Thursday, May 31, 2007

A filha única



Um dia perguntaram a Henry Ford se tinha realizado algum estudo de mercado antes de iniciar a produção do Ford modelo T. Ele respondeu: “Claro que não. Se tivesse construído o que as pessoas queriam, tinha de ter inventado um cavalo mais rápido”.

Aí está ela de novo. Aquela estreiteza incolor; a sensação de asfixia eterna. A desconstrução mental é a mais bela de todas; a vida que não se observa mas que se sente. É filha única, faz questão de ser sentida.


Quando o encontrei, não liguei muito à apatia desfraldada. Não era incomum. Depois iniciou a pronúncia daquelas milimétricas sílabas, que eu já tinha tido o gosto de esquecer. O esquecimento, é sempre uma forma de lembrança – pelo menos o processo até lá chegar. Memory is a good thing if you don't have to deal with the past. Antes ou depois do sol se pôr.

A percepção; eis como ela altera tudo. O mesmo formato, o mesmo pacote, o mesmo logo. Percepções diferentes. E depois nunca se sabe o que se quer realmente. E normalmente, é correcto não saber o que é. Um cavalo ou um carro. Mas como saber que na realidade se quer um carro se só se conhece um cavalo? Ou, extraviando um pouco a lógica, como saber que se deseja verdadeiramente o futuro, se só se conhece o passado.

Um dia perguntei-lhe como seria o mundo se a memória fosse inexistente. Seria melhor? – Bom, acho que de certeza que as pessoas seriam bastante menos pontuais. Passou a mão pela barba branca, riu-se um pouco. Estava velho. Pourri avant d’avoir mûri. O tempo é um cavalo bastante rápido.

Nunca tinha gostado de equídeos. São traiçoeiros por trás e insolentes pela frente. Sou como o Churchill – prefiro porcos, olham-nos nos olhos.

Tuesday, May 29, 2007

Do jacarandá emergiu Prometeu




Os jacarandás já floriram; aquela espumosa massa violeta topázio cobre agora as hastes metálicas da árvore; foi de repente, como se de uma plumagem caída do céu se tratasse – e uma semana antes do habitual.
O jacarandá é celeste e imponente, e não se trata propriamente de uma árvore. É uma sentinela adormecida que renasce num dia qualquer de Junho ou Maio, com vestes encardidas de eternidade – uma eternidade que dura uma paixão intravenosa, daquelas que se extingue quando a pele dos amantes se enrodilha com a saliva expulsa.
Não é uma árvore, mas Prometeu renascido para ser lavrado pela águia do Cáucaso, e depois murchar um azul rouco sobre o alcatrão. Entre jacarandás, o tempo escorre como alfinetes expulsos pela eternidade atordoada.



Wednesday, May 16, 2007

I've always depended upon the kindness of strangers

Um certo lodo na voz, um lodo espesso que se avoluma na boca e escorre pelas narinas. Aquela era a segunda vez; palavras diferentes, mas o mesmo sentido imaculado por de trás delas. Palavras lodosas que ele repetia sucessivamente, como se a gramática se pudesse desintegrar e elas pudessem perder o seu sentido metálico.
As repetições formam o pântano. R afundava-se no pântano das palavras repetidas, sentia a imobilidade a adquiri-lo, e toda aquela inevitabilidade como uma matéria reconfortante; é extraordinário o descanso mental que a ausência de opções configura; e essa inevitabilidade valida as precipitações mais inexplicáveis. E já se sabe, uma precipitação nunca vem só. R gostava de repetir essa sentença: as precipitações vêm aos pares. A seguir à inicial, surge sempre outra para corrigir a primeira. E depois o descanso, a espera, a certeza que mais nada pode ser feito. A inquietude paralisada.

Eu sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. R sorria, acendia outro cigarro. Fechava os olhos. Por vezes tinha um impulso em se habitar de uma realidade alternativa; não lhe custava muito; era só deixar os olhos fechados, a realidade desligada e sentir as sementes irromperem como uma pulmão magnético. R nunca tivera nenhum problema em se imaginar numa realidade diametralmente oposta, ou, se fosse caso disso, numa realidade no fundo de uma diagonal, ou num trecho paralelo. Num novo pulmão.

Sempre dependi da boa vontade de desconhecidos. A frase era originária de um meio de transporte chamado desejo. No caso dele, talvez não fosse bem um eléctrico; talvez mais um metropolitano, algo bem mais obscuro e enterrado, com um ar mais denso e pesado. Apesar da aparência contrária, a frase encerrava uma certa esperança infundada: a que os estranhos eram boas pessoas, dispostos a ajudar. E que não valia sequer a pena de se preocupar muito com absolutamente nada – algum estranho estaria por perto para salvar o dia. E era esse o sentido que ele lhe conferia quando alguma coisa corria mal. Revelava o seu desprendimento inusitado; alargava a cápsula espaço-tempo para além da sua galáxia privada e todos os acontecimentos se tornavam num infinitésimo.

Ele talvez o soubesse, e talvez não o quisesse saber, talvez fosse um conceito demasiado natural para reparar nele, como um sinal no braço que só reparámos se desaparecesse. O que ele verdadeiramente dizia por de trás de todo aquele emaranhado de léxicos, era que todos lhe eram estranhos, até aqueles que ele podia adoptar circunstancialmente para uma partilha de espaços e emoções. Pessoas com as quais escolhia gastar o seu tempo, mas ainda assim desconhecidos. O seu fulcro era intensamente gravítico e desinteressado pelos outros. A sua solidão era uma escolha muito própria, mas não a primeira precipitação – a primeira era a de não se interessar por nada nem ninguém numa espécie de egoísmo romântico, e a segunda teria de ser, inevitavelmente, a sua solidão. E se quisesse ser um pouco mais cartesiano, a terceira seria depender absolutamente da bondade de estrangeiros, ou de todos, neste caso, dispostos a dar tudo o que pudessem, sem receber nada em troca.

Vou para a semana para Tokyo. E quase fechou os olhos depois de o dizer. Vais? Quanto tempo? Ela ajeitou a pachemina que lhe cobria o cabelo; tirou os óculos escuros à la Bouvier. Ele sempre achara aquele look de movie star dos anos 50 perfeitamente adaptado a ela. Sabes muito bem que não volto.

É curioso, um curioso não muito agradável, um curioso rançoso como comida estragada, é curioso mas não o devia ser. Por vezes os acontecimentos sucedem-se e, a partir de um determinado ponto, restam poucas dúvidas para onde eles se dirigem. Uma pessoa sabe, sobretudo porque já lá esteve. Mas há uma embriaguez, uma vertigem que imobiliza, e até um certo conforto pelo conhecimento do output.

Era a segunda vez que ele ouvia aquele sentido por palavras; palavras espirradas de um pneu furado à navalhada. A boca é uma navalha. O papel é uma boca quieta. As mãos dormem um silêncio absurdo.

No aeroporto, o movimento era intenso. O seu nome era repetido pela 2ª vez nos altifalantes. O pescoço estava frio e as mãos condensadas. F ainda soltou um sorriso inusitado ao ver R ao fundo do corredor. Não se levantou, mas ficou a observa-lo a procurá-la.

O seu nome foi então repetido por uma 3ª vez.

Tuesday, May 08, 2007

O sistema auditivo

Após quatro anos de intenso enamoramento barroco, quatro anos destemidos de Bach em todo o seu esplendor teocrático, desde as Paixões e as Cantatas do John Elliot Gardner, os Brandenburgueses – a banda sonora da minha existência – os Concertos para Violoncelo, as suites para Orquestra BWV 1066 a 1070, após todo esse divino e eterno Bach que sobreviveu a infidelidades tão cruéis quanto o enamoramento pela Sagração da Primavera do Stravinsky, pela Quinta de Malher, ou os concertos de Rachmaminov – não referindo as saisons em que fiz as malas e abandonei toda a lógica da existência com os concertos para piano do Nyman, ou com os Préludes do Debussy –, após todo esse destilar etéreo de beleza inaudita, eis que escuto Beethoven e me apercebo, ainda que levemente e apenas a espaços, de uma melodia que, ainda que sofrível e lourde, é quase suportável e digna de se inteirar do meu sistema auditivo.

Wednesday, May 02, 2007

Ouvindo Malher pela manhã

Ouvindo Malher pela manhã. O Adagietto que é o ronronar de uma mulher adormecida sobre a praia. A pele salpicada de areia e os cabelos inundados de mar. Malher pela manhã. Consigo ver a falésia íngreme e tostada de um laranja como couro; e avisto os homens lá em cima com longas túnicas turquesa encarando o vento tépido com os braços bem erguidos. Uma fila interminável de homens que se perdem de vista no topo da falésia; em baixo, uma mulher fervendo um choramingar de lágrimas em parafusos, apertando a carne da areia; apertando-a, esmigalhando as migalhas do silêncio. Ao fundo, a quinta e o Adagietto. A expectativa da exaltação, tão própria da celebração da despedida e daí, também do reencontro. As cordas irrompendo dos seus poços de madeira e prolongando-se pela memória cerrada, ecoando, deslizando, sobrevivendo. Malher pela manhã e vocábulos desordenados sobre a epiderme ao longo da noite, e pelo o que restou da eternidade.