
Por aqueles tempos, o céu encontrava-se despido de horizonte e o luar era escasso como o pêlo de um cão velho.
O silêncio depositava-se, atencioso, sobre uma concha de feltro e aí adormecia. As conchas verdadeiras já haviam sido todas usadas – restavam algumas, raras, usadas pelos pescadores para desembaraçar as redes.
Durante o dia, o mato ardia sôfrega. E à noite abrandava o lume na serra. As pessoas fugiam, encosta abaixo, com os aquários gigantes onde repousavam as sereias moribundas.
E era essa a tragédia que invadia os antigos e os sábios: a morte agonizante das sereias eternas que habitavam as montanhas nos rios esplêndidos. Agora os rios secavam, e a terra, outrora fresca e deslizante, era agora seca e empedernida de uma caruma de crustáceos.
Na sua demanda, os habitantes das terras reuniam-se à noite na busca de uma razão para o flagelo que os afligia. Os sacerdotes invocaram uma culpa ímpia, e que após a devastação viria uma salvação mais bela do que o imaginável – mas apenas para os justos e fieis.
Como se tratava de uma terra pobre, em que só os donos das terras altas entendiam ao certo de que fidelidade se tratava, os sacerdotes foram assassinados por uma horda de adúlteros inquietos. E por algumas mulheres castas que, pelo acaso, se encontravam próximas do local.
De imediato a perdição foi proclamada pelos sábios pela perda de vidas tão próximas dos deuses. Foi elaborado um auto que condenava os assassinos, mas que não os pretendia punir – sendo sábios, sabiam que estes estavam em maioria.
Foi então que o céu se cegou, e a noite mergulhou sobre todos como um sono iluminado pela floresta ardente. O fim foi proclamado e um festim imenso se iniciou. Durante dez dias, ninguém adormeceu sem ser por exaustão. E o desespero a todos cegou.
Findos os dez dias, os homens e mulheres viram, não um, mas dois sois emergirem no horizonte. A luz era mais clara do que alguma vez fora vista, e o dia prolongou-se longamente. Entendeu-se assim que a estrela que os iluminava partira em busca de um amor astral – e que finalmente o encontrara. Só após a exultação pela sobrevivência durante estes dias tão vazios de sentido, repararam os homens e as mulheres que as crianças haviam desaparecido e que deles não havia rasto.
Procuraram muitas semanas pelas crianças, subiram as montanhas, partiram para o mar, desceram os vales mais distantes. Ninguém ao certo sabia o que acontecera às crianças durante aqueles dez dias de folia total. Ninguém parecia também querer lembrar-se.
As sereias foram arduamente inquiridas por uma resposta; mas mais do que não responder, elas pareciam não o querer fazer. Os homens decidiram então deitá-las ao mar, pois delas já não tinham necessidade. As sereias partiram com o seu olhar doce e materno. E desiludido.
Os sábios, receosos que, ao não darem uma explicação pelo desaparecimento das crianças fossem sujeitos à mesma fúria que os sacerdotes haviam sofrido, partiram, também eles, em balsas de pinho verde e com escassos mantimentos. Mas sendo sábios, e pouco sabendo da arte de navegar, logo se deixaram levar por ventos desconhecidos que os levaram a uma vazio imenso de vontade e de fé, onde o canibalismo reinou durante três meses.
Foi numa noite de luar abrasivo que as sereias mortas deram à costa – eram sereias de rio que nada sabiam do oceano infindo. As suas carcaças descosidas pela fome e pelo cansaço marulhavam na maré baixa. Tinham a expressão sedosa e lamuriante – mas não recriminavam ninguém; pretendiam morrer em paz.
Os homens e mulheres alinharam-se em frente ao oceano; deram as mãos e assim ficaram durante muito tempo – corroídos pela culpa, pelos erros, e pela perda das crianças.
No dia seguinte abandonaram Elsinore com poucos haveres, Apesar de ninguém o dizer de forma explícita, ninguém possuía já muita vontade de continuar a acordar dia após dia.
E assim findou Elsinore.