Thursday, May 11, 2006

Memory is a good thing if you don't have to deal with the past



Quando ele a viu, ele era exactamente aquilo que ele queria que ela visse; provavelmente nem era exactamente aquilo que queria ser. Mas era aquilo em que achava que ela queria que ele se tornasse. E isso é independente da hipotese se voltarem a encontrar.
Sim; mesmo que ele tivesse a certeza que não voltariam a ver-se, ele tentaria atingir aquela imagem hiper-estabilizada, segura e disponível. Por mais inconsciente que o processo ocorra, a verdade é que quando se anseia um reencontro com alguém, esse reencontro é com mais do que uma pessoa. É com essa pessoa e com a pessoa que era-mos. Uma pessoa ainda não ciente do desejo de possuir uma imagem hiper-estabilizada, segura e disponível; e completamente não ciente do desejo permanente que a outra pessoa – que nos faz desejar ser isso – provoca em nós.

Bem que se pode argumentar com o tempo em que o fomos; uma coisa é certa: ser novo e ter certezas nítidas está apenas ao alcance de quem é novo e não tem esperança nenhuma no que o futuro lhe possa reservar – demasiadas certezas demasiado cedo é um acto de intensa desesperança.

É portanto obvio o que acontece – e ao mesmo tempo ridículo, e por isso mesmo ridículo. Existem tempos em que se vivem momentos únicos e irrepetíveis da vida. Não que não se desconfie que são únicos. Eles são sentidos como tal e é isso que, logo no momento, os tornam únicos. O que não se desconfia é que são irrepetíveis. Principalmente para quem os vive na altura.

Como distingui-los então? Como saber que o foram? Não é difícil. Basta reparar numa absurda tendência (uma espécie de patologia hepática) em encenar as mesmas circunstâncias com pessoas diferentes. As mesmas situações, provavelmente até nos mesmos sítios, de uma forma estranhamente semelhante. Uma óbvia encenação de um reencontro, não com o objecto original, mas com uma réplica que antes não o era – nem se pretendia que o fosse – mas que, por não provocar o burst anterior, o mesmo estado de enchantement, mimetiza-se em tal.

No entanto o processo é inevitável, pois só quem não cede à desesperança demasiado cedo é que interrompe a continuidade dessa circunstância idílica por um futuro totalmente incerto – que é aliás a mesma sede de futuro que leva o encontro original a desenvolver-se de forma tão intensa e completa.

1 comment:

o intrujo said...

Temos os dois lusomundo premium. E ontem vi pela segunda vez este filme. É a coisa mais horrívle/maravilhosa que existe. como o seu tema.