A dúvida. Esse elemento em forma de coisa que é perceptível na forma de uma sombra. A dúvida, tal como o desejo e os organismos dos aquários, tem geração espontânea. É uma lenha que arde invisível mas que deixa cinza. E a cinza cola-se aos dedos como melaço. É desagradável.
A dúvida é um exemplo claro de uma consequência descontínua de um processo contínuo. A soma parcelar das experiências esgota-se num termo qualquer, e o processo cessa. Na realidade é tremendamente curioso; é como encher um balde com água até um dado limite – não necessariamente o limite do balde –, até que a água instabiliza e se transforma, por exemplo, em café. Ou num esquilo. Ou numa máquina de cortar fiambre.
No entanto, o princípio subjacente a esse evento extraordinário é na realidade banal. É um princípio simples que diz que o nível de desorganização do universo apenas tende a aumentar. E a essa matéria chama-se entropia. No fundo exprime a realidade aleatória da matéria e a magnificência do caos.
A ideia que pequenas alterações podem gerar mudanças incalculáveis é bastante intuitiva e a base da teoria do caos. Ou que é menos intuitivo é aplicar esse princípio dentro de um sistema simples, apenas com duas variáveis. O exemplo mais simples é a destruição de árvores por parasitas. Um sistema de árvores com duas variáveis – idade e número – perfeitamente consolidado, instabiliza quando um determinado número as árvores atinge uma certa idade. Quando isso acontece, tornam-se susceptíveis do ataque de parasitas que, com o excesso de alimento, crescem geometricamente, atacando também as árvores mais novas – levando à catástrofe. Existe um ponto (the tipping point) de equilíbrio instável entre o número e a idade das árvores, que é atingido por acréscimos sucessivos e infinitésimos.Funções continuas, cumulativas que originam um magna de confusão e de catástrofe.
Para mim, entendo bem que a dúvida surja. Aceito que os sistemas instabilizem, que a água se possa transformar num esquilo, que os aviões caiam, ou que as pessoas se apaixonem. É natural que o acumular de coisas que se pensam e se sentem torne o sistema humano em matéria volátil de actos imprevisíveis. A desorganização pode não ser natural; mas a instabilização é – chamá-la desorganizada é uma questão de interpretação.
Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se. Não se vê uma pedra, mas um sapo a fumar cachimbo. É uma forma de função inversa. A certeza é um tremendo descanso mental; com tantos elementos incontroláveis é um conforto indispensável reduzir ao máximo os graus de liberdade.
Sim, entre perturbações do sistema, entre transições de estado, existe uma inércia muito humana. A inércia que aconchega um mundo arrumado. Essa inércia é a dúvida per se. Mas curiosamente a dúvida é também uma questão de escala. Com o tempo ela pode diluir-se, mesmo que não surjam dados novos. O que é natural porque ela pode não existir. A dúvida é o acto de não-aceitação de uma nova realidade. Aliás, é tão simples quanto afirmar que, existindo dúvida, não existe certeza. Pelo que a dúvida cessa igualmente de existir – a dúvida sobre a certeza anterior.
A dúvida é interior e perceptiva – não matéria palpável que se organize exteriormente. A dúvida somos nós. Ou que, infelizmente, nos equipara a organismos que habitam aquários.
6 comments:
Tip: Paranoid Android - Brad Mehldau, "Largo" (faixa 5)
Tip: Paranoid Android, Brad Mehldau (in "Largo" - faixa 5)
Prefiro o original.
TThat's it, sir
You're leaving
The crackle of pigskin
The dust and the screaming
The yuppies networking
no conteúdo sim, mas formalmente, a tua cadência evoca a do piano de Mehldau.
"Ver-te assim – faz-me apenas querer não me mexer e ficar
Quieto sobre essa doçura demasiada óbvia."
e logo a seguir (que pena): "Ás vezes, coisas que se sentiam como rochas inamovíveis começam a perder a forma, a perspectiva e até a substância. A certeza esvanece-se."
Porquê deixar a angústia da dúvida fazer-nos sair da paz da doçura demasiado óbvia?
Uma luz despida de electrões contém uma doçura que tem muito pouco a ver com paz. Antes pelo contrário. É a certeza dessa doçura que torna a paz impracticável. Num termo qualquer lá para Plutão. Mas está lá...
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