Wednesday, April 16, 2008

saliva pólvora

Às vezes é voraz; a fome é trucidante por astros e corpos. A boca cerzida com uma saliva pólvora e as mãos trémulas como helicópteros moribundos.

As vezes, a caruma esfuma-se nas gengivas gastas; as palavras não se soltam: enforcam-se a partir da língua.


Carrego nos pulmões uma vala comum de léxicos em desuso; eles conversam num dialecto medieval. Gosto de os ouvir. O som do alaúde percorre-me todos os dias em que a fome graça e é meu mister a abundância de espírito. Tenho de criar um logótipo para este estado.


No empedrado de calcário deparo-me com cabelos louros muito lisos nas juntas das pedras. Todas as pedras são olhos cinzentos e todos os dias são pérolas azuis.

Todas as bocas expelem bolas de cotão, mas alguns emitem dentes de leão. A diferença é que um é indicado para tratar do reumatismo, e o outro não. Um flutua no vento e o outro gasta o ar – é como um perfume: se for bom, logo se desprende e segue; se for mau, satura o ar com um hálito fétido.


Por vezes acorda-se velho, e com saudades do cheiro a alfazema. Mas logo a juventude emerge, e com ela, os desconhecidos e abundantes campos de alfazema revelam-se.