“There remains something about the evolutionary account of our origins that sounds a little like a just-so story. Until a century and a half ago it would have been regarded by the most educated person as just that – a witty tale in slightly poor taste; science fiction perhaps, but not science. This incredulity lingers: although now firmly established in the minds of most Europeans, evolutionary theory remains highly contentious worldwide. Notoriously, this includes in the US.
According to a Gallup poll conducted this year, nearly half of Americans believe we humans were created by God just as we are today, whereas a further third believe in a process of “intelligent design” guided by a divine hand. Only 15 per cent accept that we evolved unaided from some surprisingly upright apes.
This reflects a kind of paradox: although our brains have ballooned over the past million years or so, we still struggle to understand ourselves. Nowhere is this more obvious than in the study of our origins. “
“Planet of the apes” By Stephen Cave
Não acredito que esta situação seja uma questão de ignorância. Não acredito que 46% dos Americanos desconheçam a teoria da evolução. Não acredito sequer que 46% dos Americanos tenham lido o Antigo Testamento (em particular o Livro do Génesis). Tal como não acredito que 32% dos Americanos consigam explicar, com exactidão, em quê que consiste o absurdo “Inteligent Design” – uma tese à Professor Marcelo: não é permitido acreditar na evolução, mas podem praticá-la.
Caso contrário, ter-se-ia de concluir que os Americanos são ignorantes – coisa na qual não acredito. Os Estados Unidos lideram a investigação científica na maioria das áreas do conhecimento humano, possui os melhores especialistas e é responsável pela maior parte das inovações técnicas – resultado, quer da investigação universitária, quer do dinamismo empresarial.
Acredito sim que, apesar de conhecerem os factos científicos, escolham acreditar numa hipótese alternativa – uma hipótese criacionista, uma tese em Deus intervenha e mais do que intervir, valida a sua existência. É claro que é uma inversão da causalidade: se Deus participou na criação do Sapiens é porque existe; como existe é porque criou o Sapiens. Este esquema mental é chamado confirmation bias pelos economistas e matemáticos e dissonância cognitiva pelos psicólogos. O mesmo remédio num frasco diferente.
Seria interessante perceber como é que o Sapiens, com o seu cérebro insuflado, nega a própria racionalidade que o torna Sapiens. E na minha opinião é exactamente isso que se verifica: uma negação de racionalidade.
Ética versus ciência
A ciência possui duas características fundamentais; a primeira é a sua propriedade cumulativa. “If I have seen further, it is by standing on the shoulders of giants", assim falou Newton. Os ombros deste gigante é o conhecimento acumulado por séculos de investigação que permite a um cientista retomar o trabalho de outro no ponto em que este o deixou. ~
O segundo, e sem dúvida mais importante, é o que permite a qualquer cientista aferir se as suas conclusões estão correctas: o método cientifico. É um feito extraordinário: ultrapassar o limiar do conhecimento e deter um método que permita saber, em qualquer ponto, se estamos no caminho certo ou no caminho errado. Não indica o caminho – apenas o qualifica. Estas duas características permitem que a ciência avance pelo engenho e capacidade de apenas de uma pessoa – ou seja pelo percentil 0,00000000001% da humanidade.
Ora nada poderia estar mais distante da nosssa realidade enquanto Sapiens, enquanto propriedade, do que as variáveis que fazem avançar aquilo que designamos por cultura; e isso porque a nossa cultura não avança pelos esforços do mais ínfimo percentil da humanidade (por mais correcto que esse possa estar); a nossa cultura avança pela média das culturas de cada humano, o que, individualmente, não se designa por cultura mas sim por ética. Avança pela média. Ora aí está um processo que instintivamente soa a alguma lentidão; e é lento. Muito mais lento que a velocidade que move a ciência.
Existe portanto uma discrepância profunda entre ciência e ética – e é neste plano que devem ser comparados pois é o plano individual: ciência compara com ética e conhecimento compara com cultura. A distância entre ética e ciência tem estado a acentuar-se pois a ciência tem, naturalmente, crescido cada vez mais depressa. O aumento dessa distância é aliás visível. A ciência praticada actualmente é perfeitamente ininteligível para o percentil 99,9% da humanidade: e.g.: bosão de Higgs.
Neste ambiente de distanciamento profundo e de circulação instantânea da informação (verdadeira ou falsa), uma qualquer visão alternativa adquire de imediato grande aderência, mesmo que implique um revisionismo extenso da história. Nada parece confirmar de forma mais premente essa hipótese do que o tea party no Estado Unidos.
Stay tunned as we come back for more on that.