Um certo lodo na voz, um lodo espesso que se avoluma na boca e escorre pelas narinas. Aquela era a segunda vez; palavras diferentes, mas o mesmo sentido imaculado por de trás delas. Palavras lodosas que ele repetia sucessivamente, como se a gramática se pudesse desintegrar e elas pudessem perder o seu sentido metálico.
As repetições formam o pântano. R afundava-se no pântano das palavras repetidas, sentia a imobilidade a adquiri-lo, e toda aquela inevitabilidade como uma matéria reconfortante; é extraordinário o descanso mental que a ausência de opções configura; e essa inevitabilidade valida as precipitações mais inexplicáveis. E já se sabe, uma precipitação nunca vem só. R gostava de repetir essa sentença: as precipitações vêm aos pares. A seguir à inicial, surge sempre outra para corrigir a primeira. E depois o descanso, a espera, a certeza que mais nada pode ser feito. A inquietude paralisada.
Eu sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. R sorria, acendia outro cigarro. Fechava os olhos. Por vezes tinha um impulso em se habitar de uma realidade alternativa; não lhe custava muito; era só deixar os olhos fechados, a realidade desligada e sentir as sementes irromperem como uma pulmão magnético. R nunca tivera nenhum problema em se imaginar numa realidade diametralmente oposta, ou, se fosse caso disso, numa realidade no fundo de uma diagonal, ou num trecho paralelo. Num novo pulmão.
Sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. A frase era originária de um meio de transporte chamado desejo. No caso dele, talvez não fosse bem um eléctrico; talvez mais um metropolitano, algo bem mais obscuro e enterrado, com um ar mais denso e pesado. Apesar da aparência contrária, a frase encerrava uma certa esperança infundada: a que os estranhos eram boas pessoas, dispostos a ajudar. E que não valia sequer a pena de se preocupar muito com absolutamente nada – algum estranho estaria por perto para salvar o dia. E era esse o sentido que ele lhe conferia quando alguma coisa corria mal. Revelava o seu desprendimento inusitado; alargava a cápsula espaço-tempo para além da sua galáxia privada e todos os acontecimentos se tornavam num infinitésimo.
Ele talvez o soubesse, e talvez não o quisesse saber, talvez fosse um conceito demasiado natural para reparar nele, como um sinal no braço que só reparámos se desaparecesse. O que ele verdadeiramente dizia por de trás de todo aquele emaranhado de léxicos, era que todos lhe eram estranhos, até aqueles que ele podia adoptar circunstancialmente para uma partilha de espaços e emoções. Pessoas com as quais escolhia gastar o seu tempo, mas ainda assim desconhecidos. O seu fulcro era intensamente gravítico e desinteressado pelos outros. A sua solidão era uma escolha muito própria, mas não a primeira precipitação – a primeira era a de não se interessar por nada nem ninguém numa espécie de egoísmo romântico, e a segunda teria de ser, inevitavelmente, a sua solidão. E se quisesse ser um pouco mais cartesiano, a terceira seria depender absolutamente da bondade de estrangeiros, ou de todos, neste caso, dispostos a dar tudo o que pudessem, sem receber nada em troca.
Vou para a semana para Tokyo. E quase fechou os olhos depois de o dizer. Vais? Quanto tempo? Ela ajeitou a pachemina que lhe cobria o cabelo; tirou os óculos escuros à la Bouvier. Ele sempre achara aquele look de movie star dos anos 50 perfeitamente adaptado a ela. Sabes muito bem que não volto.
É curioso, um curioso não muito agradável, um curioso rançoso como comida estragada, é curioso mas não o devia ser. Por vezes os acontecimentos sucedem-se e, a partir de um determinado ponto, restam poucas dúvidas para onde eles se dirigem. Uma pessoa sabe, sobretudo porque já lá esteve. Mas há uma embriaguez, uma vertigem que imobiliza, e até um certo conforto pelo conhecimento do output.
Era a segunda vez que ele ouvia aquele sentido por palavras; palavras espirradas de um pneu furado à navalhada. A boca é uma navalha. O papel é uma boca quieta. As mãos dormem um silêncio absurdo.
No aeroporto, o movimento era intenso. O seu nome era repetido pela 2ª vez nos altifalantes. O pescoço estava frio e as mãos condensadas. F ainda soltou um sorriso inusitado ao ver R ao fundo do corredor. Não se levantou, mas ficou a observa-lo a procurá-la.
O seu nome foi então repetido por uma 3ª vez.