Monday, January 28, 2008

Kind of Blue


Havia um azul calamitoso naquele olhar que eu nunca esperei ponderar. A natureza humana esconde-se em todo o tipo de tons de azul. E este era o azul mais imponderável que conhecera. Era, certamente, o meu tipo de azul.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. Apartamentos esconsos na Escandinávia, estradas nacionais não cartografadas, bancos de jardim na Avenida da Liberdade. Estive em todos esses sítios. Mas nunca me deparei com um azul assim. E não posso lá regressar.

A natureza humana e a sua degenerescência. Continuo um óptimo produtor de serotonina segregada em parques de estacionamento vazios; pródigo manufactor de afectos e coisas que estrangulam violentamente o coração em dias escuros. Ou é então a visão que tinge o horizonte com essa opacidade. Talvez para esconder o azul, e mais particularmente este tom de azul; o meu tipo de azul.

É tudo uma gigante comédia. Uma comédia num palco com uma audiência muda que se ri com ganidos ferozes. Uma comédia humana. Continuamos a lambuzarmo-nos de serotonina, mas a degenerescência é avassaladora no traço, na dureza, e no brilho. A experiência da vida é avassaladora vista deste lado.

É difícil sentir o azul a chegar; ele aproxima-se como uma maré vaga e vai humedecendo a carne com uma doçura intransigente. A doçura do marulhar embriagado dos beijos e do adormecer. Eu sei uma coisa ou outra sobre a intransigência. E sei que é azul em toda a sua superfície acrílica que é no que se torna a carne após um curto período de exposição. O azul é radiação.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. E desta vez não posso mesmo voltar. A existência é o meu exílio, e lá gastarei o que me resta de eternidade, sem remorsos, sem azul, sem ti. Muito provavelmente, sem nada.

Friday, January 25, 2008

A conquista do chão

Quando era criança não conseguia chegar às janelas. Vivia num andar com as janelas mais perto do tecto do que do chão. Quando era criança vivia mais perto do chão do que do tecto, e passava lá a maior parte do meu tempo.

Quando chovia, punha-me em bicos dos pés sobre o parapeito das janelas e observava-a a cair. Mas não era propriamente isso que queria; o que eu queria era chegar à janela e encostar a minha cara junto ao vidro. Ia buscar uma cadeira e colava a minha testa na face do vidro – antecipando o arrepio de frio que iria ter. Então ficava imóvel, com as pernas esticadas sobre a cadeira e a cara esbugalhada sobre o vidro vertendo gotas pelo exterior; observava-as escorrendo, seguia-lhes a trilho com os dedos minúsculos e esperava que a respiração condensasse.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, passava as tardes de chuva com cara encostada à janela, esperando que a minha respiração condensasse. Depois entretinha-me a desenhar sobre aquela ardósia baça; formas desbotadas, sem cores, sem planos. Desenhos efémeros, que sabia irem-se extinguir em breve. Ainda assim, preferia o vidro a chorar aguarelas às folhas de papel engomadas; preferia os meus dedos à colecção de lápis de cera.

Percorria cada parcela condensada da janela imensa como se estivesse a delimitar um território; tinha a sensação que cada novo pedaço de janela desenhado era um pedaço meu, um ponto elevado de onde podia observar toda a extensão das minhas conquistas no chão.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, sentia que aquele era o meu território, cada esquina, cada aresta, cada lasca de tinta desfeita sobre o rodapé, cada nó da madeira sem verniz no soalho.

Foi então que me habituei a observar a chuva com a cara encostada à janela, a seguir o trilho das lágrimas esgueirando-se pelo olhar, as pessoas caminhando pela rua com o ar desanimado, as arvores ondulando, as folhas suicidando-se serenamente, e a luz da tarde pousando-se sombria sem que eu desse conta, até me chamarem para ir tomar banho.

Monday, January 07, 2008

If then else




Se a manhã acordar fria como a morte
e o céu surgir com olheiras e luas desmaiadas
se as flores acordarem cegas e
o mar estiver espesso como lava
se a boca acordar ácida e as mãos geladas e
o estômago encolhido como um feto
Se as palavras soarem a silêncio destilado e os
gestos a cimento venenoso
se o acordar for lento e impiedoso
então sabes bem que será porque dormimos
no mesmo sonho e acordamos a querer adormecer
de novo.