Friday, January 25, 2008

A conquista do chão

Quando era criança não conseguia chegar às janelas. Vivia num andar com as janelas mais perto do tecto do que do chão. Quando era criança vivia mais perto do chão do que do tecto, e passava lá a maior parte do meu tempo.

Quando chovia, punha-me em bicos dos pés sobre o parapeito das janelas e observava-a a cair. Mas não era propriamente isso que queria; o que eu queria era chegar à janela e encostar a minha cara junto ao vidro. Ia buscar uma cadeira e colava a minha testa na face do vidro – antecipando o arrepio de frio que iria ter. Então ficava imóvel, com as pernas esticadas sobre a cadeira e a cara esbugalhada sobre o vidro vertendo gotas pelo exterior; observava-as escorrendo, seguia-lhes a trilho com os dedos minúsculos e esperava que a respiração condensasse.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, passava as tardes de chuva com cara encostada à janela, esperando que a minha respiração condensasse. Depois entretinha-me a desenhar sobre aquela ardósia baça; formas desbotadas, sem cores, sem planos. Desenhos efémeros, que sabia irem-se extinguir em breve. Ainda assim, preferia o vidro a chorar aguarelas às folhas de papel engomadas; preferia os meus dedos à colecção de lápis de cera.

Percorria cada parcela condensada da janela imensa como se estivesse a delimitar um território; tinha a sensação que cada novo pedaço de janela desenhado era um pedaço meu, um ponto elevado de onde podia observar toda a extensão das minhas conquistas no chão.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, sentia que aquele era o meu território, cada esquina, cada aresta, cada lasca de tinta desfeita sobre o rodapé, cada nó da madeira sem verniz no soalho.

Foi então que me habituei a observar a chuva com a cara encostada à janela, a seguir o trilho das lágrimas esgueirando-se pelo olhar, as pessoas caminhando pela rua com o ar desanimado, as arvores ondulando, as folhas suicidando-se serenamente, e a luz da tarde pousando-se sombria sem que eu desse conta, até me chamarem para ir tomar banho.

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