Friday, November 09, 2007

As sombras exterminadas



O cabelo pingando sobre a cara. O cabelo morno. O céu escarlate no amanhecer ténue. As vezes o dia nasce assim, sem filtros ou luvas. Um rendilhado de luz jorrando sobre as sombras estéreis. As vezes, a luz é apenas isso: o que faz sombra. As vezes serve apenas para esconder parte, e mostrar apenas o que se quer ver; como quando apenas se quer apreciar o cabelo pingando sobre a cara. Ela dormia e não reparava em nada.

Acordei com o concerto de Aranjuez a transitar insolente na cabeça. Talvez por evocar um despertar. Um despertar tranquilo e ostensivo. Há despertares que são luminosos e outros sombrios e ambos conseguem ser tranquilos como apenas as coisas simples conseguem ser. Coisas evidentes e sem jogos de sombras.

Tinha-a visitado no dia anterior. Acho que não me reconheceu. Sempre que vou ao lar vê-la lembro-me do Estrangeiro. E penso em não voltar. E penso como será vela-la com estranhos à minha volta exultando a sua ténue sobrevivência. As mãos dela pousadas sobre o regaço, e os olhos fixos na morte. Foi assim que a vi. Com metástases no coração e manchas nas mãos. As mãos dela. Nunca tinha segurado as mãos a ninguém; para segurar as mãos é preciso que as mãos não se mexam; as mãos imóveis coalhando cada minuto. Quando me levantei, ela reagiu. Olho-me, segurou-me a mão. Tenho a certeza que não terei ninguém a segurar-me as mãos quando chegar a minha vez. Talvez o meu irmão. Talvez ela. Não; acho que teria demasiada vergonha.

Ela mexeu-se; o cabelo respingado de luz; e eu sentado à janela. Tinha um acordar insolente e maldisposto. Mas eu tinha o Aranjuez na minha cabeça e tinha visitado a minha mãe no dia anterior. Estava incapaz de lidar com o momento. Parecia que toda a acção iria contaminar irremediavelmente a eternidade. Tal como a eternidade nos contamina todos os dias mais um bocadinho.

Já fizeste café ou ficaste aí entretido a olhar para mim?

Não estive a olhar para ti.

Então?

Estive a imaginar-te mais velha. Uma tu velhinha.

Fico bem?

Nem por isso… Ainda assim, o café está ao teu lado.



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