Janeiro nas suas pinceladas agridoces. Janeiro transparente esvaziando-se, esgazeando-se. Há poucas folhas sobreviventes no holocausto sazonal dos plátanos e ulmeiros. Os jacarandás prosseguem a sua introspecção tranquila – os galhos despenteados assemelham-se a eléctrodos desactivados e as copas estalam segredos assinados com canivete.
Em Janeiro, as luzes e os enfeites de Natal são guardados. As montras das lojas são desmascaradas. O rebuliço luminoso extingue-se. Permanecem os placards luminosos na sua sonolência invernil. Nunca reparo neles no Verão.
As luzes dos carros, os olhares cerrados. Os sobretudos escuros. O erotismo de um cachecol encobrindo o pescoço suado.
Às vezes tenho um pouco de medo. Não sei bem que pele é descascada no cerzir da escrita. Quanto a mim, a escrita cessou. Resta o Abismo. Assim dizia o HH no PHOTOMATON.
Entendo essa liturgia em que a escrita não é acto moral, adesivo individual da palavra solta. Torna-se um raspanço. A palavra é agoniante. Mas a escrita quando cessa é como o osso lavrado por medo, as cartilagens podadas pela caneta sublime. Nesse acto desfaz-se toda a moralidade porque é de dentro das trevas que emerge o léxico.
Por vezes sento-me solenemente para compor e escrevinho adendas a um corpo inexistente que vai tomando forma no mistério do cadafalso. Depois apago tudo e tento não pensar mais nisso.
Ouvir Nyman tem ajudado estupendamente a esse processo. Os concertos para piano são um Debussy écartés de la malaise de 14. Existem neles uma esperança barroca ausente do Claude-Achille. Ouvir a cathédral engloutie repetitivamente é provavelmente a experiência mais agoniante que se possa imaginar. Tal como na escrita, está-se diante de uma música que surge das sarjetas entupidas – vem de dentro e coloca-nos ainda mais dentro.
A existência, em toda a sua imagética irreplicável tende para uma desordem que só se presume ordenada porque se assume um sentido. Começa-se pelo fim, e atribui-se um sentido adequado ao acontecimento passado.
Entre essa ilusão comiseradora e a realização da falta de controlo sobre o destino da nossa próxima unidade temporal, restam alguns, escassos momentos, onde a criação se apropria adequadamente das mãos estéreis, e finalmente o sentido precede o acontecimento.
E aí o osso é descascado.
1 comment:
Não te disse ainda que me atrai essa metamorfose serena e trágica, seja ela do Ser ou da Palavra.
Concentra-te no instante silencioso: "É para ouvires o som de um buraco".
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