Entre nós e os mortos um silêncio entre vivos vigora
Agora que já nada resta para dizer
A fúria mansa e diária de se existir e nada se fazer
Nada se existir ao fazerE interrogam-se entre nós aqueles que dizem
Que os outros nada fazem
E ainda assim apenas o fazem para nada
Ter de fazer
Entre nós e os outros uma lava fétida percorre
Os dias e estamos todos de mão estendida
A pedinchar ou mais tempo ou algum sentido
Mas nunca ambos
Pois com o tempo não bastaria perceber-lhe o sentido
Seria forçoso exibi-lo e isso cansa
Até porque o ter o sentido em nada revoga
Esta mundana experiência de não-morte
Somos gatafunhos de estéril vida individual
Ao abrigo de uma qualquer futura dialéctica
E impõe-se a questão
Entre mim e os mortos e os outros
Que podemos fazer
Somos matéria cósmica comum indistinta numa concha
De nada
Entre nós e os mortos a surpresa da absolvição
O fascínio pela libertação de endorfinas
E para além do princípio do prazer
O feitiço paralisante da reprodução em massa e do contínuo exercício do poder
Entre nós e tudo,
Somos a mão que se estende e perfura a noite galopante
A mão que se ergue e dobra a gravidade
Até as unhas se encavalitarem mas sem dor
Apenas uma picada e depois um alívio contínuo.
Mas somos apenas isso
Uma mão estendida