Sunday, April 23, 2006

Taxi




Mesmo que de forma extremamente incompleta podíamos ser felizes... Ela riu-se; um pouco sem querer, mas riu-se e disse-me: de forma incompleta. E deixou um tom de interrogação no ar. Sim, de forma completamente incompleta, mas felizes, a espaços. Aí ela riu-se à séria. E disse: nem de forma completa ou incompleta, isso é impossível. Mas eu gostava do impossível com ela e disse-lhe: podiamos ser impossíveis os dois juntos. Aí ela não se riu; antes mascou o lábio e engoliu um pouco do cigarro que fumava e disse: estás a falar a sério? Mas aquilo não era bem uma interrogação; antes um desafio – tipo, não eras capaz? E eu percebi isso; ao de leve. E disse-lhe: Sem querer dizer o que sinto, quero não dizê-lo contigo. Aí ela riu-se mesmo. Disse o meu nome, o que nunca fazia e disse: Tens dinheiro para o táxi? Peguei-lhe na mão.
E peguei nela toda. Ela passou a mão pela minha boca e disse: O problema é que vamos estar para sempre num táxi, sem nenhum sítio possível para estarmos juntos. E eu pensei, juntos somos duas pessoas diferentes, que só se gostam ao longe. Juntos seríamos iguais a todos os faisões transeuntes na rua de mão dada.
E então disse-lhe: prefiro um táxi para sempre do que uma paragem deslavada. Ela riu-se e fomos embora.
O cheiro da areia molhada completava o silêncio.

Tuesday, April 11, 2006

Os Anos Indecisos



As vezes pensava em ti; o suficiente para entender que mais do que pensar, sentia o que pensava; e o que sentia eram centenas de tardes abafadas e desprotegidas – aquelas tardes em que se sentem os grilos como uma frigideira fervendo azeite e ar ondula espesso sobre o horizonte. Tardes em que o corpo se torna lânguido e a pele se aglomera em languidez excessiva que tenta, mas não pensa – num não pensar muito mais do que se sente, mas que não é sentir porque apesar de tudo, é lembrar.
A memória estava assumidamente por toda a parte, é certo: estava no cheiro da chapa quente do carro, no sal esvanecido nas bocas, no próprio afundar dos pés nos cristais das praias. A memória estava no parapeito dos corpos próximos e os corpos distantes como o esquecimento.

Por vezes não é a memória que fica, mas o cheiro de um tempo indeciso; um tempo antes de haver memória. Esses anos indecisos que foram anos em que os actos surgiam na mesma proporção dos desmanchos. O arrependimento não se aglomerava o suficiente para o ser; em anos indecisos o arrependimento é como cotão que surge do pó dos actos e que se desprende com um único hálito sôfrego – o arrependimento trata sempre mais do que se poderia ter feito (e se deixou de fazer) do que o que não se fez.

Os desmanchos sucessivos em palavras inquietas como nós; as horas perduravam centenas de palavras por dizer, mesmo que na realidade tivessem passado centenas de tardes em que nada tenha ficado por sentir. Depois sobravam os silêncios; mas não importava – um silêncio que indica um fim é bem diferente do silêncio que marca o início. E em anos indecisos nada configura a aparência de um fim; tudo é um elástico interlúdio.

As vezes pensava em ti e tudo me parecia bastante menos elástico. O tempo tem essa capacidade de solidificar a indecisão, até que o acto – por mais indeciso que tenha sido – se torna granito escamoso com saliências a saber ao sal esvanecido nas bocas e aos cristais que o silêncio soldou aos corpos. Mas é um bom silêncio; um silêncio com açúcar. Sim, nada é tão doce quanto a certeza que cada partícula acidental de tempo foi destilada até não conter um milímetro de açúcar. O açúcar amolece-se na boca e pouco tempo após, uma ninhada de álcool abrupto é engolida de um só trago. O olhar revira-se e as mãos tremem; mas sabe bem. Quase que sabe a nós.

O pensar que é como um sentir-se, mesmo que a memória seja virada do avesso e apresente coisas novas como tardes que ainda faltam viver durante toda a vida.

Os sorrisos vertiam-se sobre a chapa do carro abrasiva. Nada é mais reconfortante do que sentir que o tempo está do nosso lado.