
Como Calvino faz em “ E se numa noite de Inverno…” uma série de inícios de livros que em conjunto formam um livro que aspiram ao sublime, ofereço “ E se numa tarde de Abril o Sr. Dehn….”
Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur Christian Ludwig von Brandenburg. Foi este o título que o Senhor Siegfried Dehn, curador da colecção de música da biblioteca real de Berlim, leu num tom autoritário ao seu assistente que fazia o inventário. O Sr. Dehn, repetiu o título agora num sussurro quase imperceptível e ficou depois em silêncio; tentava entender como o sujeito se acordava ao verbo dedicar: com concerto ou movimento. Seriam por certo os seis concertos o sujeito, mas para o caso a questão pouco importava: ambos eram masculinos o que pressupunha que dediées não possuísse o e extra que o francês exige para o feminino.
Os franceses – bem ao contrário das restantes línguas latinas – não acordam em termos orais os verbos com os seus sujeitos, mas apenas na gramática; i.e. colocam um e para o feminino e um s para o plural, mas lê-se na exacta mesma forma como se não estivessem presentes; dedié (m,s) lê-se como dediée (f,s) que se lê como dediée (f,p) – muito à semelhança dos saxónicos que não possuem sequer estes vestígios latinos na sua língua. Esta gramática borderline dos franceses – incorporando o pragmatismo saxão e a escolástica romana – já seria por si só indigestível e condenada à extinção, não fosse um pequeno pormenor que auxiliou o francês em toda a sua musicalidade: em francês lê-se a vogal inicial de uma palavra com a consoante final da palavra anterior no que é chamado de liaison ou ligação. Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur é lido Six concerts s’avec plusieurs mouvements dediées s’a Monseigneur….O que é algo que também está presente subtilmente em português: lê-se seis concertos dedicados s’a – tornando-se o s num z – e não dedicados (pausa) a como os alemães na sua rígida separação de sílabas executam, tornando-a numa língua tão peremptória.
Era esta liaison entre dediées a Monseigneur (ausente na sua língua natal) que o Sr. Dehn ia sussurrando enquanto meditava sobre o estranho e a mais na frase. Foi portanto com um sibilar semelhante a uma abelha no ar que o seu assistente – já impaciente com zunzuns – lhe perguntou com uma pouco frequente autoridade: “ Mas qual o autor desses concertos? Algum francês?”
- Um francês não será por certo meu caro – respondeu-lhe o Sr. Dehn com a voz convicta. – Ou então é um francês que fala tão bem francês como tu… E riu-se paternal para o seu assistente que, ciente da falta de conhecimento que possuía da língua de Voltaire, assentiu envergonhado.
- Não, este e tem de ser definitivamente banido.– Afirmou o Sr. Dehn – quanto ao autor… E então o Sr. Dehn baixou a sua voz até esta se assemelhar apenas a um murmúrio, exclamando quase em silêncio:”Não pode ser!”
Numa letra algo irregular sobre o manuscrito envelhecido o Sr. Dehn leu a seguinte frase: do seu muito humilde e obediente servo, Jean Sebastien Bach.
A razão de tal espanto não advinha apenas de se tratar de Bach o autor da peça, mas por ser o Sr. Dehn um dos mais ilustres conhecedores da obra deste autor genial. E o Sr. Dehn nunca ouvira falar de tais concertos. Virou-se então para o seu fiel assistente e respondeu com a voz emocionada: “ Bach meu caro Klaus, isto é Bach…
Bach já morrera há mais de cem anos quando em 1849 foram encontrados nos arquivos da biblioteca Real de Berlim os seus famosos Seis Concertos dedicados em gramática sinuante ao Marquês de Brandenburg que, de imediato, ficaram conhecidos por Concertos Brandenburgueses. A essa tarde de Abril presto homenagem.
To be Continued
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