Monday, January 28, 2008

Kind of Blue


Havia um azul calamitoso naquele olhar que eu nunca esperei ponderar. A natureza humana esconde-se em todo o tipo de tons de azul. E este era o azul mais imponderável que conhecera. Era, certamente, o meu tipo de azul.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. Apartamentos esconsos na Escandinávia, estradas nacionais não cartografadas, bancos de jardim na Avenida da Liberdade. Estive em todos esses sítios. Mas nunca me deparei com um azul assim. E não posso lá regressar.

A natureza humana e a sua degenerescência. Continuo um óptimo produtor de serotonina segregada em parques de estacionamento vazios; pródigo manufactor de afectos e coisas que estrangulam violentamente o coração em dias escuros. Ou é então a visão que tinge o horizonte com essa opacidade. Talvez para esconder o azul, e mais particularmente este tom de azul; o meu tipo de azul.

É tudo uma gigante comédia. Uma comédia num palco com uma audiência muda que se ri com ganidos ferozes. Uma comédia humana. Continuamos a lambuzarmo-nos de serotonina, mas a degenerescência é avassaladora no traço, na dureza, e no brilho. A experiência da vida é avassaladora vista deste lado.

É difícil sentir o azul a chegar; ele aproxima-se como uma maré vaga e vai humedecendo a carne com uma doçura intransigente. A doçura do marulhar embriagado dos beijos e do adormecer. Eu sei uma coisa ou outra sobre a intransigência. E sei que é azul em toda a sua superfície acrílica que é no que se torna a carne após um curto período de exposição. O azul é radiação.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. E desta vez não posso mesmo voltar. A existência é o meu exílio, e lá gastarei o que me resta de eternidade, sem remorsos, sem azul, sem ti. Muito provavelmente, sem nada.

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