Friday, January 05, 2007

As horas


A mesma estrada, percorrida à mesma hora divina; o mesmo sítio escondido no fundo dos vasos sanguíneos. Os locais perdurando como grandes blocos de aço esterilizado, imensas escarpas de sonhos vertidos.

Sim, os sítios e as horas, acotovelando-se na memória.

A mesma expressão inquieta; nada mudou em ti apesar do tempo. Continuas com as mãos apagadas sobre o xaile escuro; aguardas o cochichar dos cigarros mal apagados.

Aguarda e sente. Olha bem e vê a metafísica que não é. As migalhas são levadas e fica o vazio.

Les miètes s’endorment sur le vide. J’ais plus de foi ao poison.

O amanhecer sacode os membros; as mãos são eróticas na asfixia.

Este caminho que já fiz contigo num tempo em que os lábios ainda estremeciam. O caminho pela noite fria, a noite com o bolor das nuvens desprendendo-se; um dia deixei-te entrar e fiquei à tua porta até amanhecer.

Fiquei encostada à porta, com o silêncio derramando-se pelas frinchas. O frio lembra-me desse silêncio.

Acontece-me pensar no amor escrito em letras minúsculas, o amor deixado ao acaso num banco de jardim; ele ali está, como matéria casual de vozes roucas. E então sinto a rouquidão perfurando a atmosfera como um relâmpago.

A lama das palavras salpicando os corpos; sim, os sítios e as horas, esperneando uma coreografia imaterial.

Esse caminho, qualquer outro, o vazio, o vazio e as suas migalhas, é tudo um nada sufocante congregando os hálitos mornos das crianças a dormir. E assim sinto-me a boiar sobre o real.

Nunca consegui boiar no mar mas nadava debaixo de água com os olhos abertos.

As horas; o aconchego circular do ponteiro erecto. Os dias ficavam meigos quando sentia a tua clavícula entre os meus dedos. E o amor era um lastro, mesmo escrito devagar.

Diz-me devagar as coisas que anoitecem, ou diz-me silêncio desmembrado em copos cheios de gelo, ou não me digas nada. Dá-me um nada em letras minúsculas.

As horas; como se boiasse nos seus ponteiros adimensionais e sentisse a fundura da repetição. O mesmo caminho, repetindo-se, sem por isso ser diferente ou melhor.

1 comment:

Anonymous said...

Palavras de tijolo; Porque constroem a absurdidade do mundo que outros usam sem querer. Reconheço-lhe a cintura e as mãos nos bolsos, numa postura tranquila de quem espera o nada; as horas pertencem-lhe.
Peço-lhe um silêncio em letras minúsculas; e que o escreva de olhos abertos.