Monday, December 25, 2006

Uma questão de escala

A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.

A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num enésimo termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite, até que essa água – liquido inerte por natureza – instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.

No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria que não o é chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.

A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva. Basta pensar em qualquer acontecimento e tentar encontrar as causas; depressa se é obrigado a assumir que existem acontecimentos que não têm nenhuma causa próxima detectável, pelo que existem, para cada acontecimento, consequências também indetectáveis. Mesmo sendo verdade que existam coisas sem qualquer aleatoriadade aparente, tal não significa que as suas causas sejam detectáveis.

Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe. A ideia é inquietante. Mas obviamente que só não se aplica às catástrofes que já se previam que fossem acontecer. E essas são na forma de uma lânguida superfície oval designada por zero.

A dúvida poderia inquietar ainda mais o sistema se, ela por ela, fosse absoluta, e condenasse à improbabilidade a análise de qualquer sistema de variáveis aleatórias. Mas essa proposição, em si, também não seria válida. Para mais, prever que não se pode prever é uma afirmação muito auto negatória.

Para mim, entendo bem que não existam dúvidas. Aceito que os sistemas instabilizam, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização não é natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma interpretação nossa.
Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É natural que assim seja. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.

Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per si. Mas curiosamente a dúvida é sempre uma questão de escala. Com o tempo ela dilui-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural – porque ela não existe.
A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. A dúvida é interior e não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários. Ou planetas.

Friday, December 08, 2006

Vegetação

A noite por cá é percorrida por uma sumptuosa gritaria de aves entre a floresta virgem. Tens estado uma lua cheia que ilumina uma noite nunca silenciosa; a floresta ondula sob o planalto do luar e a noite densa de arrepios emerge. E depois surge um silêncio fátuo que adormece em sossego.

Quase que sinto as bolhas de ar do tempo a dissolverem-se como um alka-setzer; mais parece uma sinfonia de grilos indispostos.

Á frente da praia há uma montanha mascarada de nuvens que apenas deixam percepcionar a base e o topo. O cume parece o de um vulcão imponente, um ancião adormecido na sua colcha de fosfato. Mas são montanhas mortas estas; cumes desgastados pela crepitação do tempo. O tempo dissolvendo-se como um alka-setzer.

A areia é falsa. Não é de cá. Montanhas com floresta virgem e areia junto ao oceano é um acaso geológico. As árvores não crescem em rocha, e a areia não vem da terra. Acho que prefiro a Cordoama.

Não que aprecie a aridez, mas esta incandescência de vegetação, verde a crescer do mais infímo micro-poro de terra ou de rocha, esta abundância de vida... Confesso que me é um pouco aflitiva por alguma intíma razão que desconheço.