Friday, March 31, 2006

BMW



In the next world war
Jackknifed juggernaut, I am born again.
In the neon sign, scrolling up and down
I am born again.

Interstella burst.... I am back to save the universe.

In a deep deep sleep, of the innocent
I am born again.
In a fast german car, I'm amazed that I survived
An airbag saved my life.

Interstella burst.... I am back to save the universe.
Interstella burst.... I am back to save the universe.

(various moaning)


Entrar com calma. E não pensar nisso, não sorrir, nem ao de leve. Ir ter com ela, já. Andava de carro há pouco tempo e ainda possuía alguma desconfiança compenetrada sobre a eficiência daquilo tudo. Imaginava os cilindros penetrados por pistons sinistros vertendo lama preta pela estrada desmaiada. Tinha a certeza que alguma coisa ia correr mal.

In a fast german car, I'm amazed that I survived
An airbag saved my life.

Antes de me deitar tinha a mesma sensação; invadia-me aquela noção de cão morto. Sentia-me uma pipeta com hemoglobina. Uma gaita-de-foles com oxigénio da rede pública.

Interstella burst.... I am back to save the universe. E o carro avançava sem piedade por mosquitos ou átomos de azoto.

Fiz a viagem toda de noite – Fitter, happier, more productive, confortable, not drinking to much, regular exercise at the gym, …, a safer car, sleeping well, no bad dreams. As viagens de noite emudeciam-me o medo de ser comido vivo pelo tempo. E imaginava sempre que iria chegar a um sítio vazio e que tudo estaria vazio quando chegasse e que tudo faria sentido.

Interstella burst.... I am back to save the universe.
Interstella burst.... I am back to save the universe.

O Airbag salvou-me a vida que eu tinha esquecido que tinha. Ficámos bons amigos.

(various moaning)

Tuesday, March 21, 2006

A relação dos terráqueos com a excepção que confirma a regra


A entropia na teoria da informação corresponde à incerteza probabilística associada a uma distribuição de probabilidade. Cada distribuição reflecte um certo grau de incerteza e diferentes graus de incerteza estão associados a diferentes distribuições (embora diferentes distribuições possam reflectir o mesmo grau de incerteza). De um modo geral, quanto mais "espalhada" a distribuição de probabilidade, maior incerteza ela irá reflectir.

Por exemplo, se alguém lançar um dado de seis faces, sem saber se ele é viciado ou não (Nada a ver com coca), a probabilidade mais razoável a ser atribuída a cada resultado possível é 1/6, ou seja, representar a incerteza usando a distribuição uniforme. Esta atitude segue o conhecido princípio da razão insuficiente de Laplace, onde atribuir probabilidades iguais aos eventos possíveis é a maneira mais razoável de alguém reflectir sua ignorância (e sua incerteza) quanto às probabilidades de ocorrência de cada evento.

Por outro lado, provendo-se a informação de que o dado é viciado e que ele dá números maiores, i.e. que a média é por exemplo 3.5 e não 3, então a pessoa naturalmente irá assumir uma distribuição alternativa à uniforme para expressar sua incerteza.

A informação complementar implica uma actualização da função distribuição para discernir o resultado de um evento enquanto variável aleatória – e não elemento determinístico. Ou seja, mais informação tem normalmente a desagradável consequência de obrigar uma alteração na forma de raciocinar; desagradável porque o arquétipo de pensamento anterior é contestado face à defesa pelos seus anteriores utilizadores – ainda não cientes da nova informação.

Estranhamente, é costume entre os terráqueos insistir no arquétipo anterior, apesar de já possuírem a nova informação que o invalida. O que não deixa de criar a não menos desagradável consequência – de forma a continuar a validar o sistema antigo – de criar excepções às regras agora já não aplicáveis porque erradas.

Seguindo o nosso exemplo do dado viciado em canabis, assumir-se-ia agora que a probabilidade continua sempre 1/6, menos na faceta que origina o 4; e eis o paradigma antigo aglomerado com a nova informação que o invalida.

Nada mais contraditório, nada mais terráqueo, nada mais perigoso.

Sunday, March 19, 2006

Guelras



Os corpos abandonados e a cafeteira de cigarros posta ao lume. A luz indagando presenças, a luz rarefeita e as sombras com metástases; a sombra percorrendo-te o corpo como a humidade do mar junto à arrebentação refrescando a pele: a sombra era vaga e meticulosa.


Os corpos postos ao lume e as palavras deixadas ao abandono. As palavras intoxicadas pela luz angulosa, as palavras enforcadas em cada beijo. Os beijos e as sombras chapinhando como amêijoas voadoras em nosso redor. No redor dos corpos em comum.
As palavras requentadas que não vamos trocar; palavras de calafrios e inquietude. As mãos entornadas por todo o lado como um vazio de dedos preenchidos; o suor ressequido, cristalizado como a resina dos pinheiros.
O teu corpo remexendo-se e o olhar entreabrindo-se. A lixívia escorre-me pelas olheiras – olheiras de não dormir por te olhar; olheiras que engoles ao fechar de novo os olhos. O polimento subtil das pestanas periclitando e as pálpebras contraindo-se.

O quarto com os seus pombos silenciosos; no quarto caminham pombos não-voadores aguardando as nossas migalhas. As patas deslizando e as asas ajeitando-se: é tudo o que se ouve.
As migalhas de silêncio, este silêncio mal apagado. Não temos nada para dizer um ao outro. A sombra transparente da escuridão reflui, expele a luz das nossas membranas postiças.

Tenho guelras porque respiro debaixo do amor e tenho sono porque te olho durante toda a noite.


Saturday, March 18, 2006

Leutnant Törless


De dentro da carruagem, baloiçando pelo empedrado burilado, Törless fixava-se sobre a mancha de céu obscuro que o envolvia; nela distinguia desvios concêntricos que perfuravam a imensidão plana; a perspectiva era inconstante, e dada pelo baloiçar da carruagem.
Törless sentia a pelugem macia da nuvem na cara como um borboto de céu exilado e sobre a chama mansa de luz cerrava densamente os olhos.

Era assim de olhos fechados, as têmporas estalando em regozijo pela percepção abstracta do movimento apenas dado pelo calor vagueando pelos lábios e o trote insinuando matéria animal que o outro espaço – aquela imensidão de luz e de céu – se aproximava de Törless, descascando-se de perspectiva e assumindo perante Törless uma natureza bidimensional que o aproximava de um relais de poste situado entre o que os sentidos percepcionavam e o que dele se estratificava entre planos de montanhas e céus a galope por um universo mágico.

Sobre as nuvens obscuras e os seus rebordos iluminados por cometas; Törless mergulhava lá o seu olhar curioso e destemido. Mas era a ilusão do descontrolo que a cegueira em movimento conferia que lhe dilatava a imaginação, ao ponto de diapositivos nítidos do exterior se apoderarem dele.

Por vezes o silêncio aproximava-se porque Törless se ausentava em definitivo do contacto com o exterior, e aí a jugular inchava até o frémito intermitente do batimento cardíaco obstruir toda a imagética transbordante do seu espírito; enquanto apenas um sapateado binário era audível em Törless, os restantes sentidos depositavam-se em espaços inconscientes da sua abstracção e para ele era como se ainda não tivesse nascido.

Mas logo e sempre, o retrocesso uterino era interrompido assim que o dedilhar seco do coração era invadido pelo pizzicato do trote, e a aflição invadia Törless ao tomar a fúria cavalgante do trote acelerado pelo seu próprio coração; aí abria os olhos com esforço, permanecendo um longo período inquieto e na dúvida se adormecera ao de leve ou se o mundo em seu redor se ausentara por breves e escamosos instantes.

Era essa ansiedade inquieta que naquela noite – no intervalo do Tannhauser em Viena – se apoderara dele, assim que Maria se aproximara e lhe dissera alegremente: “Meu caro Törless, o uniforme fica-lhe tão bem. Ah desculpe… Se bem percebi agora é Leutnant Törless, não é?

Törless via Maria bem longe do outro lado da sala e não sentia forças para a replicar diante de si – embora tal estivesse ao seu alcance – e limitava-se apreciar o seu cheiro vago a alfazema e amêndoas.

Monday, March 06, 2006

O click, o momento anterior




Eu e a minha Staedler navegando pelas fiadas das horas, horas seguidas enxugadas com os Brandenburgueses, horas parasitárias desfilando entre os coágulos dos dedos. Era apenas eu e ela, ambos omissos de carne envolta, os dois mastigando cartilagens abrasivas, desenhando mitos ao pé cochinho, apoderando-se da transeunte insanidade adjacente; porque ela existe, está lá. Está lá à espera de ser tomada, ansiosa que lhe arranquem as cuequinhas de cetim escarlate e que lhe perfurem o gargalo cristalino; e eu aguardo-a.

Estou numa esplanada em Veneza comendo um bolo de laranja molhado e sorvendo um chianti fresco; encontro-me desperto, e sinto o céu mais azul, mais azul do que as veias encardidas de azul.
Ela está lá, expectante. Eu vejo-a, como uma dobradiça rangendo, vejo-a de madrugada com a voz doce, as coxas quentes, as mamas siliciosas; e sinto-a como aquele click ainda perceptível antes apertar o gatilho.

O click? O T menos 1, o momento que quantifica o limite até ao qual, qualquer decisão é reversível. O exacto instante do início da última unidade temporal. O click: o estado mental que percepciona o movimento estancado, a estaticidade de cada elemento quedo movendo-se por incrementos, no preciso instante antes de acontecer. O click; o momento anterior. O momento que antecede a irreversibilidade.

O click não é apenas o último momento antes do próximo – é sobretudo o instante mais prolongado de todos. Como a distância milimétrica entre duas bocas prestes a beijarem-se, ou a distância entre a luz das palavras transmitidas e as pupilas iniciando uma dilatação de aceitação.

As palavras: a sentença proclamada e mesmo assim não aceite; palavras ensaiadas vezes sem conta, os gestos descoordenados com elas, a espera, ansiosa espera, que a luminosidade do olhar accione o seu entendimento e o click se materialize. O click: o acto que mistifica o futuro.

Estou numa esplanada em Veneza e tenho um rendez-vous com ela; e ela adorava bolo de laranja molhada. Eu prefiro Brandenburgueses insaciáveis com vinho encorpado que aglutine a percepção; e no click entre estados perceptivos diversos, passar-lhe a mão pelo cabelo esfarrapado, o loiro encardido de esperma lúcido, a gengivite amealhando amilóides beta.

Eu e a minha Staedler concluímos que o click pode não ter reacção inversa porque a passagem do ébrio para o sóbrio não tem click enquanto que a inversa tem; o recíproco pode não existir, o que invalida o princípio de Le Chatelier nos domínios do click e torna impossível provar a sua existência por absurdo.
Por absurdo, não se pode comprovar a existência sísmica do click pelo sua merecida não existência. O que prova que o click prevalece nos instantes imediatos antes de desaparecer.

Em Veneza os bolos de laranja são molhados, o chianti muito fresco, e o ar repleto de docilidade pestilenta; a insanidade transvaza-se por entre as marés poeirentas e eu aguardo o sangue das minhas mãos espremidas.

Friday, March 03, 2006

Variações ao Caeiro em Mim Menor


E aí sente-se; mas sente-se de uma forma que ainda não é sentida;
sente-se antes de o sentir ser seja o que for. O que se sente é um indício – não se ouve o segredo mas ouve-se o segredar.
Nesse sentir do que quase é, avista-se por instantes a fruição do que será esse ser-se sentindo – e não apenas a antecipação desse ser-se;
e é nesse sentir de ser-se antecipado,
um sentir tão próximo do que se será que quase é, que por vezes o coração se fecha e o corpo se encolhe como da dor se abrigassem.

Não que esse ser-se que sente como matéria completa e absoluta de sentir seja razão de dor.
Não o é;
é antes a apreensão da passagem entre o ser em que se é apenas para o ser-se em que se sente – tão abrupta e escarpada como um grito que nada diz mas que tudo ocupa –
que faz antever o que será passar desse ser que sente esse sentir tão absoluto e completo – e não adivinhado –
para o ser-se que nada sente e apenas advinha.
E aí sente-se aquele sentir que mesmo não sendo razão de dor, é razão suficiente para a antecipar.
E aí nada se sente.