Friday, January 26, 2007

Um pequeno (e raro, raríssimo) comentário político


As últimas eleições autárquicas foram marcadas pelo conflito entre as impolutas direcções partidárias e as ímpias hordas de líderes regionais renegados. Dessa forma, o Major Valentão, Isaltino UBS, a Luso-Brasileira Fátima, e Dr. Diácono Avelino Torres ergueram a espada e a voz contra o boicote do aparelho. E ganharam. Quase todos.

Em Lisboa, pelo contrário, os dois maiores partidos juntaram-se num grande bloco central contra Santana Lopes. O PSD não o apoiando para uma recandidatura e o PS comprometendo-se a escolher um candidato desconhecido, vindo das bases, com pouco mais da quarta classe. O senhor escolhido foi o Zé Maria – eminente especialista galináceo, vencedor da 1ª edição do Grande Irmão, actual naturalista urbano. No entanto, logo emergiu a hipótese de uma grande coligação de esquerda emergir sob o julgo dessa notável figura pública. Sá Fernandes e Ruben de Carvalho acreditaram que Zé Maria poderia encarnar o protótipo do bom selvagem na política portuguesa. E então o PS deixou-se de brincadeiras, e num momento de clareza wagneriana escolheu o Dr. Carrilho para candidato. Perdeu a coligação de esquerda, perdeu Rousseau, ganharam os humoristas deste cândido país. E o Professor Carmona foi eleito.

O impoluto Professor Carmona – possuidor de uma carreira política digna do posto de papagaio executivo no ombro do seu pirata – lá acedeu à vaga de fundo que o pretendia eleger. Mas a eleição tinha um preço: cuspir na mão que antes o alimentara – neste caso, abocanhar o ombro que antes o albergara. No entanto o desafio era irrecusável; ser candidato único ao maior município do país, com o único galináceo ao seu nível desterrado em Barrancos. O professor avançou; o PS colocou o Dr. Fontão (anterior braço direito de Jô Soares) como número dois da lista do PSD; a Mizé assentiu e o mundo pulou e rebolou de alegria. E o Senhor M. Mendes tornou-se para sempre o guardião da moralidade política.

Entretanto, chegaram a Lisboa da província uns senhores com dinheiro para esbanjar. Fez-se o negócio do Parque Mayer; o Dr. Mexia – outro excelente exemplar dessa espécie avícola que fala – vendeu um prédio na Infante Santo enquanto depósito industrial. E logo a autarquia o tornou em zona residencial. Entre licenciamentos na linha do TGV, tentativas de corrupção dos senhores de Braga, buscas nos domicílios dos vereadores, trapalhadas na EPUL, e a demissão da vereadora que formava a maioria, a oposição camarária fez o que se esperava dela: demitiu-se.

É verdade, o Dr. Carrilho não se lembrou de nada melhor para fazer se não, diante de tal sucessão de escândalos, ir para casa fazer uma reciclagem no seu Schopenhauer. Ficaram a perder os humoristas deste país, ficou a perder Schopenhauer no seu túmulo, e ganhou a restante humanidade.

O que restou portanto? Resta a maior autarquia do país sob suspeitas de corrupção e gestão danosa, com vereadores acusados pela PJ e com mandatos suspensos, outros aí na calha, uma autarquia sem maioria, e sem oposição – aliás, os dez mil votos do Dr. Sá Fernandes se fossem acções seriam uma Golden Share. E resta o impoluto Professor Carmona arranjando as penas lustrosas com um bico assaz gasto. Ah, e o guardião da moral pública, o Sr. M. Mendes, a escrever éditos sobre como dizer que sim e que não em simultâneo sobre assuntos em que o seu partido não tenha posição oficial. Ou sequer posição para decidir seja o que for.

Wednesday, January 24, 2007

Holocausto Sazonal


Janeiro nas suas pinceladas agridoces. Janeiro transparente esvaziando-se, esgazeando-se. Há poucas folhas sobreviventes no holocausto sazonal dos plátanos e ulmeiros. Os jacarandás prosseguem a sua introspecção tranquila – os galhos despenteados assemelham-se a eléctrodos desactivados e as copas estalam segredos assinados com canivete.

Em Janeiro, as luzes e os enfeites de Natal são guardados. As montras das lojas são desmascaradas. O rebuliço luminoso extingue-se. Permanecem os placards luminosos na sua sonolência invernil. Nunca reparo neles no Verão.
As luzes dos carros, os olhares cerrados. Os sobretudos escuros. O erotismo de um cachecol encobrindo o pescoço suado.

Às vezes tenho um pouco de medo. Não sei bem que pele é descascada no cerzir da escrita. Quanto a mim, a escrita cessou. Resta o Abismo. Assim dizia o HH no PHOTOMATON.

Entendo essa liturgia em que a escrita não é acto moral, adesivo individual da palavra solta. Torna-se um raspanço. A palavra é agoniante. Mas a escrita quando cessa é como o osso lavrado por medo, as cartilagens podadas pela caneta sublime. Nesse acto desfaz-se toda a moralidade porque é de dentro das trevas que emerge o léxico.

Por vezes sento-me solenemente para compor e escrevinho adendas a um corpo inexistente que vai tomando forma no mistério do cadafalso. Depois apago tudo e tento não pensar mais nisso.

Ouvir Nyman tem ajudado estupendamente a esse processo. Os concertos para piano são um Debussy écartés de la malaise de 14. Existem neles uma esperança barroca ausente do Claude-Achille. Ouvir a cathédral engloutie repetitivamente é provavelmente a experiência mais agoniante que se possa imaginar. Tal como na escrita, está-se diante de uma música que surge das sarjetas entupidas – vem de dentro e coloca-nos ainda mais dentro.

A existência, em toda a sua imagética irreplicável tende para uma desordem que só se presume ordenada porque se assume um sentido. Começa-se pelo fim, e atribui-se um sentido adequado ao acontecimento passado.

Entre essa ilusão comiseradora e a realização da falta de controlo sobre o destino da nossa próxima unidade temporal, restam alguns, escassos momentos, onde a criação se apropria adequadamente das mãos estéreis, e finalmente o sentido precede o acontecimento.

E aí o osso é descascado.

Wednesday, January 17, 2007

Influence without generating values

The exponential growth in the numbers of empiricists helps resolve another debate as old as that of the Greeks. Platonists are sympathetic to rule by experts and elites. Aristotelians are more receptive to democratic rule. Expertise in the form of empiricism straddles these two political poles. It is a more democratic expertise in that it is replicable, transparent, and sharable. Moreover, it is disciplined by the information inputs of blogs and information markets. Thus, expert judgments will no longer be those of the few wise persons who rely on authority to impress their conclusions on society. Instead, they will reflect the collective sentiments of the empirical community.
This kind of work demonstrates how empiricism can have influence without generating its own values. The values being assumed here are those implicit in the operations of the academic community itself.
Two other factors — themselves a product of our ongoing technological revolutions — will amplify the power of empiricism. One is the rise of blogs. Blogs help police and expose false studies with which interest groups and partisans may attempt to counter the empirical work that undermines the factual bases of their positions. Academic experts regularly write for blogs and, unlike reporters, are well suited to subject empirical work to searching scrutiny. Recently, for instance, a group of prominent legal scholars has begun a blog wholly devoted to law and empiricism. Such developments will also force empiricists to be more careful and transparent about the discretionary decisions they make, such as their choices of time periods to include in their investigations, because their colleagues will be able to call them to account for misjudgement or bias more easily.
The declining cost of empiricism also promises to transform our universities, because it provides greater incentives to hire empirical investigators in the social sciences. A hundred years ago, armchair speculation was very cheap compared to empiricism, as the cost of the latter enterprise was high, often prohibitively so, in that the available technology rarely delivered any useful results. Thus, it was rational for universities to hire theorists without much interest in comprehensive and statistical inquiry into the social world. But now that the cost of empiricism has fallen, a cascade of empiricists of all kinds — economists, psychologists, political scientists — is flowing into our universities and think tanks.

This inflow has several immediate effects, all of them beneficial to a free inquiry that will in turn aid the gathering of facts conducive to consensus politics. First, the hiring of empiricists will tend to decrease any ideological discrimination in academia, because empiricists, whatever their personal politics, will tend to be much more open-minded than their theoretically inclined colleagues. They respect facts themselves and professionally must give a hearing to other empiricists, whatever their views and whatever the results of their empirical investigations. They will also be less prone to discriminate, even in hiring theorists in their social science departments, because empiricists are likely to regard almost all theories as contestable.
Far more important to the future of America is the battle over substantive issues. Empiricism has already created a consensus in some areas, crime being one of the foremost among them. In the 1960s and 70s, the political community was much divided about the basic approach to crime. Some experts then attacked prison sentences as destructive rather than useful and even contended that certain criminal acts, like writing graffiti, should not be considered crimes at all.

But criminologists have turned to empiricism to show the truth of claims previously contested. It turns out that that prison sentences sharply reduce crime, as does the greater presence of police on the streets. Steve Levitt recognized that prison-overcrowding litigation created a natural experiment for testing the extent to which prison sentences reduced crime because the litigation released prisoners for reasons that had nothing to do with crime rates. By looking at the consequences of the prison litigation, he was able to show that for each criminal released from the prison population, the number of crimes will increase by about 15.

Monday, January 08, 2007

A Million Dollar Baby


A Million Dollar Baby é tanto um filme de boxe, como o Gone With the Wind é um filme sobre a guerra civil americana. Ou o Match Point, um filme sobre sorte. A Million Dollar Baby é um filme sobre esperança.

Espinosa definia a esperança com aquela objectividade decomposta em proposições tão peculiar. “A esperança nada mais é do que uma alegria inconstante que emerge da imagem de qualquer coisa, passada ou futura, sobre cujo o resultado temos algumas dúvidas.”

No filme, o confronto entre o elemento sem esperança – o treinador Franckie que foi abandonado pela família por uma razão desconhecida – e o elemento com esperança – a Maggy que sonha desde pequena em se tornar boxeur, e finalmente decide, aos 31 anos, executar esse sonho.

Ao longo da história, o Franckie absorve a força de Maggy, lida com os seus demónios, vai renascendo aos poucos. Basta uma pessoa ao nosso lado a lutar, que a luta já não parece assim tão difícil. O plural torna as coisas fáceis.

Maggy, pelo contrário, não tem de renascer; ela é a tal alegria inconstante, que se encontra a descobrir a tal imagem que idealizou, mas que nunca viveu – nem ao de longe. Ela nem sequer anseia pelo combate que vale a Million Dollars, porque o próprio processo de aguardar é suficiente para a preencher. Sim; quando se quer verdadeiramente algo, a própria tentativa quase se transforma num fim em si.

O maravilhoso Eddie Scrap junto os dois, porque é o único que viveu a ilusão, lutou por ela e falhou. Mas não perdeu a esperança no mundo à sua volta.

“… imagem de qualquer coisa, passada, ou futura, sobre cujo resultado temos algumas dúvidas.” Sempre achei estranho este preciosismo. Nunca pus em causa que o presente não entrasse na definição de esperança. Mas o passado quase que parece ali deslocado. Como é que o resultado de algo passado pode ser incerto? Já aconteceu. É definitivo.

Isso estaria correcto num mundo sem perdão nem arrependimento. A esperança que vem do passado é uma esperança de perdão. Franckie espera esse perdão. Anseia por ele. Toda a gente anseia por um perdão por algo estupidamente guardado nos confins do tempo. A esperança revela-se exactamente nesse acto de não aceitar que algo seja definitivo.

No fim, os papéis invertem-se. Maggy decide morrer, e é o treinador que a tenta convencer do contrário. Ela perde a esperança e isso é para ele insuportável. “ I can’t live like this boss. Not after I’ve seen all there is out there.”

Nada de resta para Maggy senão uma família insuportável que lhe quer tirar o dinheiro. Ela perde a esperança em viver, e perde a esperança em ter uma família decente. Não, na realidade ela passa a vê-los exactamente como eles são. Seres sem amor, egoístas, mesquinhos, desprezíveis. Presumo que esperança a mais contamine a visão das coisas adjacentes.

Million Dollar Baby é um filme sobre a esperança e a falta dela. E o que resta dela. No caso de Maggy, a definição de Espinosa falha só em assumir que ela tinha algumas dúvidas sobre o desfecho da sua jornada. Estou certo que ela sabia que não estava destinada a ser feliz; daí essa alegria insaciável em toda a porção de tempo que se aninhasse ao seu lado.

Friday, January 05, 2007

Algumas pérolas do Guns, Steel and Diamonds do Jared Diamond


É do conhecimento geral que a América do Sul foi colonizada pelos Espanhóis que criaram uma raça mestiça feita dos autóctones sobreviventes, dos escravos da costa Oeste Africana e mesmo algum sangue Europeu. Também se sabe que os Australianos originais eram os aborígenes, tendo sido colonizados pelos Britânicos.

O que não é evidente é que Madagáscar foi colonizada pelos indonésios Austroasiáticos por volta de 3000 AC. E que estes, por sua vez, já teriam sido colonizados pelos Asiáticos da costa Sul – colonizados por sua vez pela raça predominante chinesa do Norte. Sim, caso contrário, os indonésios seriam tão escuros quanto os autóctones da Nova Guiné.

Isto é tão surpreendente quanto Colombo chegar a Cuba a bordo da Santa Maria e aí encontrar uma colónia de suecos, como feições louras e uma língua de origem eslava. Sem vestígios de nenhum Índio.

As horas


A mesma estrada, percorrida à mesma hora divina; o mesmo sítio escondido no fundo dos vasos sanguíneos. Os locais perdurando como grandes blocos de aço esterilizado, imensas escarpas de sonhos vertidos.

Sim, os sítios e as horas, acotovelando-se na memória.

A mesma expressão inquieta; nada mudou em ti apesar do tempo. Continuas com as mãos apagadas sobre o xaile escuro; aguardas o cochichar dos cigarros mal apagados.

Aguarda e sente. Olha bem e vê a metafísica que não é. As migalhas são levadas e fica o vazio.

Les miètes s’endorment sur le vide. J’ais plus de foi ao poison.

O amanhecer sacode os membros; as mãos são eróticas na asfixia.

Este caminho que já fiz contigo num tempo em que os lábios ainda estremeciam. O caminho pela noite fria, a noite com o bolor das nuvens desprendendo-se; um dia deixei-te entrar e fiquei à tua porta até amanhecer.

Fiquei encostada à porta, com o silêncio derramando-se pelas frinchas. O frio lembra-me desse silêncio.

Acontece-me pensar no amor escrito em letras minúsculas, o amor deixado ao acaso num banco de jardim; ele ali está, como matéria casual de vozes roucas. E então sinto a rouquidão perfurando a atmosfera como um relâmpago.

A lama das palavras salpicando os corpos; sim, os sítios e as horas, esperneando uma coreografia imaterial.

Esse caminho, qualquer outro, o vazio, o vazio e as suas migalhas, é tudo um nada sufocante congregando os hálitos mornos das crianças a dormir. E assim sinto-me a boiar sobre o real.

Nunca consegui boiar no mar mas nadava debaixo de água com os olhos abertos.

As horas; o aconchego circular do ponteiro erecto. Os dias ficavam meigos quando sentia a tua clavícula entre os meus dedos. E o amor era um lastro, mesmo escrito devagar.

Diz-me devagar as coisas que anoitecem, ou diz-me silêncio desmembrado em copos cheios de gelo, ou não me digas nada. Dá-me um nada em letras minúsculas.

As horas; como se boiasse nos seus ponteiros adimensionais e sentisse a fundura da repetição. O mesmo caminho, repetindo-se, sem por isso ser diferente ou melhor.