As últimas eleições autárquicas foram marcadas pelo conflito entre as impolutas direcções partidárias e as ímpias hordas de líderes regionais renegados. Dessa forma, o Major Valentão, Isaltino UBS, a Luso-Brasileira Fátima, e Dr. Diácono Avelino Torres ergueram a espada e a voz contra o boicote do aparelho. E ganharam. Quase todos.
Em Lisboa, pelo contrário, os dois maiores partidos juntaram-se num grande bloco central contra Santana Lopes. O PSD não o apoiando para uma recandidatura e o PS comprometendo-se a escolher um candidato desconhecido, vindo das bases, com pouco mais da quarta classe. O senhor escolhido foi o Zé Maria – eminente especialista galináceo, vencedor da 1ª edição do Grande Irmão, actual naturalista urbano. No entanto, logo emergiu a hipótese de uma grande coligação de esquerda emergir sob o julgo dessa notável figura pública. Sá Fernandes e Ruben de Carvalho acreditaram que Zé Maria poderia encarnar o protótipo do bom selvagem na política portuguesa. E então o PS deixou-se de brincadeiras, e num momento de clareza wagneriana escolheu o Dr. Carrilho para candidato. Perdeu a coligação de esquerda, perdeu Rousseau, ganharam os humoristas deste cândido país. E o Professor Carmona foi eleito.
O impoluto Professor Carmona – possuidor de uma carreira política digna do posto de papagaio executivo no ombro do seu pirata – lá acedeu à vaga de fundo que o pretendia eleger. Mas a eleição tinha um preço: cuspir na mão que antes o alimentara – neste caso, abocanhar o ombro que antes o albergara. No entanto o desafio era irrecusável; ser candidato único ao maior município do país, com o único galináceo ao seu nível desterrado em Barrancos. O professor avançou; o PS colocou o Dr. Fontão (anterior braço direito de Jô Soares) como número dois da lista do PSD; a Mizé assentiu e o mundo pulou e rebolou de alegria. E o Senhor M. Mendes tornou-se para sempre o guardião da moralidade política.
Entretanto, chegaram a Lisboa da província uns senhores com dinheiro para esbanjar. Fez-se o negócio do Parque Mayer; o Dr. Mexia – outro excelente exemplar dessa espécie avícola que fala – vendeu um prédio na Infante Santo enquanto depósito industrial. E logo a autarquia o tornou em zona residencial. Entre licenciamentos na linha do TGV, tentativas de corrupção dos senhores de Braga, buscas nos domicílios dos vereadores, trapalhadas na EPUL, e a demissão da vereadora que formava a maioria, a oposição camarária fez o que se esperava dela: demitiu-se.
É verdade, o Dr. Carrilho não se lembrou de nada melhor para fazer se não, diante de tal sucessão de escândalos, ir para casa fazer uma reciclagem no seu Schopenhauer. Ficaram a perder os humoristas deste país, ficou a perder Schopenhauer no seu túmulo, e ganhou a restante humanidade.
O que restou portanto? Resta a maior autarquia do país sob suspeitas de corrupção e gestão danosa, com vereadores acusados pela PJ e com mandatos suspensos, outros aí na calha, uma autarquia sem maioria, e sem oposição – aliás, os dez mil votos do Dr. Sá Fernandes se fossem acções seriam uma Golden Share. E resta o impoluto Professor Carmona arranjando as penas lustrosas com um bico assaz gasto. Ah, e o guardião da moral pública, o Sr. M. Mendes, a escrever éditos sobre como dizer que sim e que não em simultâneo sobre assuntos em que o seu partido não tenha posição oficial. Ou sequer posição para decidir seja o que for.
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