Sunday, April 23, 2006

Taxi




Mesmo que de forma extremamente incompleta podíamos ser felizes... Ela riu-se; um pouco sem querer, mas riu-se e disse-me: de forma incompleta. E deixou um tom de interrogação no ar. Sim, de forma completamente incompleta, mas felizes, a espaços. Aí ela riu-se à séria. E disse: nem de forma completa ou incompleta, isso é impossível. Mas eu gostava do impossível com ela e disse-lhe: podiamos ser impossíveis os dois juntos. Aí ela não se riu; antes mascou o lábio e engoliu um pouco do cigarro que fumava e disse: estás a falar a sério? Mas aquilo não era bem uma interrogação; antes um desafio – tipo, não eras capaz? E eu percebi isso; ao de leve. E disse-lhe: Sem querer dizer o que sinto, quero não dizê-lo contigo. Aí ela riu-se mesmo. Disse o meu nome, o que nunca fazia e disse: Tens dinheiro para o táxi? Peguei-lhe na mão.
E peguei nela toda. Ela passou a mão pela minha boca e disse: O problema é que vamos estar para sempre num táxi, sem nenhum sítio possível para estarmos juntos. E eu pensei, juntos somos duas pessoas diferentes, que só se gostam ao longe. Juntos seríamos iguais a todos os faisões transeuntes na rua de mão dada.
E então disse-lhe: prefiro um táxi para sempre do que uma paragem deslavada. Ela riu-se e fomos embora.
O cheiro da areia molhada completava o silêncio.

2 comments:

Anonymous said...

Se os teus textos não fossem assinados, percebia à mesma que eram teus...As tuas palavras emanam todo o teu ser.
Continuo a adorar ler-te!

Anonymous said...

que grande bzana