Monday, November 03, 2008

O fim do indigente



Então o senhor acomodou-se ao balcão e disse, Em alternativa ao amor, queria então a indigência. Uma indigência pouco elaborada. Não quero uma túnica com manchas e buracos. Não gosto de farrapos. Basta um olhar de canino esfomeado e abandonado. Depois pensou um pouco e completou, Basta esfomeado e quero também uma camisa de linho – e apenas linho porque não gosto de misturar tecidos. Posto isto, bebeu de um trago um copo de branco que por ali estava caído. E desfaleceu – sem pagar.


Foi assim o fim do indigente

Mãos e olhares e outros cheiros



O cheiro da malha molhada. A malha lambida por chuva e suor diário. E as maçãs do rosto rosadas. As mãos muito frias. Um frio que se alonga aos dedos juntos, ou apenas juntando-se, como as gotas de chuva interceptadas sobre os poros do vidro. Mãos que se encontram, ao acaso, por uma infinitude de leis naturais de escoamento, e que assim permanecem. As mãos e os olhares. Apenas estes se encontram sujeitos a tais leis de atracção gravítica. Os restantes membros não se encontram; são orientados nesse sentido.

Tudo o resto é determinado, e acessório dessa naturalidade molecular que é o silêncio se aproximar como uma cobra, e despejar sobre esse olhar fugidio, a impaciência da primeira palavra – ou a certeza do primeiro gesto.