ser observados pela vasta multidão, com desdém.
Em tudo o que não é certo nem objectivo, seguir o outro faz sempre imenso sentido – mesmo que o outro seja desconhecido e não concordemos particularmente com ele.
Talvez seja por isso, que a arte é tantas vezes um mito fundamentado pela opinião de poucas pessoas, e acaba por, enquanto arte, ser admirada, nem por artistas nem por qualquer público, mas por algumas pessoas muito decididas no acto de aplaudir, ou vaiar.