Thursday, October 18, 2007

Céu na boca


Por vezes sucede deparar-me com um largo desprendimento da vontade – um estado muito particular de aceitação da realidade na sua forma mais explícita. A realidade escancarada de olheiras encardidas de suor e de saliva seca no céu da boca. Acho particularmente importante que todos os homens tenham engolido a sua porção de céu que suporta a indigestão mental da vontade. A vontade sobre o céu.

Por vezes o céu esconde-se sob uma pleura pulmonar de cinzentos. Olho para cima, e vejo os meus membros intactos a esvoaçarem – sem um desígnio, sem uma vontade. Apenas um céu enfiado na boca.

A vontade é um equilíbrio particularmente instável – como aliás todos os estados de transição. A vontade é um metal magnético próximo do ponto de Curie – prestes a perder todas a suas propriedades, prestes a desfazer-se em pó lavrado de cabelos pretos. Mas até lá, ela existe, magnetizando os movimentos, contorcendo os olhares, remexendo a carne. E depois cede. Desaparece. Transforma-se num pedaço de chumbo sem vida.

Há coisas tão pequenas que podem mudar tudo isso. E em tudo as coisas pequenas sublimam aquela perfeição atroz de poderem crescer infinitas. Basta um milésimo de um cheiro aflito, um pouco, apenas um pouco de nada, para toda a eternidade romper silenciosa sobre as mãos.


Um pouco de nada, às vezes, é mais do que suficiente, para invalidar toda a poesia todo mundo. Ela acontece-nos, visceral, diante de nós, e as palavras cessam, e os músculos calam-se.

A certeza impera, a vontade deflagra e o céu arde, dentro da boca encardida de magnetismo indestrutível.





No comments: