Thursday, May 31, 2007

A filha única



Um dia perguntaram a Henry Ford se tinha realizado algum estudo de mercado antes de iniciar a produção do Ford modelo T. Ele respondeu: “Claro que não. Se tivesse construído o que as pessoas queriam, tinha de ter inventado um cavalo mais rápido”.

Aí está ela de novo. Aquela estreiteza incolor; a sensação de asfixia eterna. A desconstrução mental é a mais bela de todas; a vida que não se observa mas que se sente. É filha única, faz questão de ser sentida.


Quando o encontrei, não liguei muito à apatia desfraldada. Não era incomum. Depois iniciou a pronúncia daquelas milimétricas sílabas, que eu já tinha tido o gosto de esquecer. O esquecimento, é sempre uma forma de lembrança – pelo menos o processo até lá chegar. Memory is a good thing if you don't have to deal with the past. Antes ou depois do sol se pôr.

A percepção; eis como ela altera tudo. O mesmo formato, o mesmo pacote, o mesmo logo. Percepções diferentes. E depois nunca se sabe o que se quer realmente. E normalmente, é correcto não saber o que é. Um cavalo ou um carro. Mas como saber que na realidade se quer um carro se só se conhece um cavalo? Ou, extraviando um pouco a lógica, como saber que se deseja verdadeiramente o futuro, se só se conhece o passado.

Um dia perguntei-lhe como seria o mundo se a memória fosse inexistente. Seria melhor? – Bom, acho que de certeza que as pessoas seriam bastante menos pontuais. Passou a mão pela barba branca, riu-se um pouco. Estava velho. Pourri avant d’avoir mûri. O tempo é um cavalo bastante rápido.

Nunca tinha gostado de equídeos. São traiçoeiros por trás e insolentes pela frente. Sou como o Churchill – prefiro porcos, olham-nos nos olhos.

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