Sunday, August 20, 2006

Descendência



E o silencio assim tão melodioso. As tardes meio nauseabundas com as crianças a brincarem sobre o gramado celeste da imaginação. Estou velho, meio rarefeito e quase já não sinto dor. Quando era novo sentia a dor só por poder. Estar vivo é uma forma de ser.
Nunca tive filhos, nem nunca pensei nisso a sério. O meu pai dizia-me feroz
Um filho não é um brinquedo. É uma nova vida: a tua.
Quando o dizia, soerguia a sobrancelha e engolia os lábios. Eu respondia com estórias mitológicas, e ele ia buscar uma cerveja à minha mãe.
O silêncio como um segmento de recta. Passei a minha vida toda a procurar o silêncio e agora estou farto. E Vivi quase metade da minha vida com uma mulher que dizia que este mundo não servia a ninguém.
Queres pôr um filho num mundo que vai acabar sem ninguém perceber porquê.
E eu concordava que o porquê não seria perceptível porque o mundo iria extinguir-se num momento de loucura, e a loucura só é inteligível por quem já por lá passou.
Mas estava a mentir.
A minha razão não era o fim mas o princípio. Nunca percebi o princípio e aterrorizava-me a ideia que o meu filho me perguntasse sobre isso e eu não tivesse resposta.
Pai, quando morreres, para onde vais.
E eu imaginava o silêncio dos sinos presos às pálpebras dos meus filhos enquanto morria. Nunca quis ter filhos para que não ficassem sem pai. A afirmação causava desdém irracional em todos os que conhecia.
Mas não achas que devem ser eles a decidir.
E eu ia buscar mais uma garrafa de vinho para entorpecer os membros aquosos da percepção. A certa altura quase que sentia que não ter filhos não era uma decisão minha. Sentia que olhavam para mim como se os tivesse morto. Não era um homem sem filhos; era um homem que os tinha assassinado com uma serra eléctrica.
Não foi propositado, nem de uma parte nem de outra, mas a certa altura afastei-me dos meus amigos. Faltavam as conversas sobre os filhos. E faltava a mulher para os programas a quatro. E quando digo a quatro não me refiro aos meus membros pousados sobre a alcatifa fibrosa.
Então e a tua mulher está boa.
Ela não é minha mulher.
Então porquê.
Porque sim.
E a conversa ficava por aí, sem mais vocábulos para inserir na circunstância. Sim, há dez anos que é tudo circunstância. Sou um homem sem descendência e isso é perigoso. Talvez contagioso.
Em momentos mais elaborados explicava que eu e a minha mulher que não é, se tivéssemos filhos, eles nunca iriam querer deixar descendência por nada deste mundo.
Mas isso é uma decisão a dois.
Não. Basta um.
A verdade é que nunca tive paciência para crianças. Nem para adultos. Nunca tive verdadeiramente paciência para nada. O lar custa-me metade da reforma. O resto dou às enfermeiras para se despirem e depois mijarem no bidé. E depois.
Para ser sincero, nem para mim tenho muita paciência. Nunca nada me interessou especialmente neste sítio. Nunca conheci ninguém verdadeiramente consciente dos seus actos.
A consciência é um estado intermédio entre a apatia e a euforia.
E as definições são a negação do medo em não aceitar que as coisas não fazem sentido nenhum.
Não deixo descendência, mas deixo a dúvida do silêncio.
Não. Não deixo nada.