Sunday, March 19, 2006

Guelras



Os corpos abandonados e a cafeteira de cigarros posta ao lume. A luz indagando presenças, a luz rarefeita e as sombras com metástases; a sombra percorrendo-te o corpo como a humidade do mar junto à arrebentação refrescando a pele: a sombra era vaga e meticulosa.


Os corpos postos ao lume e as palavras deixadas ao abandono. As palavras intoxicadas pela luz angulosa, as palavras enforcadas em cada beijo. Os beijos e as sombras chapinhando como amêijoas voadoras em nosso redor. No redor dos corpos em comum.
As palavras requentadas que não vamos trocar; palavras de calafrios e inquietude. As mãos entornadas por todo o lado como um vazio de dedos preenchidos; o suor ressequido, cristalizado como a resina dos pinheiros.
O teu corpo remexendo-se e o olhar entreabrindo-se. A lixívia escorre-me pelas olheiras – olheiras de não dormir por te olhar; olheiras que engoles ao fechar de novo os olhos. O polimento subtil das pestanas periclitando e as pálpebras contraindo-se.

O quarto com os seus pombos silenciosos; no quarto caminham pombos não-voadores aguardando as nossas migalhas. As patas deslizando e as asas ajeitando-se: é tudo o que se ouve.
As migalhas de silêncio, este silêncio mal apagado. Não temos nada para dizer um ao outro. A sombra transparente da escuridão reflui, expele a luz das nossas membranas postiças.

Tenho guelras porque respiro debaixo do amor e tenho sono porque te olho durante toda a noite.


1 comment:

Anonymous said...

Era deste que te falava. Não sei se é teu, mas é lindo!
Voltei a ler o teu blog. Pelo menos, até tornar a esquecer-te. Para encontrar-te, de novo, daqui a um ano...
Beijo