Saturday, February 25, 2006

Six concerts avec plusieurs mouvements


Como Calvino faz em “ E se numa noite de Inverno…” uma série de inícios de livros que em conjunto formam um livro que aspiram ao sublime, ofereço “ E se numa tarde de Abril o Sr. Dehn….”

Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur Christian Ludwig von Brandenburg. Foi este o título que o Senhor Siegfried Dehn, curador da colecção de música da biblioteca real de Berlim, leu num tom autoritário ao seu assistente que fazia o inventário. O Sr. Dehn, repetiu o título agora num sussurro quase imperceptível e ficou depois em silêncio; tentava entender como o sujeito se acordava ao verbo dedicar: com concerto ou movimento. Seriam por certo os seis concertos o sujeito, mas para o caso a questão pouco importava: ambos eram masculinos o que pressupunha que dediées não possuísse o e extra que o francês exige para o feminino.
Os franceses – bem ao contrário das restantes línguas latinas – não acordam em termos orais os verbos com os seus sujeitos, mas apenas na gramática; i.e. colocam um e para o feminino e um s para o plural, mas lê-se na exacta mesma forma como se não estivessem presentes; dedié (m,s) lê-se como dediée (f,s) que se lê como dediée (f,p) – muito à semelhança dos saxónicos que não possuem sequer estes vestígios latinos na sua língua. Esta gramática borderline dos franceses – incorporando o pragmatismo saxão e a escolástica romana – já seria por si só indigestível e condenada à extinção, não fosse um pequeno pormenor que auxiliou o francês em toda a sua musicalidade: em francês lê-se a vogal inicial de uma palavra com a consoante final da palavra anterior no que é chamado de liaison ou ligação. Six concerts avec plusieurs mouvements dediées a Monseigneur é lido Six concerts s’avec plusieurs mouvements dediées s’a Monseigneur….O que é algo que também está presente subtilmente em português: lê-se seis concertos dedicados s’a – tornando-se o s num z – e não dedicados (pausa) a como os alemães na sua rígida separação de sílabas executam, tornando-a numa língua tão peremptória.
Era esta liaison entre dediées a Monseigneur (ausente na sua língua natal) que o Sr. Dehn ia sussurrando enquanto meditava sobre o estranho e a mais na frase. Foi portanto com um sibilar semelhante a uma abelha no ar que o seu assistente – já impaciente com zunzuns – lhe perguntou com uma pouco frequente autoridade: “ Mas qual o autor desses concertos? Algum francês?”
- Um francês não será por certo meu caro – respondeu-lhe o Sr. Dehn com a voz convicta. – Ou então é um francês que fala tão bem francês como tu… E riu-se paternal para o seu assistente que, ciente da falta de conhecimento que possuía da língua de Voltaire, assentiu envergonhado.
- Não, este e tem de ser definitivamente banido.– Afirmou o Sr. Dehn – quanto ao autor… E então o Sr. Dehn baixou a sua voz até esta se assemelhar apenas a um murmúrio, exclamando quase em silêncio:”Não pode ser!”
Numa letra algo irregular sobre o manuscrito envelhecido o Sr. Dehn leu a seguinte frase: do seu muito humilde e obediente servo, Jean Sebastien Bach.
A razão de tal espanto não advinha apenas de se tratar de Bach o autor da peça, mas por ser o Sr. Dehn um dos mais ilustres conhecedores da obra deste autor genial. E o Sr. Dehn nunca ouvira falar de tais concertos. Virou-se então para o seu fiel assistente e respondeu com a voz emocionada: “ Bach meu caro Klaus, isto é Bach…
Bach já morrera há mais de cem anos quando em 1849 foram encontrados nos arquivos da biblioteca Real de Berlim os seus famosos Seis Concertos dedicados em gramática sinuante ao Marquês de Brandenburg que, de imediato, ficaram conhecidos por Concertos Brandenburgueses. A essa tarde de Abril presto homenagem.

To be Continued

Monday, February 20, 2006

Rêverie



Uma rêverie constante e repleta de matéria dócil; a calda da compota de pêssego que escorre pelo temporizador das granadas de silêncio. Em silêncio escuta as migalhas que transbordam. Não digas nada – escuta o mover intromissivo das mãos salpicando os corpos.

Os nossos corpos que são algas sorvendo sal pela escarpa dos lábios mal secos. Porque não são matéria de lábios nem de rochas fedendo a mar, mas sílabas entre nós – aquele sorrir que nada dizendo preenche o vazio que se inala ao acordar.

Acordar contigo com a voz desfeita, não interceptar os membros entre a penumbra – resta aquele hálito seco da noite desfeita, aquela oxigenação do azul. Nós; será que fomos nós? Um pinhão com geleia no interior ou uma geleia cobrindo uma casca que nada encerra. Matéria fundamental de nós.

Eu não sou mais do que isto; sou apenas o resto do dividendo meio atordoado e poucas perguntas me restam. Por mim teria vivido noutro tempo e teria gasto esse tempo contigo. Entre o amanhecer sussurrado ao ouvido e as pálpebras espezinhando o escuro.

Noutro tempo teria a voz mais séria e as aftas polidas; ouviria Debussy de forma tão desalmada como hoje e mas sem o mesmo temor. Ao ouvir o Clair de Lune, sinto de imediato o uniforme amarrotado e o cheiro da chuva que me estala. Procurava o verbo de estalada, que não é de todo estalar. Mas muitas vezes até o logos me falta. No Debussy nunca senti a falta de verbos.

Por vezes sinto-me só. E apesar dessa solidão ser comigo, o comigo é insuficiente. Precipita-se entre o absinto e línguas com larvas; para mim nada resta a ser não oportunidade de te sentir sobre a areia. O marulhar desconcertado como abelhas ébrias e o fremir da presença como matéria sôfrega e fundamental. Matéria de mãos presas como aranhas esventradas e olhares cerrados como um neutrão.

Ser perecível e supremamente biodegradável; ser matéria de consumo de tempo. E possuir levemente essa consciência. Eu e tu, minha consciência do que ainda não é mas espreita. Eu e tu.

Pergunto-me muitas vezes qual a unidade fundamental de matéria e quando digo pergunto-me, não me refiro a uma busca ininteligível pelo quanta acidental que decorra do embate de quarks embriagados. Refiro-me antes a uma unidade indivisível que decorra da prolongada observação do tempo espreguiçando-se. Uma unidade fundamental de consciência.

Uma coisa divina que aglutine matéria de sonhos e de memórias. Matéria de amor inquebrável. Uma matéria que se assemelhe ao pensamento mais binário e mesmo assim mais intraduzível. Matéria de música que o seja em apenas uma nota; um poema inteiro numa só letra num só som, e que esse som seja também música e um só sentimento.

Quando penso em unidade fundamental de matéria não posso pensar em objectos contidos num espaço tangível – ainda que microscópico. Um espaço tão tangível e microscópico quanto o meu corpo putrescível e oxigenado; e no entanto ausente porque transitório, soberbamente efémero e finito. Uma bolha carbonatada nesta coisa expansível como uma grávida eterna.

Sei que nada em mim é unitário e fundamental. Sei que não sou um aglomerado de migalhas que juntas efectivam matéria porque a matéria perdura e nada em mim perdurará a mais de pó sub-atómico – e como bem se sabe pelo contacto casual que nós humanos possuímos com formigas e com tempo, migalhas não é pó, nem pó são migalhas. As migalhas decorrem do que resta do que houve e o pó deriva do que já não é mais.

Gostava de pensar que a unidade fundamental se encontra algures entre uma cerveja num final de tarde ameno com jazz arremessado de uma bateria vaga e um trompete impetuoso; ou entre o coaxar da chuva e as fagulhas da madeira aloirando-se e os corpos aglomerando-se em poças de amor com um Debussy esmigalhado bem lá atrás. Ou então apenas um beijo entre lágrimas; ou mesmo apenas Bach. O que seja, mas que seja de forma imprudente e descuidada; que o seja de forma apressadamente orgânica e musical; que o seja por sentidos o aperceberem e não por serem partículas inacessíveis ao tempo e à insanidade.

Que seja barro humano feito com saliva e melancolia altiva. Que contenha gordura e orgulho. Que contenha vergonha e vesículas inúteis. Que contenha toda a imperfeição e beleza que de uma jugular rota possa brotar.

A mim pouco me resta para além do Clair de lune. Aquela magia pontual de piano compreensivo. Alguma poesia e algum contentamento por actos repetidos e não pensado. Mas não me chega. Acho que claramente, não me chego a mim. Muito menos a toda esta putrefacta consciência que me cega como uma luz demasiado forte.

Fevereiro, 2006

Tuesday, February 14, 2006

Sem Título

Em redor da sombra encharcada, em teu redor, uma nota solta que desliza. No redor de ti, um cerco descamisado de mãos súbitas, nuvens paraplégicas e arrebentações de mares em Neptuno. Em teu redor, a sombra desaprendendo-se, a trajectória das mãos desenroscando-se, e o ímpeto do cerco deslizando pelos lábios liberais. Permanecer, liberto de sombras sindicalizadas, amor amordaçado numa indústria de murmúrios e sílabas que não duram mais que um beijo.
Mas mesmo não durando a sede mais que um gole de vinho, é a sede que eu quero – não a sua saciedade.

Saturday, December 17, 2005

Veni Creator


Encontrei na surdina das vozes um labirinto indesejável, uma insanidade implantada em ambos os hemisférios, uma fome de fim interminável. Pouco a pouco, senti-me a absorver as vozes que em surdina deflagravam em meu redor; o isolamento era inútil – eu estava contaminado pelo interior, não pelo ar adjacente.

Assim acontece quando se está exposto; e eu percorri o filamento das lâmpadas como um peregrino buscando uma luz mais quente, um repouso mais inteiro. E caminhei longamente pela calçada basáltica – não me dirigia em nenhuma direcção, em nenhum sentido, mas o passo era firme. Gostava de me pensar como um produto escalar apontando para o firmamento, e não um vector afiado como uma lança. Não, os meus dedos estavam gastos pelas carícias intermináveis e as unhas já não me cresciam.

Quando se caminha como peregrino, é natural encontrar outros – a que chamamos irmãos, tal é a ligação estabelecida. Mas nesta caminhada fui encontrando pouca gente.

Nas dunas encontrei um mago que acompanhava o andamento das ondas com as mãos unidas. As mãos ondulavam sobre o ar como se a arrebentação estafasse a terra. Era um maestro Eslavo naufragado numa expedição de muitos navios. Mas era um homem desiludido e não conseguimos comunicar.

Encontrei pouca gente e com poucas partilhei formas verbais idênticas. Com poucas partilhei o meu pão e dividi a minha compota de figos.
Um dia encontrei uma mulher estática na berma. Tinha o cabelo muito claro e fino como uma luz miudinha. Assemelhava-se a uma estátua, ou a uma figura paralisada de Pompeia; tinha as mãos sobre a cabeça e o dorso reclinado. Parecia que se protegia, ou que se escondia. Na realidade ensaiava uma dança ancestral – só que habitava um tempo diferente do meu, impedindo-me de aperceber o seu movimento, impedindo-a de sentir a minha presença. Era um passado que eu lhe podia antecipar, ou impedir. Éramos luzes de frequências diferentes, de galáxias incontactáveis. Éramos de tempos diversos.

De todos os sítios por onde estive, aquele que me acolheu de forma mais genuína foi um local gélido e esconso no Norte. O gelo era azul eléctrico e emanava uma poeira de luz indizível durante a noite. A luz mais bonita que jamais vira. Lá apenas moravam um ancião com a sua neta. A neta era muito doente e nunca a vi abrir a boca. O avô falava numa língua que eu não identificava. Ele passava o dia a tratar dela com intenso carinho. Dava-lhe banho, vestia-a, alimentava-a. Também ficava muitas horas sentado no alpendre assistindo ao fim do azul junto à escarpa de Elsinore – assim chamavam à quebra súbita da montanha até ao planalto. Eu acompanhava-o com pudor, por vezes ensaiava um sorriso. Ele não me respondia. A sua voz era, aliás, um murmúrio rouco que parecia não intercalar as sílabas.

Um dia pelo o final da tarde, ele não apareceu no alpendre. Deixei-me estar ali aninhado, aguardando o romper da lua cheia. A certa altura comecei a ouvir uma voz bem lá no fundo. Uma voz como um cântico de sereias, uma Lorelei embriagada – doce, sereno e diabólico. Deixei-me ir até à fonte da melodia e lá encontrei o avô – a sua figura trémula no luar como uma aguarela. Do seu canto emanavam dois violinos, uma viola, e um violoncelo. O piano chapinhava ao fundo como uma cascata no Éden. A sua voz era limpida como um cristal.

Ele segurava a neta nos braços e tinha o olhar preso na Lua. À sua frente, uma cova que mais se assemelhava a uma armadilha para ursos. Ele não me ligou – acho que nem reparou que tinha chegado – pois falava com o seu Deus, e eu apenas escutava envergonhado.

Finalmente o seu canto cessou. Olho-me muito fixamente – estivera a chorar – e esboçou-me o primeiro sorriso desde que chegara. Eu baixei os olhos e não consegui devolver-lhe nada. Faltava saliva à minha boca porque faltavam palavras na minha cabeça. Ele desceu à cova com cuidado, deitou a menina, e aninhou-se ao seu lado. Eu quis ir-me embora; virei-me, mas ele chamou-me com uma voz doce. Aninhado ao pé da neta, fazia-me gestos que eu não percebia. Parecia que me pedia para descer e ir ter com ele. Até que apontou para a pá ao meu lado. Queria que eu o enterrasse. Fiz-lhe o gesto para verificar se era isso mesmo. Ele acenou que sim. E eu acenei que não. Disse-lhe:

- Não.

Ele respondeu-me com gestos de mel delicado – muito lentos escorrendo pela terra. A lua esmorecia-lhe no olhar; ele fazia festas sobre o cabelo da miúda e depois agarrava-se a ela com força. Finalmente juntou as mãos como se para rezar, mas o que me dizia era: por favor.

Atirei a primeira pá cheia de terra. Ele sorriu de novo e disse-me num alemão enrolado:

- Auschwitz.

A sua voz trancou-se de imediato. Virou-se para o lado e abraçou a neta com os seus braços enormes e fechou os olhos. Enquanto devolvia a terra, o meu olhar estava preso sobre o dela. Os seus olhos não estavam completamente fechados. Eu sentia um azul esgueirando-se. Mas depressa as minhas lágrimas me turvaram a visão e tive de parar. O azul era eléctrico como a montanha acima. Ele abriu o olhar e olho-me do fundo do chão. Repetiu-me:

- Auschwitz.

Quando terminei, permaneci um pouco junto à esteira da morte. Ele terá morrido escutando a minha vida. O meu batimento. Só muito mais tarde estranhei nada ter ouvido vindo do fundo da cova. Só mais tarde percebi que teria sido natural que algum som abafado se tivesse solto. Mas nada ouvi. Ele engolira o silêncio sem piedade. Nunca percebi o que significava para ele Auschwitz.

No regresso pensei muito sobre esse significado. Sentia-o mais do que o entendia. Como se a humanidade possuísse um desígnio pontual elementar – pelos menos um acto exigível em toda a vida, e o do avô era o de não se separar da neta. Pensei que talvez existisse sempre um momento escuro em que se sente a língua esquentada de pistola sobre as têmporas. E se aguarda um click. O click: o último momento antes do próximo, o momento mais longo de todos. E quando Auschwitz Birkenau se estende estupendo na mente só há uma de duas coisas a fazer – e nenhuma delas é esperar; nenhuma delas é o nada – ou realiza-se o acto ou o acto acontecerá por si; entre o click e o pousar do metal sobre a madeira inquieta passam dois instantes de precipitação: o primeiro fica longe de mais porque foi incerto e o segundo demasiado próximo, porque tentou de imediato corrigir o primeiro, Sim; uma precipitação nunca vem sozinha; vem aos pares. É como as sandálias.

Foi nessas sandálias que regressei, sem saber que afinal, já tinha chegado. Tinha pousado a minha peça de metal. Tinha bebido a pólvora num chá de gengibre. Na surdina das vozes encontrara um desígnio acolhedor como uma oração que desliza pelos tendões da voz. E a voz murmurava breves vírgulas sonâmbulas deixadas ao acaso pelo sábio avô:

“As migalhas adormecem sobre a tarde estafada
E molham o destino com a sua falta de sentido;
É como uma sede por se ser por inteiro,
Uma vida de bocadinhos deliciosamente
Aprisionados numa vontade de existir.”

Wednesday, December 14, 2005

Ensaio Protocolar


A realidade tropeçou e escancarou-se no espaço onírico. A memória que não existe senão em coligação com a dimensão onírica; a memória é recriação a partir de uma estrutura simbólica densamente aglomerada. Daí a memória ser sonho, e os sonhos, apesar de criados a partir do real, serem apenas memória. Sim; o sonho não existe. Existem apenas memórias de sonhos. Como aceitar que a memória represente em papel vegetal o que o real se materializou em sonho, se o próprio sonho é apenas escassamente inteligível à memória.

De outra forma: a memória existe sempre, como um registo magnético. No entanto, apenas algumas memórias são lembradas. Apenas algumas memórias se transformam em lembranças; é como o refluir ondulatório do espaço infra-vermelho até ao ultra-violeta. Só uma fracção desse espaço é inteligível. Tal como apenas alguns sonhos são lembrados, e outros são de imediato apagados.
Mas será que existem mesmo? Deles apenas existem lembranças – ou memórias potências – que por vezes causam desconfiança.
E no entanto é certo que a memória não existe de forma acessível em qualquer instante. Antes pelo contrário. Certas experiências encontram-se tão enterradas que apenas o pulsar excitatório de algum sentido (cheiro, sabor...), permite aceder a algo que, de outra forma, permaneceria inacessível.
É pois legítimo inquirir sobre a possibilidade de existirem outros elementos, tal como os sonhos, que apenas existam na forma de memória, ou que existam sem que tenhamos acesso a eles.

Sim, a questão é legítima. Que outros elementos que nos circundam possuem um representação em estado latente que apenas de forma indirecta indicam a verdadeira natureza do seu ser. Um raio ultra-violeta é caracterizado por um comprimento de onda e uma frequência; mas encontra-se no domínio do invisível. Ou seremos nós invisíveis para um grupo de protozoários que habita cores inimagináveis nesse especifico comprimento de onda?
Basta lembrar uma simples interrogação; o que é que surgiu primeiro: os sonhos ou a memória?
Caso os sonhos tenham surgido em primeiro lugar, é simples entender que permaneceram inacessíveis ao entendimento durante algum tempo. É sabido, por outro lado, que a capacidade de lembrança se formou preferencialmente através do reconhecimento de experiências, padrões, estímulos... A memória como uma teia de experiências acumuladas que geram por associação contentamento ou ansiedade. Esse reconhecimento é imediato em relação à aparência maternal, mais demorado no que se refere ao reconhecimento de uma ameaça. Ou seja, apenas recentemente, se adquiriu a capacidade de aceder de forma voluntária à memória em forma de lembrança; um acesso em forma de registo e não um alerta que é exibido no visor da consciência de forma a prevenir um perigo.

É plausível, para não dizer provável, que a habilidade de sonhar tenha surgido antes da capacidade de possuir a memória dos sonhos.
Repito: quantas outras coisas não existirão sob o manto de uma percepção (ainda) inacessível?

Monday, November 21, 2005

Frisson




O céu dentro da sala iluminava a poeira e esta cirandava em mornos movimentos de convexão; o calor do fim da tarde inundava os espaços tranquilamente. Junto à poeira, fragmentos de fumo eram desbaratados da boca dela como papagaios atordoados pelo vento, e o silêncio era calmo, toda uma calma inundando a espera agora consumada.

Aproximei-me da janela, e pouco tempo bastou para sentir as temporas mornas, sentir o calor iluminar-me a pele; o céu entrava devagarinho naquela sala.

“Sempre soube que voltaríamos a estar juntos, sempre o senti.” – Disse-me ela entre papagaios. Sempre o senti: as palavras ecoavam dentro de mim; as palavras latejavam em mim. Apeteceu-me negar-lhe a certeza; mas a espera havia sido realizada. A espera e a dimensão da espera até ser abandonada. Aquele intervalo de tempo que precede o abandono. Quanto tempo é esse tempo? Virei-me, e via-a com a luz amedrontada esbatendo a sua imagem.

– Sempre. Ora aí está uma palavra que não combina muito connosco…

Ela sorriu, abanando a cabeça, ainda que apenas levemente, e meigamente o céu junto ao sorriso desmaterializou-se. Ela baixava quase sempre a cabeça no sorrir. Ficámos presos no olhar um do outro; os sorrisos engulidos, a luz vertida, e o fim da tarde desbotando-se.

Eu sabia, assim como ela, que toda aquela certeza arremessada era uma revisão inapropriada da história. Não, ela nunca possuíra essa certeza e sim, eu sempre tivera essa esperança. Mas sim, ela sempre procurara um sentido nas coisas – mesmo que caucionada por uma mistificação artificial – e sim, eu nunca a condenara demasiado por esse processo de desculpabilização. Aliás, essa noção de destino sempre me fora útil.
Tentava lembrar-me de um fim de tarde idêntico; sabia que possuía alguns. Alguns debruçados sobre sorrisos e segredos. Alguns com ela. Outros apenas eu e o fumo; o som e a fúria; o tempo e o modo.

Lembrei-me de novo do Jorge de Senna. Sentia-o encostado junto a um precipicio, as palavras suicidando-se mansamente. “Como queiras, meu amor, como queiras...” – ia proferindo em voz murmurante. O resto ia progredindo na sua mente, o poema delineando-se e os léxicos aglomerando-se. Lembrei-me também do poema do Swing: “ É tudo uma questão de swing, my darling, uma questão de saber sair a tempo, Oh yes, Oh no.” Sorri um pouco ao murmurar em voz alta, Oh yes, Oh no. Ás vezes sorriu assim, de forma inadvertida, e é-me impossível arranjar a razão imediata. E depois continuei, mentalmente: “Não, Eu nunca tive queda para kamikaze.”

“O que foi?” – Perguntou-me…Mas não aguardava resposta.

Era a minha vez de acender um cigarro. Voltei-me sobre a janela, assistia aos diapositivos fragmentados das folhagens das árvores, a esfera solar adormecendo tranquila.

Ela aproximou-se, apertou-me o peito com as mãos, apertou-me o pescoço com os lábios. “Tenho de ir” – Expeliu. Tens a certeza, pensei em perguntar-lhe. Ás vezes os acontecimentos precipitam-se de forma tão irreal que sentimos a imaginação apenas como um ninho do real. Um ninho com palhas de sonhos e beijos ousados; um mundo elaborado num futuro meticulosamente detalhado. Um mundo que é apenas a fé de o ser.

“Eu sei – Retorqui. Já estás atrasada”. Os passos dela arrastaram-se, incompletos; ainda senti o frisson da saia elevando-se pelas pernas. Ainda senti o desejo de me virar. Permaneci à janela, afogado no fim da tarde, embriagado com esta verdade que geramos e adulteramos; verdades e certezas que se anulam com o erguer de uma sobrancelha, um cabelo muito negro, uma voz muito intima, uma mulher muito próxima e uma verdade muito nossa.

A espera e a dimensão da espera até ser abandonada. Aquele intervalo de tempo corrompido de esperança; essa esperança que mantém a espera como matéria plausível. A amplitude da espera ou a dimensão da esperança. E aquele ponto estrangulado, aquele cerne anguloso em que a espera se transmuta do momento anterior ao próximo – porque é o próximo que se aguarda – para o momento final – porque se adquiriu a certeza que ele se extinguirá em si mesmo. Resta o tempo entre essa percepção e o erguer-se da mesa do café, ou o levantar-se da cama, ou o deitar-se nela, que nada mais é senão o cerne espetando-se no nervo do imaginário; o cerne rasgando a expectativa da esperança – que é agora nada mais do que isso: uma expectativa, porque se extinguiu no acto da espera.

As palavras assim pensadas deram-me em mais um sorriso; apaguei o cigarro e virei-me. “Quando nos vemos de novo?” – inquiri. O céu era asfixiante junto à entrada onde ela se encontrava, de costas viradas para mim, os ombros muito morenos, a mão apertando a maçaneta.
- Quando quisermos…
E saiu.

O céu ia sendo expulso, vagarosamente. Uma memória aguardava a tarde, entretanto finda de espera tornada ausente. Aquele frisson da saia erguendo-se acompanhou-me de bom grado ainda algum tempo como o restolho da chuva de uma televisão que perdura bem depois de a desligar-mos; ou uma musica que se extingue no gira-discos mas não na cabeça; ou – pior de tudo – um cheiro que nos habita bem depois de dele termos sido despejados.

Os cheiros permaneciam junto ao rebordo da dormência; permaneceriam naquele quarto, e aquele quarto com tudo dele numa poça de memória.

Lembrei-me que também estava atrasado. Por pouco esquecia a noite, aproximando-se; mergulhei no banho.

Ainda permaneci um instante inquieto parado à porta. Faltava-me algo. Não liguei muito a isso. Fechei-a e fui-me embora. O tempo estava denso e irrealizável.

A espera iniciara-se. De novo.

Thursday, November 10, 2005

Opus 21


Eu vou-te dizer palavras imaginárias, palavras que não existem. Dir-te-ei palavras do outro mundo. Mas apenas isso; apenas palavras.


Em Lisboa tudo me é familiar, até os vómitos na sarjeta. Sou uma pedra basáltica, sou um equilátero.

A posse e a dor – das pessoas e de nós. A verdade escondida atrás de uma sombra como um desmancho, uma verdade que se sabe, mas que não se diz. Em Lisboa nunca te disse nada a não ser a verdade escondida entre agrafes e talheres.

Vou-te dizer a verdade e explicar como é a saciedade concebível sem a posse; não te vou dizer nada e vou sorrir até morrer.

Aguardar, e não esquecer a tranquilidade das pedras; a febre e o dicionário. Se quiseres, explico-te como as pedras conversam ao som das poeiras eternas. A posse e a dor, como se fosse uma intransigência erótica das mãos podres. Esquecer e aprender, sobreviver à paralisia convexa dos suspiros.

Naquele dia ia atropelando um pombo. Estava plantado no meio da estrada como um adesivo. Peguei nele e trouxe-o para casa. Dei-lhe água e umas migalhas de pão. Examinei-o com cuidado, mas não parecia ter nada partido. Tinha um ar cansado e desiludido. Passado uma hora as formigas já o devoravam. E eu chorei como um pombo desiludido e cansado que sente o corpo mastigado por formigas cínicas. As formigas começam pelos olhos. Eu começo pelo fim.

As teclas das quais me despeço; morrer um pouco ao pé do concerto para Piano Nº. 21 de Mozart. A especturação granítica das vozes e dos silêncios. Fui-me embora porque tinha de escrever e porque tinha de morrer.

Eu morri muito cedo e não chorei.

Setembro, 2005