Saturday, February 25, 2006

Six concerts avec plusieurs mouvements


Como Calvino faz em “ E se numa noite de Inverno…” uma série de inícios de livros que em conjunto formam um livro que aspiram ao sublime, ofereço “ E se numa tarde de Abril o Sr. Dehn….”

Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur Christian Ludwig von Brandenburg. Foi este o título que o Senhor Siegfried Dehn, curador da colecção de música da biblioteca real de Berlim, leu num tom autoritário ao seu assistente que fazia o inventário. O Sr. Dehn, repetiu o título agora num sussurro quase imperceptível e ficou depois em silêncio; tentava entender como o sujeito se acordava ao verbo dedicar: com concerto ou movimento. Seriam por certo os seis concertos o sujeito, mas para o caso a questão pouco importava: ambos eram masculinos o que pressupunha que dediées não possuísse o e extra que o francês exige para o feminino.
Os franceses – bem ao contrário das restantes línguas latinas – não acordam em termos orais os verbos com os seus sujeitos, mas apenas na gramática; i.e. colocam um e para o feminino e um s para o plural, mas lê-se na exacta mesma forma como se não estivessem presentes; dedié (m,s) lê-se como dediée (f,s) que se lê como dediée (f,p) – muito à semelhança dos saxónicos que não possuem sequer estes vestígios latinos na sua língua. Esta gramática borderline dos franceses – incorporando o pragmatismo saxão e a escolástica romana – já seria por si só indigestível e condenada à extinção, não fosse um pequeno pormenor que auxiliou o francês em toda a sua musicalidade: em francês lê-se a vogal inicial de uma palavra com a consoante final da palavra anterior no que é chamado de liaison ou ligação. Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur é lido Six concerts s’avec plusieurs mouvements dediées s’a Monseigneur….O que é algo que também está presente subtilmente em português: lê-se seis concertos dedicados s’a – tornando-se o s num z – e não dedicados (pausa) a como os alemães na sua rígida separação de sílabas executam, tornando-a numa língua tão peremptória.
Era esta liaison entre dediées a Monseigneur (ausente na sua língua natal) que o Sr. Dehn ia sussurrando enquanto meditava sobre o estranho e a mais na frase. Foi portanto com um sibilar semelhante a uma abelha no ar que o seu assistente – já impaciente com zunzuns – lhe perguntou com uma pouco frequente autoridade: “ Mas qual o autor desses concertos? Algum francês?”
- Um francês não será por certo meu caro – respondeu-lhe o Sr. Dehn com a voz convicta. – Ou então é um francês que fala tão bem francês como tu… E riu-se paternal para o seu assistente que, ciente da falta de conhecimento que possuía da língua de Voltaire, assentiu envergonhado.
- Não, este e tem de ser definitivamente banido.– Afirmou o Sr. Dehn – quanto ao autor… E então o Sr. Dehn baixou a sua voz até esta se assemelhar apenas a um murmúrio, exclamando quase em silêncio:”Não pode ser!”
Numa letra algo irregular sobre o manuscrito envelhecido o Sr. Dehn leu a seguinte frase: do seu muito humilde e obediente servo, Jean Sebastien Bach.
A razão de tal espanto não advinha apenas de se tratar de Bach o autor da peça, mas por ser o Sr. Dehn um dos mais ilustres conhecedores da obra deste autor genial. E o Sr. Dehn nunca ouvira falar de tais concertos. Virou-se então para o seu fiel assistente e respondeu com a voz emocionada: “ Bach meu caro Klaus, isto é Bach…
Bach já morrera há mais de cem anos quando em 1849 foram encontrados nos arquivos da biblioteca Real de Berlim os seus famosos Seis Concertos dedicados em gramática sinuante ao Marquês de Brandenburg que, de imediato, ficaram conhecidos por Concertos Brandenburgueses. A essa tarde de Abril presto homenagem.

To be Continued

Monday, February 20, 2006

Rêverie



Uma rêverie constante e repleta de matéria dócil; a calda da compota de pêssego que escorre pelo temporizador das granadas de silêncio. Em silêncio escuta as migalhas que transbordam. Não digas nada – escuta o mover intromissivo das mãos salpicando os corpos.

Os nossos corpos que são algas sorvendo sal pela escarpa dos lábios mal secos. Porque não são matéria de lábios nem de rochas fedendo a mar, mas sílabas entre nós – aquele sorrir que nada dizendo preenche o vazio que se inala ao acordar.

Acordar contigo com a voz desfeita, não interceptar os membros entre a penumbra – resta aquele hálito seco da noite desfeita, aquela oxigenação do azul. Nós; será que fomos nós? Um pinhão com geleia no interior ou uma geleia cobrindo uma casca que nada encerra. Matéria fundamental de nós.

Eu não sou mais do que isto; sou apenas o resto do dividendo meio atordoado e poucas perguntas me restam. Por mim teria vivido noutro tempo e teria gasto esse tempo contigo. Entre o amanhecer sussurrado ao ouvido e as pálpebras espezinhando o escuro.

Noutro tempo teria a voz mais séria e as aftas polidas; ouviria Debussy de forma tão desalmada como hoje e mas sem o mesmo temor. Ao ouvir o Clair de Lune, sinto de imediato o uniforme amarrotado e o cheiro da chuva que me estala. Procurava o verbo de estalada, que não é de todo estalar. Mas muitas vezes até o logos me falta. No Debussy nunca senti a falta de verbos.

Por vezes sinto-me só. E apesar dessa solidão ser comigo, o comigo é insuficiente. Precipita-se entre o absinto e línguas com larvas; para mim nada resta a ser não oportunidade de te sentir sobre a areia. O marulhar desconcertado como abelhas ébrias e o fremir da presença como matéria sôfrega e fundamental. Matéria de mãos presas como aranhas esventradas e olhares cerrados como um neutrão.

Ser perecível e supremamente biodegradável; ser matéria de consumo de tempo. E possuir levemente essa consciência. Eu e tu, minha consciência do que ainda não é mas espreita. Eu e tu.

Pergunto-me muitas vezes qual a unidade fundamental de matéria e quando digo pergunto-me, não me refiro a uma busca ininteligível pelo quanta acidental que decorra do embate de quarks embriagados. Refiro-me antes a uma unidade indivisível que decorra da prolongada observação do tempo espreguiçando-se. Uma unidade fundamental de consciência.

Uma coisa divina que aglutine matéria de sonhos e de memórias. Matéria de amor inquebrável. Uma matéria que se assemelhe ao pensamento mais binário e mesmo assim mais intraduzível. Matéria de música que o seja em apenas uma nota; um poema inteiro numa só letra num só som, e que esse som seja também música e um só sentimento.

Quando penso em unidade fundamental de matéria não posso pensar em objectos contidos num espaço tangível – ainda que microscópico. Um espaço tão tangível e microscópico quanto o meu corpo putrescível e oxigenado; e no entanto ausente porque transitório, soberbamente efémero e finito. Uma bolha carbonatada nesta coisa expansível como uma grávida eterna.

Sei que nada em mim é unitário e fundamental. Sei que não sou um aglomerado de migalhas que juntas efectivam matéria porque a matéria perdura e nada em mim perdurará a mais de pó sub-atómico – e como bem se sabe pelo contacto casual que nós humanos possuímos com formigas e com tempo, migalhas não é pó, nem pó são migalhas. As migalhas decorrem do que resta do que houve e o pó deriva do que já não é mais.

Gostava de pensar que a unidade fundamental se encontra algures entre uma cerveja num final de tarde ameno com jazz arremessado de uma bateria vaga e um trompete impetuoso; ou entre o coaxar da chuva e as fagulhas da madeira aloirando-se e os corpos aglomerando-se em poças de amor com um Debussy esmigalhado bem lá atrás. Ou então apenas um beijo entre lágrimas; ou mesmo apenas Bach. O que seja, mas que seja de forma imprudente e descuidada; que o seja de forma apressadamente orgânica e musical; que o seja por sentidos o aperceberem e não por serem partículas inacessíveis ao tempo e à insanidade.

Que seja barro humano feito com saliva e melancolia altiva. Que contenha gordura e orgulho. Que contenha vergonha e vesículas inúteis. Que contenha toda a imperfeição e beleza que de uma jugular rota possa brotar.

A mim pouco me resta para além do Clair de lune. Aquela magia pontual de piano compreensivo. Alguma poesia e algum contentamento por actos repetidos e não pensado. Mas não me chega. Acho que claramente, não me chego a mim. Muito menos a toda esta putrefacta consciência que me cega como uma luz demasiado forte.

Fevereiro, 2006

Tuesday, February 14, 2006

Sem Título

Em redor da sombra encharcada, em teu redor, uma nota solta que desliza. No redor de ti, um cerco descamisado de mãos súbitas, nuvens paraplégicas e arrebentações de mares em Neptuno. Em teu redor, a sombra desaprendendo-se, a trajectória das mãos desenroscando-se, e o ímpeto do cerco deslizando pelos lábios liberais. Permanecer, liberto de sombras sindicalizadas, amor amordaçado numa indústria de murmúrios e sílabas que não duram mais que um beijo.
Mas mesmo não durando a sede mais que um gole de vinho, é a sede que eu quero – não a sua saciedade.