
As vezes pensava em ti; o suficiente para entender que mais do que pensar, sentia o que pensava; e o que sentia eram centenas de tardes abafadas e desprotegidas – aquelas tardes em que se sentem os grilos como uma frigideira fervendo azeite e ar ondula espesso sobre o horizonte. Tardes em que o corpo se torna lânguido e a pele se aglomera em languidez excessiva que tenta, mas não pensa – num não pensar muito mais do que se sente, mas que não é sentir porque apesar de tudo, é lembrar.
A memória estava assumidamente por toda a parte, é certo: estava no cheiro da chapa quente do carro, no sal esvanecido nas bocas, no próprio afundar dos pés nos cristais das praias. A memória estava no parapeito dos corpos próximos e os corpos distantes como o esquecimento.
Por vezes não é a memória que fica, mas o cheiro de um tempo indeciso; um tempo antes de haver memória. Esses anos indecisos que foram anos em que os actos surgiam na mesma proporção dos desmanchos. O arrependimento não se aglomerava o suficiente para o ser; em anos indecisos o arrependimento é como cotão que surge do pó dos actos e que se desprende com um único hálito sôfrego – o arrependimento trata sempre mais do que se poderia ter feito (e se deixou de fazer) do que o que não se fez.
Os desmanchos sucessivos em palavras inquietas como nós; as horas perduravam centenas de palavras por dizer, mesmo que na realidade tivessem passado centenas de tardes em que nada tenha ficado por sentir. Depois sobravam os silêncios; mas não importava – um silêncio que indica um fim é bem diferente do silêncio que marca o início. E em anos indecisos nada configura a aparência de um fim; tudo é um elástico interlúdio.
As vezes pensava em ti e tudo me parecia bastante menos elástico. O tempo tem essa capacidade de solidificar a indecisão, até que o acto – por mais indeciso que tenha sido – se torna granito escamoso com saliências a saber ao sal esvanecido nas bocas e aos cristais que o silêncio soldou aos corpos. Mas é um bom silêncio; um silêncio com açúcar. Sim, nada é tão doce quanto a certeza que cada partícula acidental de tempo foi destilada até não conter um milímetro de açúcar. O açúcar amolece-se na boca e pouco tempo após, uma ninhada de álcool abrupto é engolida de um só trago. O olhar revira-se e as mãos tremem; mas sabe bem. Quase que sabe a nós.
O pensar que é como um sentir-se, mesmo que a memória seja virada do avesso e apresente coisas novas como tardes que ainda faltam viver durante toda a vida.
Os sorrisos vertiam-se sobre a chapa do carro abrasiva. Nada é mais reconfortante do que sentir que o tempo está do nosso lado.
2 comments:
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Não distingo a ultima vez que falei contigo de há bocado. Não distingo a tua presença da tua ausência.A tua existência da tua inexistencia.
O tempo está do nosso lado?!imagino então que tenha de estar entre nós para conseguir estar simultaneamente ao lado de cada um. achei que o tempo poderia ter escolha do lado onde quer ficar, tipo, exigir ficar do lado direito porque vê melhor as legendas.
Mas o tempo nem sempre interpreta as legendas...talvez porque tenha escolhido um mau lado.
Kiss bang bang
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