Monday, December 03, 2007

A singularidade do laranja




La vérité appartient à ceux qui la cherchent et non point à ceux qui prétendent la détenir."
(Condorcet / 1743-1794 / Discours sur les conventions nationales, avril 1791)


A verdade é como o açúcar nas rabanadas; sem açúcar as rabanadas passam a ser outra coisa qualquer, mas demasiado açúcar, torna as rabanadas intragáveis. A verdade deve ser doseada como um parasita deve dosear a colonização do seu hospedeiro. Se for de mais, o hospedeiro morre – assim como o parasita; se for de menos, o hospedeiro consegue desenvencilhar-se do parasita. Um equilíbrio de segunda ordem, vago, incerto, não linear – uma espécie de equilíbrio amoroso.

Não me permito cair nessa tentação fácil – a analogia entre o parasita e o hospedeiro, e o exercício dos afectos. Mas permito-me pensar no estado de transição: não na passagem do sinal vermelho para verde, mas na singularidade do laranja.

O laranja é tão instável que no limite não existe – ou não é nomeado. A mudança de fase da matéria, o tipo de escoamento de um fluído, ou qualquer estado binário implica uma transição não regida pelas leis aplicáveis aos estados imediatamente anteriores e posteriores.

É errado dizer que a água congela aos 0º. Normalmente, o processo de solidificação da água inicia-se através da cristalização de certas impurezas na sua geometria. Mas expurgada de todos os sais, e em algumas circunstâncias de arrefecimento, o zero deixa de ser zero para a água – o mínimo alcançado foi 18º negativos. Mas tal não implica que a água se encontre num domínio estável em cada um desses dezoito graus entre o 0º e -18º. Não se encontra: diz-se em transição; no fundo, é como o sinal laranja – não existe se não numa fase de transição entre dois outros estados.

A singularidade do laranja é óbvia; a partir do instante em que algum processo está laranja, há pelo menos uma coisa já se sabe: que não vai permanecer laranja. Infelizmente, não é possível conhecer o sentido da mudança, pois o fenómeno tem histerese.

Normalmente, uma reacção ocorre num sistema, antes em equilíbrio, que se altera de um estado inicial para outro. E pouco mais. Mas quando a reacção é histerética, não é suficiente conhecer o estado inicial – é necessário saber como é que se chegou até lá. Um sistema em histerese tem memória.

Em alguns países, o sinal laranja não surge apenas entre o verde e vermelho, mas também entre o vermelho e o verde. Ou seja, antes de o sinal passar a verde, passa a laranja primeiro. Isso tornaria o sistema histerético – olhando o sinal laranja, seria impossível saber se ele ia mudar para verde ou para vermelho. Para o saber, era necessário saber como é que ele ficou laranja; sem essa informação, apenas se sabe que, em breve, ele vai mudar.

Não me parece surpreendente que sejamos histeréticos – apesar de tudo, temos memória. O que me surpreende é a dificuldade em apreender o laranja. Principalmente quando é um bom laranja. Ou seja, em perceber que algumas vezes, se vive um estado transitório – um bom estado transitório, mas ainda assim transitório.


Mas, a verdade é que nem isso é plenamente verdade: depende como é se chegou ao bom laranja. E é isso que torna o laranja tão singular.

3 comments:

Anonymous said...

Para provar que nem todos os parasitas são assim tão maus, temos as bactérias comensais, que estão presentes em alta densidade no lúmen do intestino – até 10 12 bactérias por grama de conteúdo luminal. A maioria delas reside fora da camada de muco que cobre o epitélio. Normalmente, existe uma coexistência pacífica entre o hospedeiro e as bactérias comensais. Estas beneficiam do ambiente rico em nutrientes e, ao mesmo tempo, ajudam-nos a digerir compostos como a celulose que, de outra maneira, não poderia ser digerido por nós. Além disso, sintetizam compostos nutricionais importantes para o hospedeiro, como a vitamina K e alguns componentes vitamínicos do complexo B(...).
Quanto à “história” do laranja... O que para alguns pode ser uma excelente cor, para outros pode ser detestável. Ainda que a qualidade da tinta seja a melhor! E é bom que assim seja. Já viste como seria se gostássemos e andássemos todos da mesma cor? Que tédio!
No caso do semáforo, e sabendo que o laranja é a cor da transição, se realmente for um bom laranja vai concerteza passar a verde. Certo?
Mas de que adianta o sinal verde se não te deixam andar? Se encontrares um obstáculo que aparentemente insiste em não se mover e, por isso, ainda que vejas o verde, tens que “apanhar” com o encarnado?
Aí passas de um estado transitório para um permanente, pois já passaste todas as fases, todas as cores e nenhuma delas te traz novidade, evolução. Uma e outra vez! Então, continua tudo como se fosse sempre laranja, mas com mais cores à mistura. Ou seja, permanentemente à espera da transição!
Ufa! Não. Não dá! É demasiado complicado.
Verde, fixo e sem obstáculos. Senão, é melhor recuar e transitar por outro caminho... Mais livre!

Anonymous said...

Para provar que nem todos os parasitas são assim tão maus, temos as bactérias comensais, que estão presentes em alta densidade no lúmen do intestino – até 10 12 bactérias por grama de conteúdo luminal. A maioria delas reside fora da camada de muco que cobre o epitélio. Normalmente, existe uma coexistência pacífica entre o hospedeiro e as bactérias comensais. Estas beneficiam do ambiente rico em nutrientes e, ao mesmo tempo, ajudam-nos a digerir compostos como a celulose que, de outra maneira, não poderia ser digerido por nós. Além disso, sintetizam compostos nutricionais importantes para o hospedeiro, como a vitamina K e alguns componentes vitamínicos do complexo B(...).
Quanto à “história” do laranja... O que para alguns pode ser uma excelente cor, para outros pode ser detestável. Ainda que a qualidade da tinta seja a melhor! E é bom que assim seja. Já viste como seria se gostássemos e andássemos todos da mesma cor? Que tédio!
No caso do semáforo, e sabendo que o laranja é a cor da transição, se realmente for um bom laranja vai concerteza passar a verde. Certo?
Mas de que adianta o sinal verde se não te deixam andar? Se encontrares um obstáculo que aparentemente insiste em não se mover e, por isso, ainda que vejas o verde, tens que “apanhar” com o encarnado?
Aí passas de um estado transitório para um permanente, pois já passaste todas as fases, todas as cores e nenhuma delas te traz novidade, evolução. Uma e outra vez! Então, continua tudo como se fosse sempre laranja, mas com mais cores à mistura. Ou seja, permanentemente à espera da transição!
Ufa! Não. Não dá! É demasiado complicado.
Verde, fixo e sem obstáculos. Senão, é melhor recuar e transitar por outro caminho... Mais livre!

Parcídio Matos said...

That's not the point. Sabendo que é laranja, não se sabe no que se vai tornar. Apenas que vai mudar. E ter essa consciência, ajuda a ponderá-la.