Monday, December 17, 2007

A infinita complexidade do Natal



O cheiro do feno, a simplicidade da palha. Na casa da vaca, estendia-me naquele estrado vegetal e meditava. Tentava; o local pressupunha meditação. Por ali teriam pernoitado homens fugidos, animais feridos, amantes ocasionais. Imaginava-me, também eu, em aventuras que também justificassem dormir num estábulo. E ali ficava estendido, escondido de uma hipotética turba em cólera concentrada no largo da Igreja, perscrutava os granitos maciços e tentava não espirrar – sempre tive uma ligeira alergia ao pó dos fenos.

Em criança, divertia-me essa expectativa de me encontrar desaparecido, e, principalmente, de saber que me procuravam. Mas logo me fartava desse jogo às escondidas solitário e começava a preocupar-me com presença da bicharada típica dos locais húmidos do campo: salamandras, moscardos, algumas pulgas. Um ecossistema infinitésimo, de ruídos varejados. Até hoje não me recordo de um ruído mais característico do que o das cobras de campo a deslizar sobre o restolho seco.

A terra; a terra adormecida. O milho espalhado na eira. As nespereiras fustigadas pelos corvos. A terra molhada. As cerejeiras em flor. O latir dos cães à noite. O cicrilar dos grilos no Verão. A terra coberta de geada. Os bichos da peçonha passeando pelos empedrados.

Hoje em dia, sinto-me como o Jacinto regressando de Paris; nem sempre foi assim. Gastei a minha infância com aquela montanha à minha volta. Aquele frio latejando as correrias. Um mundo ultra sinestésico sem musica ou literatura; apenas terra e bicharada de todos os géneros. E cheiros, uma multiplicidade de cheiros perfeitamente distinguíveis entre eles, como um caldo quente cheio de verduras e legumes.

Depois ela morreu. A senhora. Num pequeno instante, findou-se toda a beleza do mundo. Todas as coisas belas: podia enumerá-las com toda a propriedade pois é onde repouso quando o sono envelopa sem cuidado a consciência. Quantas vezes não senti uma vergonha aguda só por imaginar o que ele me diria caso pudesse. Ainda hoje, adormeço com aquele olhar infinito sobre mim. E acredito, sem piedade, que a maior felicidade da vida era ser criança e enfeitar a árvore de Natal com ela.

Monday, December 03, 2007

A singularidade do laranja




La vérité appartient à ceux qui la cherchent et non point à ceux qui prétendent la détenir."
(Condorcet / 1743-1794 / Discours sur les conventions nationales, avril 1791)


A verdade é como o açúcar nas rabanadas; sem açúcar as rabanadas passam a ser outra coisa qualquer, mas demasiado açúcar, torna as rabanadas intragáveis. A verdade deve ser doseada como um parasita deve dosear a colonização do seu hospedeiro. Se for de mais, o hospedeiro morre – assim como o parasita; se for de menos, o hospedeiro consegue desenvencilhar-se do parasita. Um equilíbrio de segunda ordem, vago, incerto, não linear – uma espécie de equilíbrio amoroso.

Não me permito cair nessa tentação fácil – a analogia entre o parasita e o hospedeiro, e o exercício dos afectos. Mas permito-me pensar no estado de transição: não na passagem do sinal vermelho para verde, mas na singularidade do laranja.

O laranja é tão instável que no limite não existe – ou não é nomeado. A mudança de fase da matéria, o tipo de escoamento de um fluído, ou qualquer estado binário implica uma transição não regida pelas leis aplicáveis aos estados imediatamente anteriores e posteriores.

É errado dizer que a água congela aos 0º. Normalmente, o processo de solidificação da água inicia-se através da cristalização de certas impurezas na sua geometria. Mas expurgada de todos os sais, e em algumas circunstâncias de arrefecimento, o zero deixa de ser zero para a água – o mínimo alcançado foi 18º negativos. Mas tal não implica que a água se encontre num domínio estável em cada um desses dezoito graus entre o 0º e -18º. Não se encontra: diz-se em transição; no fundo, é como o sinal laranja – não existe se não numa fase de transição entre dois outros estados.

A singularidade do laranja é óbvia; a partir do instante em que algum processo está laranja, há pelo menos uma coisa já se sabe: que não vai permanecer laranja. Infelizmente, não é possível conhecer o sentido da mudança, pois o fenómeno tem histerese.

Normalmente, uma reacção ocorre num sistema, antes em equilíbrio, que se altera de um estado inicial para outro. E pouco mais. Mas quando a reacção é histerética, não é suficiente conhecer o estado inicial – é necessário saber como é que se chegou até lá. Um sistema em histerese tem memória.

Em alguns países, o sinal laranja não surge apenas entre o verde e vermelho, mas também entre o vermelho e o verde. Ou seja, antes de o sinal passar a verde, passa a laranja primeiro. Isso tornaria o sistema histerético – olhando o sinal laranja, seria impossível saber se ele ia mudar para verde ou para vermelho. Para o saber, era necessário saber como é que ele ficou laranja; sem essa informação, apenas se sabe que, em breve, ele vai mudar.

Não me parece surpreendente que sejamos histeréticos – apesar de tudo, temos memória. O que me surpreende é a dificuldade em apreender o laranja. Principalmente quando é um bom laranja. Ou seja, em perceber que algumas vezes, se vive um estado transitório – um bom estado transitório, mas ainda assim transitório.


Mas, a verdade é que nem isso é plenamente verdade: depende como é se chegou ao bom laranja. E é isso que torna o laranja tão singular.