Acordou meio obstruído na respiração, e por isso respirou fundo. Virou-se de um lado para o outro, aconchegou-se mais um pouco, virou a almofada e fechou os olhos com força. Fechar os olhos e imaginar que tudo está bem, foi o que fez. Imaginou a mesa posta para o pequeno-almoço, e logo sentiu o cheiro das torradas quentes e do café acabado de fazer. Imaginou o carro reluzente parado à entrada com o motorista de camisa ao xadrez e boina bem funda na cabeça; imaginou-o com um pequeno fio de bigode à anos trinta e olhar compenetrado. Em seu redor, imaginou um relvado bem arranjado e acabado de regar, emanando o odor da relva fresca. Um relvado amplo, delimitado por canteiros com jasmins e camélias e por pinheiros bravos enroscados por trepadeiras de verde musgo. Viu a casa de fora: Viu-a grande, branca e antiga como num conto da Sophia. Acrescentou uma cerejeira em flor, caruma estaladiça enroscando-se como cotão na brisa morna, e o zumbir ciclotrónico dos grilos; acrescentou apenas o refluir rochoso de um riacho anónimo galgando o seu curso. Imaginou tudo isso e virou de novo a almofada, esticou-se e fixou-se na janela entreaberta respingada pela cacimba exterior. Assim ficou entretido a contar o tempo que uma gota de chuva sobrevivia na superfície de vidro: doze segundos parecia ser a esperança máxima de vida de um elemento meio vítreo, meio líquido. Começou a sentir a presença de vida dentro dele, o coaxar dormente dos pulmões, o baloiçar intranquilo do coração. Virou-se para o outro lado; não gostava de sentir o bater do seu próprio coração. Não conseguia contudo abandonar o cenário sinestésico que criara, uma espécie de Combray sem Proust, um país das maravilhas sem Alice mas, de imediato, imaginou Proust, Alice, e Sophia a tomarem chá nessa sua casa de campo imaginária e a discutir trivialidades com a rainha de copas a servir biscoitos de limão. Foi dessa forma que dele emergiu um primeiro sorriso, um esquisso de sorrir, um breve alongar dos músculos faciais que de imediato o deixou exausto. Era ainda cedo, perto das sete, mas já se começavam a ouvir passos ténues fora do quarto. Alguém entrou e ele cumprimentou: ah, enfermeira Luísa, hoje veio de branco! Fica-lhe muito bem… A enfermeira sorriu, de forma algo forçada, e, sem nada dizer, começou a passear-se de um lado para o outro no quarto, preparando o banho. Consegue pôr-se direito? – Disse num tom gélido. A sua Combray, que ainda perdurava no seu espírito, desapareceu de imediato, assim como as migalhas do sorrir que obtivera antes; com os braços elevou o corpo para cima; ficou assim sentado, na sua imobilidade permanente, e fechou de novo os olhos. Mas desta vez, apenas sentia o cheiro a desinfectante. Assim começara mais um dia.
1 comment:
Este para mim está um verdadeiro espectaculo! Tens jeito para escrever um livro.. dá-me vontade de ler mais e mais. Gosto da maneira como escreves, transmite ao leitor aquilo que realmente pretendes mostrar (cenários, personagens, etc), transporta-nos para outra realidade, fazemos uma viagem quando lemos algo deste genero. O teu blog varia muito, nunca se sabe o que vais apresentar, é interessante e surpreende. Acho que um livro tambem esta para breve, não? Beijinhos :)
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