Friday, October 20, 2006

Eternidade ao amanhecer




Não tínhamos culpa porque o dia se abria diante nós como uma goela súbita
E todos os pedaços de terra levitavam
A argila das sombras envolvendo as planícies de corpos
E todos os pedaços de mar explodiam
A espuma urdindo poros sobre as falésias despidas
E todos os pedaços fogo irrompiam
As chamas doces fulminando céus e galáxias gélidas
E todos os pedaços de amor se soltavam
Porque não tínhamos de culpa de sermos assim culpados
Assim sem dia ou noite, ou tempo algum,
Engolidos nesse embaraço breve de sermos eternos
Em cada amanhecer.

Quote

“No society, no matter how tolerant, can expect to thrive if its citizens don't prize what their citizenship means.”

Salman Rushdie

Wednesday, October 18, 2006

Os Sacos

A luz que entrava pela casa era asfixiante; nunca consegui adormecer com uma luz daquelas. A luz era uma luz de espera. Aguarda a tua vez, agarra o silêncio com os lábios, não te cortes. Não conseguia ficar ali.

A inquietude. Saí. Tinha de sair. Com uma luz destas o céu encontra-se queimado; tem as nuvens meio sonolentas a expandirem-se como uma mancha de tinta. Quando era novo lembro-me do meu pai na sua secretária com as mangas em tecido a cobrir os punhos por causa dos borrões; cheiravam ao verniz das unhas das mulheres. Eu gostava do cheiro; gostava do cheiro a asfixia.

Antes de a minha mulher ficar doente arranjava as unhas todas as semanas. E ia ao calista. Acho que tinha mais cuidado com as mãos do que com o cabelo. Quando discutíamos elogiava-lhe o cabelo que era muito fino e castanho. Sabes muito bem que não faço nada de especial. E ficava com a certeza que não precisava de fazer nada de especial porque tinha o cabelo bonito porque era muito fino e castanho. Tens a certeza que não preferias que o pintasse; e eu dizia claro que sim e ela sorria irritada.

Não consigo ficar quieto a absorver esta luz estéril. Esta luz que mata. Por vezes a inquietude toma conta de mim como uma expressão ínfima de terror. Caminhava pela rua e imaginava-a a chamar por mim. Não a devia ter deixado sozinha. Uma das coisas boas da idade é que a inquietude pode ser entendida como senilidade. Está velho, não sabe o que faz. Claro que sei. Os homens avariam-se, e as mulheres também. Não quer dizer que se estraguem.
Caminhei longuíssimas horas. Uma ou duas. Ou mais. Acho que não sabia o que queria. Quando não sei o que quero ponho-me a andar pelas ruas. Cria-me a ilusão que me dirijo para algum lado; algum lado definido. Mas não caminho para nenhum sítio em particular. Passo pelo barbeiro, sento-me no café, compro uma fruta. Agora já sei porquê que os velhos andam sempre com um saco e o cabelo bem aparado. Nunca vi um velho com o cabelo comprido. Os sacos contêm a melancolia de ter tempo; contêm uma razão para sair de casa.

Eu ainda não ando de sacos. Os velhos que andam de saco sempre me intrigaram. Agora faço questão de não andar de sacos porque já sei a razão. A razão é a demonstração aos outros velhos da sua habilidade em viver por eles, sem ajuda, com toda a independência. Os velhos dos lares não usam sacos. Os outros velhos passam as manhãs e as tardes a competir com o lustre e volume dos sacos que transportam. Trazem nos sacos um quilo de farinha para fazer pastéis, quatro maçãs para a sobremesa, um infinito de desesperança, e a ilusão da actividade.
Esta luz mata-se a ela própria. E mata tudo à volta. Eu dou grandes caminhadas quando não sei o que quero mas eu sei o que quero. Quero convencer-me que ainda sou capaz de andar sozinho pela cidade e que não tenho uma mulher doente em casa. E quero culpar a luz se possível. Ou doutor, doem-me as costas, é esta luz que anda para aí, há que ter cuidado, vai ter de tomar estas gotas.
Gotas, remédios, comprimidos. Os sacos das farmácias são demasiado pequenos para engrandecerem alguém.

Quando o meu pai morreu todos me diziam, o teu pai morreu com uma grande dignidade. Sim uma grande dignidade e um grande cancro no estômago. Mas hoje há remédios, e tratamentos e gotas. Hoje já não se consegue morrer com dignidade. Hoje morre-se quando se desiste.
Ela nesse dia de manhã tinha-me perguntado, gostas de mim. Eu percebi que ali alguma coisa estava mal porque ela nunca me tinha perguntado isso. Gosto de ti como da primeira vez que te vi. Mas na primeira vez que me viste eras casado com outra. Ela sorriu irritada, e eu sorri por antecipação. Mas gostava dela e falava a verdade. Queria pedir-te um favor. Segurou-me a mão A mão com unhas desarranjadas e manchas furibundas. Queria que me deixasses sozinha esta tarde por umas horas, preciso de falar com um velho amigo. Algumas décadas de coabitação ensinaram-me a não discutir. Assenti.

Uma mulher se quiser engana sempre um homem. Quando cheguei a casa já a tinham levado. Acho que me tinha demorado mais do que pensava.

Friday, October 06, 2006

A sagração da primavera

A sagração da primavera de Stravinsky é reconhecida como o marco primordial da subjugação da melodia ao ritmo. Este ballet em dois actos encomendado por Diaghilev e estreado em 1913, desvendou um novo mundo à música com a sua sumptuosidade rítmica, repleta de dissonâncias ferozes entre momentos de celebração extrema e o cansaço moribundo do sacrifício.
A sagração para além de servir de farol para as obras seguintes, é majestosa e imponente. A orquestração necessária é colossal e gerou espanto absoluto na época. Para a executar são necessários mais vinte instrumentos do que numa orquestra normal, a maior parte dos quais são instrumentos de sopro, dos quais oito são trompas; a orquestração é talvez apenas comparável à 2ª Sinfonia de Malher (a ressurreição) que exige dez trompas e que foi executada este ano nos proms.
Esta prevalência dos metais torna a música incisiva e saliente, mesmo nos andamentos mais harmónicos; por vezes apenas uma distonia melódica de cordas é audível, mas contendo sempre harmonias sobrepostas, alternando-se, completando-se, até ao limite de uma fuga atonal.
A sagração evoca uma festa pagã contendo rituais primitivos; a celebração dentro do contexto ecuménico desaparece e com ela a ritualidade da melodia celestial. A sagração não possui nada de celestial; é mesmo a última coisa que se pode esperar ouvir dentro de qualquer contexto religioso; o único episódio religioso digno da sagração é o dia do juízo final. Ou a fantasia da Disney, que utilizou trechos da obra.
A sagração insere-se num contexto de distorção e exagero. Ao mesmo tempo o movimento surrealista expande o legado impressionista, violentando a geometria e as regras espaciais. Les Demoiselles d’Avignon é pintado em 1907 e o cubismo surge como um frémito há muito receado. Stravinsky e Picasso conheceram-se aliás em 1917; um ano mais tarde Picasso casa-se com uma bailarina dos ballets russes, a mesma companhia que encomendara a sagração.
É um admirável mundo novo que se apresenta; tudo o que se encontrava definido e assimilado desmorona-se. A pintura, a música, a política, a física (Einstein ganha o prémio Nobel em 1920). Tudo ao som de Stravinsky e Debussy. E imagino que a história chegou a fim com a tecnologia sinfónica disponível.
Passado trinta anos, a invenção da guitarra eléctrica criaria um novo paradigma. E mais tarde os samplers, um outro diferente; Mas numa escala obtusamente mais diminuta. A história da música terá terminado por volta de 1913.

Monday, October 02, 2006

Cheguei



Passei horas e horas de chuva estrafegante meditando. Meditava num silêncio luminoso, e meditava actos. Os meus actos. Sabia que tinha um pulmão parado; e meditava sobre corpos cobertos de poeira e sentia as mãos molhadas com a cal do pensamento.
De uma forma suficientemente estranha para parecer natural, sentia que os próximos actos iam decidir muito mais que a própria carga natural que o agir comporta. E tinha essa sensação com a chuva a escorrer-me pela cara estanque. Decidir, critério de decisão, árvore de decisão, hemorragia de decisão. Há dessas alturas; uma altura sôfrega e imediata de decisão. A respiração suspensa, o pulmão parado, as mãos molhadas. E a chuva rufando como tropas marchando aguadas.
Silêncio na audiência em mim. O jogador russo segura o cavalo na mão; a jogada poderá ser determinante. E o jogador russo engole a peça e arrota uma libra de ouro.
Estive quase a ceder. Saber o que o destino importa sem ser no haraquiri. Não; pôr o sabre de lado, e meditar. E assim meditei.
Concluí, como o Lobo Antunes, que o mundo foi feito ao contrário. Feito do fim; e é pelo fim que se deve começar. Para onde se quer chegar. É como os labirintos; os labirintos são incrivelmente mais simples se se começar pela saída. É assim que se faz, está nos livros.
Começar pelo fim tem a grande vantagem de permitir a instauração de uma imagética infra-racional. No momento anterior à decisão, ao acto racional de deliberadamente excluir um caminho – sim, se fosse possível escolhia-se os dois e não nenhum, o que, apesar de tudo, também é curioso – encena-se, não o percurso, mas o momento final. Simples e trivial e constante
O caminho deve ser tapado; deve-se colocar uma manta sobre ele. Não se deve ver o caminho. Sim, o conflito não surge da tomada de decisão. Surge da acção que daí advém; do caminho a percorrer. Quase sempre.
O mundo começou pelo fim, e daí chegou a um princípio de uma forma impensável. Foi isso que fiz. Foi só seguir as setas.
Cheguei.