
Uma rêverie constante e repleta de matéria dócil; a calda da compota de pêssego que escorre pelo temporizador das granadas de silêncio. Em silêncio escuta as migalhas que transbordam. Não digas nada – escuta o mover intromissivo das mãos salpicando os corpos.
Os nossos corpos que são algas sorvendo sal pela escarpa dos lábios mal secos. Porque não são matéria de lábios nem de rochas fedendo a mar, mas sílabas entre nós – aquele sorrir que nada dizendo preenche o vazio que se inala ao acordar.
Acordar contigo com a voz desfeita, não interceptar os membros entre a penumbra – resta aquele hálito seco da noite desfeita, aquela oxigenação do azul. Nós; será que fomos nós? Um pinhão com geleia no interior ou uma geleia cobrindo uma casca que nada encerra. Matéria fundamental de nós.
Eu não sou mais do que isto; sou apenas o resto do dividendo meio atordoado e poucas perguntas me restam. Por mim teria vivido noutro tempo e teria gasto esse tempo contigo. Entre o amanhecer sussurrado ao ouvido e as pálpebras espezinhando o escuro.
Noutro tempo teria a voz mais séria e as aftas polidas; ouviria Debussy de forma tão desalmada como hoje e mas sem o mesmo temor. Ao ouvir o Clair de Lune, sinto de imediato o uniforme amarrotado e o cheiro da chuva que me estala. Procurava o verbo de estalada, que não é de todo estalar. Mas muitas vezes até o logos me falta. No Debussy nunca senti a falta de verbos.
Por vezes sinto-me só. E apesar dessa solidão ser comigo, o comigo é insuficiente. Precipita-se entre o absinto e línguas com larvas; para mim nada resta a ser não oportunidade de te sentir sobre a areia. O marulhar desconcertado como abelhas ébrias e o fremir da presença como matéria sôfrega e fundamental. Matéria de mãos presas como aranhas esventradas e olhares cerrados como um neutrão.
Ser perecível e supremamente biodegradável; ser matéria de consumo de tempo. E possuir levemente essa consciência. Eu e tu, minha consciência do que ainda não é mas espreita. Eu e tu.
Pergunto-me muitas vezes qual a unidade fundamental de matéria e quando digo pergunto-me, não me refiro a uma busca ininteligível pelo quanta acidental que decorra do embate de quarks embriagados. Refiro-me antes a uma unidade indivisível que decorra da prolongada observação do tempo espreguiçando-se. Uma unidade fundamental de consciência.
Uma coisa divina que aglutine matéria de sonhos e de memórias. Matéria de amor inquebrável. Uma matéria que se assemelhe ao pensamento mais binário e mesmo assim mais intraduzível. Matéria de música que o seja em apenas uma nota; um poema inteiro numa só letra num só som, e que esse som seja também música e um só sentimento.
Quando penso em unidade fundamental de matéria não posso pensar em objectos contidos num espaço tangível – ainda que microscópico. Um espaço tão tangível e microscópico quanto o meu corpo putrescível e oxigenado; e no entanto ausente porque transitório, soberbamente efémero e finito. Uma bolha carbonatada nesta coisa expansível como uma grávida eterna.
Sei que nada em mim é unitário e fundamental. Sei que não sou um aglomerado de migalhas que juntas efectivam matéria porque a matéria perdura e nada em mim perdurará a mais de pó sub-atómico – e como bem se sabe pelo contacto casual que nós humanos possuímos com formigas e com tempo, migalhas não é pó, nem pó são migalhas. As migalhas decorrem do que resta do que houve e o pó deriva do que já não é mais.
Gostava de pensar que a unidade fundamental se encontra algures entre uma cerveja num final de tarde ameno com jazz arremessado de uma bateria vaga e um trompete impetuoso; ou entre o coaxar da chuva e as fagulhas da madeira aloirando-se e os corpos aglomerando-se em poças de amor com um Debussy esmigalhado bem lá atrás. Ou então apenas um beijo entre lágrimas; ou mesmo apenas Bach. O que seja, mas que seja de forma imprudente e descuidada; que o seja de forma apressadamente orgânica e musical; que o seja por sentidos o aperceberem e não por serem partículas inacessíveis ao tempo e à insanidade.
Que seja barro humano feito com saliva e melancolia altiva. Que contenha gordura e orgulho. Que contenha vergonha e vesículas inúteis. Que contenha toda a imperfeição e beleza que de uma jugular rota possa brotar.
A mim pouco me resta para além do Clair de lune. Aquela magia pontual de piano compreensivo. Alguma poesia e algum contentamento por actos repetidos e não pensado. Mas não me chega. Acho que claramente, não me chego a mim. Muito menos a toda esta putrefacta consciência que me cega como uma luz demasiado forte.
Fevereiro, 2006
1 comment:
Adorei o que escreveu C.!...deixa-me tensa, no entanto.
Já tenho saudades daquelas tardes de inauguração.
beijo de peixe
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