
Eu e a minha Staedler navegando pelas fiadas das horas, horas seguidas enxugadas com os Brandenburgueses, horas parasitárias desfilando entre os coágulos dos dedos. Era apenas eu e ela, ambos omissos de carne envolta, os dois mastigando cartilagens abrasivas, desenhando mitos ao pé cochinho, apoderando-se da transeunte insanidade adjacente; porque ela existe, está lá. Está lá à espera de ser tomada, ansiosa que lhe arranquem as cuequinhas de cetim escarlate e que lhe perfurem o gargalo cristalino; e eu aguardo-a.
Estou numa esplanada em Veneza comendo um bolo de laranja molhado e sorvendo um chianti fresco; encontro-me desperto, e sinto o céu mais azul, mais azul do que as veias encardidas de azul.
Ela está lá, expectante. Eu vejo-a, como uma dobradiça rangendo, vejo-a de madrugada com a voz doce, as coxas quentes, as mamas siliciosas; e sinto-a como aquele click ainda perceptível antes apertar o gatilho.
O click? O T menos 1, o momento que quantifica o limite até ao qual, qualquer decisão é reversível. O exacto instante do início da última unidade temporal. O click: o estado mental que percepciona o movimento estancado, a estaticidade de cada elemento quedo movendo-se por incrementos, no preciso instante antes de acontecer. O click; o momento anterior. O momento que antecede a irreversibilidade.
O click não é apenas o último momento antes do próximo – é sobretudo o instante mais prolongado de todos. Como a distância milimétrica entre duas bocas prestes a beijarem-se, ou a distância entre a luz das palavras transmitidas e as pupilas iniciando uma dilatação de aceitação.
As palavras: a sentença proclamada e mesmo assim não aceite; palavras ensaiadas vezes sem conta, os gestos descoordenados com elas, a espera, ansiosa espera, que a luminosidade do olhar accione o seu entendimento e o click se materialize. O click: o acto que mistifica o futuro.
Estou numa esplanada em Veneza e tenho um rendez-vous com ela; e ela adorava bolo de laranja molhada. Eu prefiro Brandenburgueses insaciáveis com vinho encorpado que aglutine a percepção; e no click entre estados perceptivos diversos, passar-lhe a mão pelo cabelo esfarrapado, o loiro encardido de esperma lúcido, a gengivite amealhando amilóides beta.
Eu e a minha Staedler concluímos que o click pode não ter reacção inversa porque a passagem do ébrio para o sóbrio não tem click enquanto que a inversa tem; o recíproco pode não existir, o que invalida o princípio de Le Chatelier nos domínios do click e torna impossível provar a sua existência por absurdo.
Por absurdo, não se pode comprovar a existência sísmica do click pelo sua merecida não existência. O que prova que o click prevalece nos instantes imediatos antes de desaparecer.
Em Veneza os bolos de laranja são molhados, o chianti muito fresco, e o ar repleto de docilidade pestilenta; a insanidade transvaza-se por entre as marés poeirentas e eu aguardo o sangue das minhas mãos espremidas.
1 comment:
dizem que a escrita so concretiza o seu efeito util depois de lida.
O sr_* tem coragem.
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