Tuesday, July 19, 2011

memória-acto

Lisboa com a fundura do seu cinzento estaladiço que me recheia a imaginação de memórias perdidas de tempos arrancados, tempos inefáveis presentes em sombras e olhares e gestos e sabores. Um espaço inteiramente dedicado à chuva deslizando pelas janelas e torneando os parapeitos; ao cheiro fecundo da calçada húmida; e às faces juvenis desmaiadas, cheias de imperfeições e singularidades, vozes em grupo ecoando pelas ruas em perfeitas correrias. Essa é Lisboa em tons de memória inquieta, e eu lá estou, eu meio peão, meio encenador, relembrando-me enquanto vivo os sons e a matéria densa – como se a vida lavrasse o ar com uma urgência imparável – que em cada movimento, e em cada momento, se encontra um pedaço de eternidade com a sua perfeição irrepetível de vida vivida. E logo que vivido, fecunda uma memória-acto, um perdão pelo tempo se ter escoado, e eu não te cerrado as mãos para o acolher, deslizante, subtil, único.

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