Friday, November 26, 2010

O espaço inter-pasmódico


A manhã estridente e estaladiça raiando minúsculas virgulas ao acordar. Um acordar feito de pausas virguladas, abstémias, cínicas. Preencha este formulário por favor. A primeira questão é: costuma ver virgulas pela manhã? Vejo virgulas nos gestos empoeirados de carinho, e pontos de exclamação pequeninos na exaltação militar do amor entre roedores. A segunda é: qual a sua palavra em francês preferida. Essa é fácil: désolé. Admiro infinitamente a capacidade de exprimir simultaneamente uma compaixão pela não satisfação de um desejo e um poderoso enfado moral pela existência de desejos tout court. Mas afinal qual é, désolé ou tout court? Olhe se não percebeu, posso apenas comunicar a minha desolação. Touché, respondeu-me o meu interlocutor. Vestia bata de médico e chapéu de coco. Vamos então seguir para o exame de visão, continuou.

Foi aí que tive de me ausentar. Já na altura da guerra recusaram a minha incorporação sob o pretexto de miopia poética. Sabe, da guerra pode-se fazer poesia mas só depois. Durante a guerra os poetas têm a desagradável tendência de morrer e levar com eles batalhões inteiros. Mas daí surgem versos magníficos, repliquei. Mas que nada têm a ver com a guerra, têm a ver com o espaço inter-pasmódico do poeta. Assenti com ar de orgulhosa ignorância. Pois, pois, o espaço inter-pasmódico que fica ali entre… a hipófise e a tíbia não é? Quase, respondeu-me o alferes. Situa-se entre a clavícula e o esterno. Mais ou menos aqui. E colocou-me uns enormes dedos junto do meu pescoço. Apoiou com força e eu verti uma página do livro do Cesário. Está a ver? É mesmo aqui.

Continuei essa tarde toda tentando reencontrar o meu espaço inter-pasmódico para o retirar e aderir à hiper-realidade espacial para poder ir para a guerra. Mas quando o consegui, a guerra já tinha acabado. Hélas!

Mas então é hélas? É sim senhor. Estou apto? Infelizmente não. O seu conhecimento da língua de Baudelaire não revela as qualidades indispensáveis para o habilitar a uma protese nova. Désolé...