Um regresso. Um regresso que primeiro é um tempo gasto num caminho de volta e que depois é o tempo até tudo voltar ao que era antes da partida. Um regresso podia-se dividir em duas partes distintas e às vezes conflituosas: o percurso que se faz e o que se sente quando se chega.
O tempo que se demora a regressar não é apenas o tempo que se demora no percurso. A viagem de regresso pode durar apenas duas horas de avião; mas o regresso pode ser adiado por vários dias, mesmo semanas. Eternidades. O que se sente durante o regresso é um indício sobre o que se seguirá, como é evidente. São raras as vezes em que um regresso é inteiramente desprovido de emoção; sem expectativa ou ansiedade. Um regresso vazio, neutral é como uma viagem nova; é como chegar a um sítio novo; por estrear.
Sítios novos detêm a inelutável capacidade de potenciar a mudança. Muitas vezes a circunstância antecede o efeito: é para mudarem que algumas pessoas mudam de sítio. Mas muitas vezes é casual. A necessidade de criar novas rotinas activa novas redes neuronais e a presença destas altera, por vezes apenas ligeiramente, a percepção da realidade.
A mudança possui esse tremendo feedback positivo: uma pequena mudança activa uma nova rede que nos expõe a uma nova sensação; ou à mesma sensação causada por um diferente objecto. Não que a memória ou o espaço sensorial seja injectivo. Ou as pessoas; principalmente as pessoas. O que seria deste mundo se uma pessoa nos podesse transmitir apenas apenas uma sensação? Seria um mundo sem ambiguidade. A ausência de injectividade das sensações é o que nos permite aceder a esse intangível lodoso que é a ambiguidade. O objecto poder ser varias coisas ao mesmo tempo. Um anti-clivagem. Um ser inteiro. Não é um grande feito mas é assim que funciona. Os regressos, tal como as pessoas, carecem de injectividade. Podia ser o mesmo, mas nunca é; é sempre diferente; e isso perturba-me de alguma forma. Principalmente no voltar. Voltar devia saber sempre ao mesmo e não sabe. Voltar a casa. Ao cheiro da almofada de sempre. Ás arestas memorizadas. Não é. É sempre diferente. E eu preferia que fosse; preferia que pelo menos isso fosse fixo.
Mas se assim fosse, talvez não voltasse. Talvez não houvesse segundo regresso. Se o regresso fosse injectivo, talvez não o fosse.
Mas se assim fosse, talvez não voltasse. Talvez não houvesse segundo regresso. Se o regresso fosse injectivo, talvez não o fosse.
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