Esta paz inquieta, interna, ilusória. Aquele sítio. Aquela fome.
Debruço-me sobre esta forma de beleza estéril
Que cospe beijos como ventosas,
E que verte esta fome inquieta, densa, aguçada,
Esta vontade apoiada
Entre o nada e o que resta quando as palavras faltam
E o sorriso perdura, milimétrico, ao apagar-se.
A pele que se esgueira à expressão e os vincos realizando-se
Em incandescência furibunda,
aquela certeza, aquele descanso,
Aquela forma de tudo percepcionar para além da existência.
Esta paz: o roncar da onda que se encolhe antes de arrebentar.
Esta luz simétrica entre a dor e o prazer,
Aí rezar, ou aí exercer a humildade de forma fiel,
Experimentando os vincos do linho bruto desfazendo-se em carne fria,
fome pavorosa, crente, torpedeada.
Este ponto único, solene, vestido de mãos enormes e dedos luminosos,
Embalando o tempo,
Embalando a eternidade que desova nas rugas dos lábios
Rompendo-se em crostas salivantes,
Rompendo-se em migalhas de sangue fundente que engargalam a vontade,
E ANIQUILAM, ARRUINAM, ESTERILIZAM
qualquer forma de generosidade sem pretensão.
Oh Loyolas sarnentos, oh Deuses cúmplices,
Deixai-me atingir o ser
E aí permanecer
Sozinho com a minha fome!
Friday, September 16, 2011
Thursday, September 01, 2011
Acordar em Combray
Acordou meio obstruído na respiração, e por isso respirou fundo. Virou-se de um lado para o outro, aconchegou-se mais um pouco, virou a almofada e fechou os olhos com força. Fechar os olhos e imaginar que tudo está bem, foi o que fez. Imaginou a mesa posta para o pequeno-almoço, e logo sentiu o cheiro das torradas quentes e do café acabado de fazer. Imaginou o carro reluzente parado à entrada com o motorista de camisa ao xadrez e boina bem funda na cabeça; imaginou-o com um pequeno fio de bigode à anos trinta e olhar compenetrado. Em seu redor, imaginou um relvado bem arranjado e acabado de regar, emanando o odor da relva fresca. Um relvado amplo, delimitado por canteiros com jasmins e camélias e por pinheiros bravos enroscados por trepadeiras de verde musgo. Viu a casa de fora: Viu-a grande, branca e antiga como num conto da Sophia. Acrescentou uma cerejeira em flor, caruma estaladiça enroscando-se como cotão na brisa morna, e o zumbir ciclotrónico dos grilos; acrescentou apenas o refluir rochoso de um riacho anónimo galgando o seu curso. Imaginou tudo isso e virou de novo a almofada, esticou-se e fixou-se na janela entreaberta respingada pela cacimba exterior. Assim ficou entretido a contar o tempo que uma gota de chuva sobrevivia na superfície de vidro: doze segundos parecia ser a esperança máxima de vida de um elemento meio vítreo, meio líquido. Começou a sentir a presença de vida dentro dele, o coaxar dormente dos pulmões, o baloiçar intranquilo do coração. Virou-se para o outro lado; não gostava de sentir o bater do seu próprio coração. Não conseguia contudo abandonar o cenário sinestésico que criara, uma espécie de Combray sem Proust, um país das maravilhas sem Alice mas, de imediato, imaginou Proust, Alice, e Sophia a tomarem chá nessa sua casa de campo imaginária e a discutir trivialidades com a rainha de copas a servir biscoitos de limão. Foi dessa forma que dele emergiu um primeiro sorriso, um esquisso de sorrir, um breve alongar dos músculos faciais que de imediato o deixou exausto. Era ainda cedo, perto das sete, mas já se começavam a ouvir passos ténues fora do quarto. Alguém entrou e ele cumprimentou: ah, enfermeira Luísa, hoje veio de branco! Fica-lhe muito bem… A enfermeira sorriu, de forma algo forçada, e, sem nada dizer, começou a passear-se de um lado para o outro no quarto, preparando o banho. Consegue pôr-se direito? – Disse num tom gélido. A sua Combray, que ainda perdurava no seu espírito, desapareceu de imediato, assim como as migalhas do sorrir que obtivera antes; com os braços elevou o corpo para cima; ficou assim sentado, na sua imobilidade permanente, e fechou de novo os olhos. Mas desta vez, apenas sentia o cheiro a desinfectante. Assim começara mais um dia.
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