Porquê? E repetiu em tom mas leve. Repetiu talvez três ou quatro vezes, mas da última creio que já não procurava resposta. Era um porquê recostado à resignação que nada queria dizer, nem nenhum objecto tinha se não o de preencher o vazio que se aglomerava como o cotão.
Há palavras, frases inteiras que não se podem simplesmente dizer; as palavras devem arrastar-se pela língua, devem fluir sossegadamente até serem emitidas. Há palavras que não podem ser apenas despejadas. Precisam de ser pousadas. E depois devem também ser ditas com o olhar. E esse olhar deve ser doce como as palavras, deve ser suave; deve ser parte da palavra. No fim disso tudo, resta o mosto da voz. A minha voz pouco se eleva – quando o faço parece desadequado. Mas, apesar disso, é morna e permite dizer coisas com algum sossego. Alguma certeza.
Palavras, frases inteiras que devem ser ditas com cuidado, e apenas no momento certo.
Porquê? Foi o que ela me perguntou. E porquê, não é algo que se diga daquela maneira. Porque o porquê é imaterial, e deve ser dito como uma interrogação e não em voz baixa. Mas o porquê reverberou de forma diferente na minha cabeça. E pensei de facto: porquê.
Frases inteiras que devem ser colhidas com cuidado e em silêncio. E não devem ser muito repetidas. Aliás, não devem ser repetidas de todo. São frases que se dizem, uma, no máximo duas vezes na vida. E em intervalos prolongados de tempo. Muito prolongados.
O porquê era uma concha estendida ao contrário na praia. Escondia alguma coisa ou não escondia nada. Mas era um sólido curvo com estrias presas na minha garganta. O porquê calha bem em vozes rochosas.
Depois há frases que nem ditas podem ser; por elas deve passar apenas um murmúrio, um roçar de som que pouco se eleve. O porquê não pode ser dito desta forma. Mas o não sei já pode. Há uma forma de dizer não sei que se expira ao ser dito, e que, apesar de significar não saber, explica quase tudo de quem o diz. Não é a lamentação lodosa que busca a solução; esta forma de não sei que se diz em murmúrios transparentes não recrimina; diz antes: não sei porquê, mas isso não é importante.
Posto que a cinza dos gestos lavrados já fora levada de nós, e que o restolho que carpia pelo vento era um silvo já esventrado de destino, o não sei diria até demais para quem, de facto, nada mais queria dizer se não um mero, não sei.
Por isso disse apenas, porque sim.
2 comments:
Precisei de usar estas tuas palavras. Espero que não te ofendas. Obrigada.
Tanaka
Os bons escritores usam as ideias de outros; os grandes escritores roubam sem perguntar.
I get it!
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