Thursday, November 09, 2006

Os pés bem no fundo da areia


Conheci-o por mero acaso. Por interposta pessoa. Aqui há algum tempo. Já na altura as formas débeis saltavam à vista. A magreza do corpo, a lividez dos gestos, a estreiteza das palavras. As olheiras sufocando o olhar radioso enquanto ouvia muito atento. Ele não acenava com a cabeça; cerrava os olhos como se tentasse ver melhor e emanava um pois qualquer. Pois. Era perturbante.
Aquele jeito de ser era como uma boca expectante para engolir silêncio. Uma boca de lábios rochosos. Não gostei dele ao princípio; metia-me medo.


Depois houve um dia que me pegou na mão com quem segura um beijo e disse me com a voz molhada, acho que nunca conheci um acto de beleza tão único como tu. Disse-me assim como se pede um copo de água ou se pede licença. Acto de beleza. Bem, decididamente sabes arrebatar uma rapariga, e ele riu-se com aquele jeito amargurado.

Acho que no fundo já tinha percebido; é suposto uma mulher perceber estas coisas. A forma como ele olhava, ou então como olhava em redor. A forma como olhava, sem nunca parecer procurar; como se entre nós houvesse uma cortina impressionista que deformasse os corpos. Era perturbante.

Durante algum tempo ele apeteceu-me como apetece sentir os pés enterrarem-se na areia molhada e continuar ali, os pés cada vez mais fundos na terra do mar, cada vez mais juntos, o corpo como uma haste de uma flor descarnada. Ficar ali diante de uma imensidão que não se pode tocar mas que se sente. E fiquei; arremessada sobre o meu acto de beleza. Único.

Acho que sabia que não podia ser só a metade. Porque o que sentia era apenas uma metade. Uma metade sôfrega de se destruir aos pedaços. Pensei que aquela estreiteza na voz e magreza no corpo viessem de fora; e estava apaixonada pelo acto que era acolhê-lo. Mas não vinha. Perguntava-lhe, mas não estás feliz, e ele fechava os olhos com força e ria-se. Como se o feliz se esgotasse em te ter. E eu fechava os olhos e deixava as palavras amarrotarem-se no escuro. Ele achava que eu era dele.

Acho que até achava atraente essa ideia da posse e do sofrimento per si. Um sofrimento só de se ser. Em nome do resto do mundo. Em meu nome. Acho que invejava isso. Não sentia a figura marchando pelo mato, mas ouvia o crepitar da caruma; não sentia as sombras adormecidas nos pinhais, mas via as folhas a remexerem-se no escuro.

Depois houve um dia em que deixei de suportar as costelas aguçadas e o olhar poeirento. Ele estava adormecido no meu colo como gostava de fazer e eu só sentia agulhas a riscarem-me o corpo. Tinha os pés frios, e adormecidos debaixo de terra. Tinha de partir porque o oceano estava gelado.

Mais tarde acho que percebi. Acho que ele simplesmente se tinha apaixonado pela própria ideia que tinha de si; e essa gravidade quase que me engoliu aos pedaços. Encontrei-o no outro dia; estava mais gordo. Tinha um ar tranquilo. Lembrei-me do que dizia a minha mãe, tens de o agarrar pela barriga, os homens agarram-se pela barriga.

Jantar na mesa e roupa lavada. Não há metafísica que o valha. Talvez tenha razão.

1 comment:

Anonymous said...

fascinante e cada vez melhor, a a tua arte cada vez de apura mias aos meus olhos.

Tenho poucos autores que honro com a minha atenção. Obrigada pro fazeres parte.

beijo público