Monday, July 30, 2007

A excepção que confirma a regra – 2ª edição, porque agora de mais premente utilidade


A entropia na teoria da informação corresponde à incerteza probabilística associada a uma distribuição de probabilidade. Cada distribuição reflecte um certo grau de incerteza e diferentes graus de incerteza estão associados a diferentes distribuições (embora diferentes distribuições possam reflectir o mesmo grau de incerteza). De um modo geral, quanto mais "espalhada" a distribuição de probabilidade, maior incerteza ela irá reflectir.
Por exemplo, se alguém lançar um dado de seis faces, sem saber se ele é viciado ou não, a probabilidade mais razoável a ser atribuída a cada resultado possível é 1/6, ou seja, representar a incerteza usando a distribuição uniforme. Esta atitude segue o conhecido princípio da razão insuficiente de Laplace, onde atribuir probabilidades iguais aos eventos possíveis é a maneira mais razoável de alguém reflectir sua ignorância (e sua incerteza) quanto às probabilidades de ocorrência de cada evento.
Por outro lado, provendo-se a informação de que o dado é viciado e que ele dá números maiores, i.e. que a média é por exemplo 3.5 e não 3, então a pessoa naturalmente irá assumir uma distribuição alternativa à uniforme para expressar sua incerteza.
A informação complementar implica uma actualização da função distribuição para discernir o resultado de um evento enquanto variável aleatória – e não elemento determinístico. Ou seja, mais informação tem normalmente a desagradável consequência de obrigar uma alteração na forma de raciocinar; desagradável porque o arquétipo de pensamento anterior é contestado face à defesa pelos seus anteriores utilizadores – ainda não cientes da nova informação.
Estranhamente, é costume entre os humanos insistir no arquétipo anterior, apesar de já possuírem a nova informação que o invalida (e.g. o teclado qwerty). O que não deixa de criar a não menos desagradável consequência – de forma a continuar a validar o sistema antigo – de criar excepções às regras agora já não aplicáveis porque erradas.
Seguindo o nosso exemplo do dado viciado em canabis, assumir-se-ia agora que a probabilidade continua sempre 1/6, menos na faceta que origina o 4; e eis o paradigma antigo aglomerado com a nova informação que o invalida.
Isso a propósito de um artigo do Jared Diamond que aqui se reproduz à distância de um click:


http://www.geocities.com/malibu_malv/curse_qwerty.html

Reproduzir esta informação e torná-la apta a servir de base às relações interpessoais, é uma missão que o governo negará possuir qualquer envolvimento ou contacto.

Thursday, July 26, 2007

Goddam right boy!

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Yeats

Wednesday, July 25, 2007

Não sei

Porquê? E repetiu em tom mas leve. Repetiu talvez três ou quatro vezes, mas da última creio que já não procurava resposta. Era um porquê recostado à resignação que nada queria dizer, nem nenhum objecto tinha se não o de preencher o vazio que se aglomerava como o cotão.

Há palavras, frases inteiras que não se podem simplesmente dizer; as palavras devem arrastar-se pela língua, devem fluir sossegadamente até serem emitidas. Há palavras que não podem ser apenas despejadas. Precisam de ser pousadas. E depois devem também ser ditas com o olhar. E esse olhar deve ser doce como as palavras, deve ser suave; deve ser parte da palavra. No fim disso tudo, resta o mosto da voz. A minha voz pouco se eleva – quando o faço parece desadequado. Mas, apesar disso, é morna e permite dizer coisas com algum sossego. Alguma certeza.
Palavras, frases inteiras que devem ser ditas com cuidado, e apenas no momento certo.
Porquê? Foi o que ela me perguntou. E porquê, não é algo que se diga daquela maneira. Porque o porquê é imaterial, e deve ser dito como uma interrogação e não em voz baixa. Mas o porquê reverberou de forma diferente na minha cabeça. E pensei de facto: porquê.
Frases inteiras que devem ser colhidas com cuidado e em silêncio. E não devem ser muito repetidas. Aliás, não devem ser repetidas de todo. São frases que se dizem, uma, no máximo duas vezes na vida. E em intervalos prolongados de tempo. Muito prolongados.
O porquê era uma concha estendida ao contrário na praia. Escondia alguma coisa ou não escondia nada. Mas era um sólido curvo com estrias presas na minha garganta. O porquê calha bem em vozes rochosas.
Depois há frases que nem ditas podem ser; por elas deve passar apenas um murmúrio, um roçar de som que pouco se eleve. O porquê não pode ser dito desta forma. Mas o não sei já pode. Há uma forma de dizer não sei que se expira ao ser dito, e que, apesar de significar não saber, explica quase tudo de quem o diz. Não é a lamentação lodosa que busca a solução; esta forma de não sei que se diz em murmúrios transparentes não recrimina; diz antes: não sei porquê, mas isso não é importante.
Posto que a cinza dos gestos lavrados já fora levada de nós, e que o restolho que carpia pelo vento era um silvo já esventrado de destino, o não sei diria até demais para quem, de facto, nada mais queria dizer se não um mero, não sei.

Por isso disse apenas, porque sim.

Friday, July 06, 2007

O cronógrafo ratrappante


Não consigo deixar de pensar que o que segue, por antecipado, tem o sabor da sensação da surpresa forçada, que é, de entre todas as sensações disfarçadas que se podem forçar, aquela que tem o pior sabor. Não me parece que haja nada de mais pessoal, logo passível de facilmente identificar uma causa, do que o arrastar dessa certeza que se debilita e fraqueja como um pedaço de papel que murcha; e quando cessa – a certeza –, não o é originando vácuo; de facto, outra certeza surge no seu lugar.


Passei anos transportando este objecto de um lado para outro, sem nunca me interessar particularmente por ele. Tem ponteiros, vários ponteiros, ponteiros que giram, e tem um sistema numérico de base sessenta. Deve ser um relógio. Não o achava particularmente bonito, mas era antigo, provavelmente da primeira metade do século XIX, e era tratado como uma relíquia. E era. Tratava-se de cronógrafo ratrappante – porque podia medir dois acontecimentos diferentes ao mesmo tempo ou decorrendo em tempos que se cruzasem. Ora, dois diferentes ao mesmo tempo, não se distinguem na diferença pelo tempo. Mas distinguem-se na sua origem, forma, causa, cheiro. E também quando acabam. O cronógrafo de winnerl permitia exactamente isso.


Em vez da certeza que se possuía antes, surge uma outra coisa bifurcada: não só a desilusão pela certeza não afirmada, como a interrogação da causa dessa necessidade. Porquê não ter negada antes algo que se afigurava tão frágil de concretizar? Porque, de facto, se desejava que se concretizasse.


Gostava de saber se o cronógrafo ratrappante podia medir esses intervalos de tempo. O primeiro entre a elaboração de uma certeza e o início da dúvida, e o segundo entre esse início, e a certeza que nenhuma dúvida resta que a certeza anterior estava errada. Provavelmente um quociente entre os dois poderia dar uma grandeza física. Talvez uma grandeza palpável porque sentida, embora não numericamente. Mas desta forma, poder-se-ia calcular um coeficiente de ilusão – e o seu inverso, um rácio de desencanto.


E assim as certezas poderiam ser quantificadas; e uma análise estatística permitiria avaliar quantas dessas são de facto o produto do nosso desejo, e não a apreensão da realidade. E nós mesmos, enquanto entidade, teríamos uma identificação: nome, idade, altura, e coeficiente de desencanto.


Se tal acontecesse poder-se-ia fazer, de facto, algo de extraordinário. Quantificar a incidência de relações interpessoais por coeficiente. Não me surpreenderia nada que a verdade matemática esperada que, coeficientes inversos teriam maior predisposição para se contactar, não se verificasse. E assim tornasse o coeficiente de ilusão algo de bastante mais endógeno e imanente a qualquer um, do que um resultado da mera convivência inter pares.

Sunday, July 01, 2007

Sena


Por vezes acontece: encontro o mestre deles todos e fico sem palavras; recito-o sozinho com Debussy e quase que sinto algum prazer inequívoco na existência humana. Um prazer demasiado contagioso para ser partilhado. Faço uma figura ridícula comigo mesmo. Mas por certo ele não se importará - não tivesse ele sido um engenheiro de estradas como eu já fui. O homem por quem meço os meus passos, e que me é mais íntimo do que a maior parte destes cães-humanos que nem sequer sabem ladrar com pertinência.


Elogio da vida monástica

Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
A pessoa tratava de salvar a própria alma,
De mortificar o copo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
Uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
Estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
E que não podia deixar a solidão
Como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
Sem os inconvenientes e a incomodidade
Que o convívio humano traz consigo,
Desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
Ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
Como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
Com alguma imaginação de como o amor cheira.


Jorge de Sena