Friday, August 31, 2012

Einmal ist Keinmal








Uma carnificina de mãos fundentes

E de astros moribundos

Naquela madrugada sem palavras

Na seara cavalgámos

Com os olhos fechados

E de corações apertados

Na certeza de sermos únicos

De sermos vãos e humanamente

Estridentes

De sermos um infinitésimo de nós

E berrarmos uma sede

E cavalgarmos uma vida

E expulsarmos toda a morte

De dentro de nós

Que vibra como mosquitos

Epilépticos.

Morramos assim então

Humanos por dentro

E divinos por todo o lado

Agora que os astros adormeceram e

Nossas mãos se pousaram.

Criacionismo, indivíduos versus médias, e Tea Party

Trend: Which of the following statements comes closest to your views on the origin and development of human beings? 1) Human beings have developed over millions of years from less advanced forms of life, but God guided this process, 2) Human beings have developed over millions of years from less advanced forms of life, but God had no part in this process, 3) God created human beings pretty much in their present form at one time within the last 10,000 years or so


“There remains something about the evolutionary account of our origins that sounds a little like a just-so story. Until a century and a half ago it would have been regarded by the most educated person as just that – a witty tale in slightly poor taste; science fiction perhaps, but not science. This incredulity lingers: although now firmly established in the minds of most Europeans, evolutionary theory remains highly contentious worldwide. Notoriously, this includes in the US.
According to a Gallup poll conducted this year, nearly half of Americans believe we humans were created by God just as we are today, whereas a further third believe in a process of “intelligent design” guided by a divine hand. Only 15 per cent accept that we evolved unaided from some surprisingly upright apes.

This reflects a kind of paradox: although our brains have ballooned over the past million years or so, we still struggle to understand ourselves. Nowhere is this more obvious than in the study of our origins. “
“Planet of the apes” By Stephen Cave


Não acredito que esta situação seja uma questão de ignorância. Não acredito que 46% dos Americanos desconheçam a teoria da evolução. Não acredito sequer que 46% dos Americanos tenham lido o Antigo Testamento (em particular o Livro do Génesis). Tal como não acredito que 32% dos Americanos consigam explicar, com exactidão, em quê que consiste o absurdo “Inteligent Design” – uma tese à Professor Marcelo: não é permitido acreditar na evolução, mas podem praticá-la.

Caso contrário, ter-se-ia de concluir que os Americanos são ignorantes – coisa na qual não acredito. Os Estados Unidos lideram a investigação científica na maioria das áreas do conhecimento humano, possui os melhores especialistas e é responsável pela maior parte das inovações técnicas – resultado, quer da investigação universitária, quer do dinamismo empresarial.

Acredito sim que, apesar de conhecerem os factos científicos, escolham acreditar numa hipótese alternativa – uma hipótese criacionista, uma tese em Deus intervenha e mais do que intervir, valida a sua existência. É claro que é uma inversão da causalidade: se Deus participou na criação do Sapiens é porque existe; como existe é porque criou o Sapiens. Este esquema mental é chamado confirmation bias pelos economistas e matemáticos e dissonância cognitiva pelos psicólogos. O mesmo remédio num frasco diferente.

Seria interessante perceber como é que o Sapiens, com o seu cérebro insuflado, nega a própria racionalidade que o torna Sapiens. E na minha opinião é exactamente isso que se verifica: uma negação de racionalidade.

Ética versus ciência

A ciência possui duas características fundamentais; a primeira é a sua propriedade cumulativa. “If I have seen further, it is by standing on the shoulders of giants", assim falou Newton. Os ombros deste gigante é o conhecimento acumulado por séculos de investigação que permite a um cientista retomar o trabalho de outro no ponto em que este o deixou. ~

O segundo, e sem dúvida mais importante, é o que permite a qualquer cientista aferir se as suas conclusões estão correctas: o método cientifico. É um feito extraordinário:  ultrapassar o limiar do conhecimento e deter um método que permita saber, em qualquer ponto, se estamos no caminho certo ou no caminho errado. Não indica o caminho – apenas o qualifica. Estas duas características permitem que a ciência avance pelo engenho e capacidade de apenas de uma pessoa – ou seja pelo percentil 0,00000000001% da humanidade.
Ora nada poderia estar mais distante da nosssa realidade enquanto Sapiens, enquanto propriedade, do que as variáveis que fazem avançar aquilo que designamos por cultura; e isso porque a nossa cultura não avança pelos esforços do mais ínfimo percentil da humanidade (por mais correcto que esse possa estar); a nossa cultura avança pela média das culturas de cada humano, o que, individualmente, não se designa por cultura  mas sim por ética. Avança pela média. Ora aí está um processo que instintivamente soa a alguma lentidão; e é lento. Muito mais lento que a velocidade que move a ciência.
Existe portanto uma discrepância profunda entre ciência e ética – e é neste plano que devem ser comparados pois é o plano individual: ciência compara com ética e conhecimento compara com cultura. A distância entre ética e ciência tem estado a acentuar-se pois a ciência tem, naturalmente, crescido cada vez mais depressa. O aumento dessa distância é aliás visível. A ciência praticada actualmente é perfeitamente ininteligível para o percentil 99,9% da humanidade: e.g.: bosão de Higgs.

Neste ambiente de distanciamento profundo e de circulação instantânea da informação (verdadeira ou falsa), uma qualquer visão alternativa adquire de imediato grande aderência, mesmo que implique um revisionismo extenso da história. Nada parece confirmar de forma mais premente essa hipótese do que o tea party no Estado Unidos.

Stay tunned as we come back for more on that.



Wednesday, August 29, 2012

Regresso injectivo

Um regresso. Um regresso que primeiro é um tempo gasto num caminho de volta e que depois é o tempo até tudo voltar ao que era antes da partida. Um regresso podia-se dividir em duas partes distintas e às vezes conflituosas: o percurso que se faz e o que se sente quando se chega.
O tempo que se demora a regressar não é apenas o tempo que se demora no percurso. A viagem de regresso pode durar apenas duas horas de avião; mas o regresso pode ser adiado por vários dias, mesmo semanas. Eternidades. O que se sente durante o regresso é um indício sobre o que se seguirá, como é evidente. São raras as vezes em que um regresso é inteiramente desprovido de emoção; sem expectativa ou ansiedade. Um regresso vazio, neutral é como uma viagem nova; é como chegar a um sítio novo; por estrear.

Sítios novos detêm a inelutável capacidade de potenciar a mudança. Muitas vezes a circunstância antecede o efeito: é para mudarem que algumas pessoas mudam de sítio. Mas muitas vezes é casual. A necessidade de criar novas rotinas activa novas redes neuronais e a presença destas altera, por vezes apenas ligeiramente, a percepção da realidade.

A mudança possui esse tremendo feedback positivo: uma pequena mudança activa uma nova rede que nos expõe a uma nova sensação; ou à mesma sensação causada por um diferente objecto. Não que a memória ou o espaço sensorial seja injectivo. Ou as pessoas; principalmente as pessoas. O que seria deste mundo se uma pessoa nos podesse transmitir apenas apenas uma sensação? Seria um mundo sem ambiguidade. A ausência de injectividade das sensações é o que nos permite aceder a esse intangível lodoso que é a ambiguidade. O objecto poder ser varias coisas ao mesmo tempo. Um anti-clivagem. Um ser inteiro. Não é um grande feito mas é assim que funciona. Os regressos, tal como as pessoas, carecem de injectividade. Podia ser o mesmo, mas nunca é; é sempre diferente; e isso perturba-me de alguma forma. Principalmente no voltar. Voltar devia saber sempre ao mesmo e não sabe. Voltar a casa. Ao cheiro da almofada de sempre. Ás arestas memorizadas. Não é. É sempre diferente. E eu preferia que fosse; preferia que pelo menos isso fosse fixo.

Mas se assim fosse, talvez não voltasse. Talvez não houvesse segundo regresso. Se o regresso fosse injectivo, talvez não o fosse.