Tuesday, June 26, 2007

As caixas

Passados muitos anos, encontrei-o por acaso no supermercado. Olhava com muita atenção para dois detergentes de louça; comparava as composições, talvez o preço. Parecia intensamente concentrado nessa tarefa. Não sei porquê, mas na minha cabeça imaginei logo o cenário que se tinha separado há pouco tempo, e iniciado-se recentemente na escolha de detergentes. Depois pensei que era estúpido que mesmo casado não participasse nisso e achei o pensamento sexista – mas não me importei muito com a qualificação, achei apropriado o cenário.
Tentei aproximar-me mais; havia uma tentação em vê-lo melhor. Uma tentação que não se deve confundir com desejo. Não tinha qualquer desejo – apenas e talvez alguma curiosidade. Uma curiosidade forte, admito. Não que pensasse nele muitas vezes; aliás, não pensava.
É uma tendência muito feminina fantasiar o passado de forma a conferir uma tensão dramática à relação. Reviver uma história de um amor proibido, e de todos os entraves à sua concretização. Mas não houvera nada disso. Nenhum entrave bíblico em especial. Mas às vezes, mais tarde, dá jeito pensar que sim.
Ele agora passeava com o carrinho, de forma muito tranquila; nunca o tinha imaginado a emanar aquela tranquilidade numa actividade tão quotidiana. Estava mais gordo, mas não tanto quanto esperava. E estava muito mais velho.
Não sei porquê que continuava atrás dele. Estava à espera que se virasse? Não fazia a mínima ideia o que lhe iria dizer. Mas, no meio dessa tensão, comecei a imaginar o que ele diria. Ir-me-ia recriminar? Se calhar, bem lá no fundo, gostava que o fizesse. Não, não havia nenhuma razão explícita para recriminar – ele a mim ou eu a ele. Acho que provavelmente acabamos de maduro. Será que ele não repara que estou aqui. Nunca conheci ninguém tão distraído. Até se esquecia do próprio dia de anos. Gostava que ele se virasse. Dirigia-se para as caixas.
O tempo passou assim, pouco tempo, mas passou. Às vezes parece que arrancamos um post-it do frigorífico que é um bocado de tempo e ele entranha-se assim de um momento para o outro. Não é a lembrança do que foi vivido – existe a apreensão do que se sentia na altura. Arranca-se o post-it e lá se encontram milhares de sensações a borbulhar no instante. Não sabia bem o que fazer. Ficava minutos intermináveis a comparar preços e rótulos; depois escolhia um ao calhas. Não interessava. Nunca pensei que após tanto tempo pudesse sentir alguma coisa.
Houve uma altura que pensei mesmo em voltar para trás, ir direito a ela, perguntar o que queria. Mas por esta altura imaginava que ela já tinha visto que eu a tinha visto, e portanto que a estava a evitar. A ideia agradava-me. Estar numa posição em que a evitava. E portanto assim continuei, contrariado – profundamente contrariado. A certa altura, quando estava já perto de chegar às caixas, senti que já não aguentava mais.

Monday, June 25, 2007

The departure




Todas as coisas imperfeitas, penduradas ao sol na correia de aço enferrujado. A dormirem de mãos dadas como crianças. Todas as coisas imperfeitas desaguadas no fim do dia, quando o olhar se requebra, e o sorriso se esvai.


As coisas infinitésimas que se agarram à pele e dão comichão, e que não deixam dormir, noites em que a tosse ocupa o silêncio, e não deixa dormir, e coisas inúteis que ocupam a cabeça, e que não deixam dormir.


Todas as coisas imperfeitas como beijos mal dados, ou cerveja morna, ou não saber onde é que estás. Coisas que não deixam dormir. Onde é que estás?

O que é que somo nós se não uma inutilidade de coisas perfeitas.


Tuesday, June 05, 2007

Sem dúvida, ou a instabilização de sistemas contínuos

A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.

A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite – não necessariamente o limite do balde –, até que a água instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.

No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.

A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva e a base da teoria do caos. Ou que é menos intuitivo é aplicar esse princípio dentro de um sistema simples, apenas com duas variáveis. O exemplo mais simples é a destruição de árvores por parasitas. Um sistema de árvores com duas variáveis – idade e número – perfeitamente consolidado, instabiliza quando um determinado número as árvores atinge uma certa idade. Quando isso acontece, tornam-se susceptíveis do ataque de parasitas que, com o excesso de alimento, crescem geometricamente, atacando também as árvores mais novas – levando à catástrofe. Existe um ponto (the tipping point) de equilíbrio instável entre o número e a idade das árvores, que é atingido por acréscimos sucessivos e infinitésimos.Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe.
Para mim, entendo bem que a dúvida surja. Aceito que os sistemas instabilizem, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização pode não ser natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma questão de interpretação.

Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É uma forma de função inversa. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.

Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per se. Mas curiosamente a dúvida é também uma questão de escala. Com o tempo ela pode diluir-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural porque ela pode não existir. A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. Aliás, é tão simples quanto afirmar que, existindo dúvida, não existe certeza. Pelo que a dúvida cessa igualmente de existir – a dúvida sobre a certeza anterior.

A dúvida é interior e perceptiva – não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários.

A gravidade-lava


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.


Mário Cesariny



A chuva preta sobre o corpo; a chuva quente.
A pele adormecida sobre o alcatrão. As bermas enchendo-se de saliva e o corpo transpirando solidão inquieta.
As mãos pesadas, as mãos apertadas em solidão.
Está escuro sobre as peles sossegadas. Os dentes.
A estrada escura. Os dentes. Este escuro e esta chuva.
Os hálitos sobre o alcatrão. Tudo fede uma solidão única e contagiosa; e nada parece certo.
As unhas. E todos os detritos.
Tudo o que sou indexado a uma gravidade-lava.
Uma quinta força – o tempo deformando os olhares e o sabor da chuva. Não sei bem onde estou. Cai uma chuva negra que frita a pele.
A gravidade-lava; a que suga e preenche; a inalação do oxigénio tóxico.
O ar gravítico que aperta e mordisca o ventre como crocodilos bebés. E toda esta chuva negra de alcatrão perfumada.
Os dentes e as mãos, e a saliva-lava-chuva e o corpo estendido.
Sem palavras.