Eu vou-te dizer palavras imaginárias, palavras que não existem. Dir-te-ei palavras do outro mundo. Mas apenas isso; apenas palavras.
Em Lisboa tudo me é familiar, até os vómitos na sarjeta. Sou uma pedra basáltica, sou um equilátero.
A posse e a dor – das pessoas e de nós. A verdade escondida atrás de uma sombra como um desmancho, uma verdade que se sabe, mas que não se diz. Em Lisboa nunca te disse nada a não ser a verdade escondida entre agrafes e talheres.
Vou-te dizer a verdade e explicar como é a saciedade concebível sem a posse; não te vou dizer nada e vou sorrir até morrer.
Aguardar, e não esquecer a tranquilidade das pedras; a febre e o dicionário. Se quiseres, explico-te como as pedras conversam ao som das poeiras eternas. A posse e a dor, como se fosse uma intransigência erótica das mãos podres. Esquecer e aprender, sobreviver à paralisia convexa dos suspiros.
Naquele dia ia atropelando um pombo. Estava plantado no meio da estrada como um adesivo. Peguei nele e trouxe-o para casa. Dei-lhe água e umas migalhas de pão. Examinei-o com cuidado, mas não parecia ter nada partido. Tinha um ar cansado e desiludido. Passado uma hora as formigas já o devoravam. E eu chorei como um pombo desiludido e cansado que sente o corpo mastigado por formigas cínicas. As formigas começam pelos olhos. Eu começo pelo fim.
As teclas das quais me despeço; morrer um pouco ao pé do concerto para Piano Nº. 21 de Mozart. A especturação granítica das vozes e dos silêncios. Fui-me embora porque tinha de escrever e porque tinha de morrer.
Eu morri muito cedo e não chorei.
Setembro, 2005
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