Thursday, May 09, 2013

Variações de existência em Caeiro complicando-se




Dois mundos justapostos em proporção exacta

O tempo derramando-se

e o existido no mesmo intervalo.

do primeiro, releva o diacronismo imparável, linear,

do segundo, o vivido e o pensado,

cuja semente, se diz, ser antiderramante

por tudo aborver em inevitável memória.

Olhar em frente e na frente é possível ver estas várias coisas

que são três ao todo,

a frente que progride

a vivida que segue

e a que não tem nem frente nem verso

nem muito menos se vê que é o ser-se e saber-se

que se é,

o pensado em silêncio

de olhos bem fechados. 

Algo que até no tempo o deixou de ser

por nem ser memória nem

ser pensada,

esta forma com que somos derramados.





Monday, November 26, 2012

New York I love you, but you’re bringing me down


As mãos inanimadas, caídas em interminável profundidade, tu não sabes como é.

A chuva tilintando pelo corpo, esgueirando-se em rios de lava transparente, aquelas veias enormes escondendo-se sob pele e o olhar fixando-se, luminoso, numa brecha de tempo.
Em que tempo estás, o que vês.

Tu não sabes como é.

A vida inteira desenroscar-se do corpo e o corpo lá continuar.

Como um espantalho. Um espantalho que fala e que anda.

Que te olha como um peluche com os olhos arrancados.

Um pedaço de corpo trémulo, caminhando rumo ao oceano nocturno.
Tu não sabes o que como é. Não podes saber.

A vida inteira largada num suspiro, e as mãos siamesas erguendo-se, tentando alcançar.
As mãos carnívoras arrumadas num lençol de linho, alimentando-se da carne que sobeja na terra.




Friday, August 31, 2012

Einmal ist Keinmal








Uma carnificina de mãos fundentes

E de astros moribundos

Naquela madrugada sem palavras

Na seara cavalgámos

Com os olhos fechados

E de corações apertados

Na certeza de sermos únicos

De sermos vãos e humanamente

Estridentes

De sermos um infinitésimo de nós

E berrarmos uma sede

E cavalgarmos uma vida

E expulsarmos toda a morte

De dentro de nós

Que vibra como mosquitos

Epilépticos.

Morramos assim então

Humanos por dentro

E divinos por todo o lado

Agora que os astros adormeceram e

Nossas mãos se pousaram.

Criacionismo, indivíduos versus médias, e Tea Party

Trend: Which of the following statements comes closest to your views on the origin and development of human beings? 1) Human beings have developed over millions of years from less advanced forms of life, but God guided this process, 2) Human beings have developed over millions of years from less advanced forms of life, but God had no part in this process, 3) God created human beings pretty much in their present form at one time within the last 10,000 years or so


“There remains something about the evolutionary account of our origins that sounds a little like a just-so story. Until a century and a half ago it would have been regarded by the most educated person as just that – a witty tale in slightly poor taste; science fiction perhaps, but not science. This incredulity lingers: although now firmly established in the minds of most Europeans, evolutionary theory remains highly contentious worldwide. Notoriously, this includes in the US.
According to a Gallup poll conducted this year, nearly half of Americans believe we humans were created by God just as we are today, whereas a further third believe in a process of “intelligent design” guided by a divine hand. Only 15 per cent accept that we evolved unaided from some surprisingly upright apes.

This reflects a kind of paradox: although our brains have ballooned over the past million years or so, we still struggle to understand ourselves. Nowhere is this more obvious than in the study of our origins. “
“Planet of the apes” By Stephen Cave


Não acredito que esta situação seja uma questão de ignorância. Não acredito que 46% dos Americanos desconheçam a teoria da evolução. Não acredito sequer que 46% dos Americanos tenham lido o Antigo Testamento (em particular o Livro do Génesis). Tal como não acredito que 32% dos Americanos consigam explicar, com exactidão, em quê que consiste o absurdo “Inteligent Design” – uma tese à Professor Marcelo: não é permitido acreditar na evolução, mas podem praticá-la.

Caso contrário, ter-se-ia de concluir que os Americanos são ignorantes – coisa na qual não acredito. Os Estados Unidos lideram a investigação científica na maioria das áreas do conhecimento humano, possui os melhores especialistas e é responsável pela maior parte das inovações técnicas – resultado, quer da investigação universitária, quer do dinamismo empresarial.

Acredito sim que, apesar de conhecerem os factos científicos, escolham acreditar numa hipótese alternativa – uma hipótese criacionista, uma tese em Deus intervenha e mais do que intervir, valida a sua existência. É claro que é uma inversão da causalidade: se Deus participou na criação do Sapiens é porque existe; como existe é porque criou o Sapiens. Este esquema mental é chamado confirmation bias pelos economistas e matemáticos e dissonância cognitiva pelos psicólogos. O mesmo remédio num frasco diferente.

Seria interessante perceber como é que o Sapiens, com o seu cérebro insuflado, nega a própria racionalidade que o torna Sapiens. E na minha opinião é exactamente isso que se verifica: uma negação de racionalidade.

Ética versus ciência

A ciência possui duas características fundamentais; a primeira é a sua propriedade cumulativa. “If I have seen further, it is by standing on the shoulders of giants", assim falou Newton. Os ombros deste gigante é o conhecimento acumulado por séculos de investigação que permite a um cientista retomar o trabalho de outro no ponto em que este o deixou. ~

O segundo, e sem dúvida mais importante, é o que permite a qualquer cientista aferir se as suas conclusões estão correctas: o método cientifico. É um feito extraordinário:  ultrapassar o limiar do conhecimento e deter um método que permita saber, em qualquer ponto, se estamos no caminho certo ou no caminho errado. Não indica o caminho – apenas o qualifica. Estas duas características permitem que a ciência avance pelo engenho e capacidade de apenas de uma pessoa – ou seja pelo percentil 0,00000000001% da humanidade.
Ora nada poderia estar mais distante da nosssa realidade enquanto Sapiens, enquanto propriedade, do que as variáveis que fazem avançar aquilo que designamos por cultura; e isso porque a nossa cultura não avança pelos esforços do mais ínfimo percentil da humanidade (por mais correcto que esse possa estar); a nossa cultura avança pela média das culturas de cada humano, o que, individualmente, não se designa por cultura  mas sim por ética. Avança pela média. Ora aí está um processo que instintivamente soa a alguma lentidão; e é lento. Muito mais lento que a velocidade que move a ciência.
Existe portanto uma discrepância profunda entre ciência e ética – e é neste plano que devem ser comparados pois é o plano individual: ciência compara com ética e conhecimento compara com cultura. A distância entre ética e ciência tem estado a acentuar-se pois a ciência tem, naturalmente, crescido cada vez mais depressa. O aumento dessa distância é aliás visível. A ciência praticada actualmente é perfeitamente ininteligível para o percentil 99,9% da humanidade: e.g.: bosão de Higgs.

Neste ambiente de distanciamento profundo e de circulação instantânea da informação (verdadeira ou falsa), uma qualquer visão alternativa adquire de imediato grande aderência, mesmo que implique um revisionismo extenso da história. Nada parece confirmar de forma mais premente essa hipótese do que o tea party no Estado Unidos.

Stay tunned as we come back for more on that.



Wednesday, August 29, 2012

Regresso injectivo

Um regresso. Um regresso que primeiro é um tempo gasto num caminho de volta e que depois é o tempo até tudo voltar ao que era antes da partida. Um regresso podia-se dividir em duas partes distintas e às vezes conflituosas: o percurso que se faz e o que se sente quando se chega.
O tempo que se demora a regressar não é apenas o tempo que se demora no percurso. A viagem de regresso pode durar apenas duas horas de avião; mas o regresso pode ser adiado por vários dias, mesmo semanas. Eternidades. O que se sente durante o regresso é um indício sobre o que se seguirá, como é evidente. São raras as vezes em que um regresso é inteiramente desprovido de emoção; sem expectativa ou ansiedade. Um regresso vazio, neutral é como uma viagem nova; é como chegar a um sítio novo; por estrear.

Sítios novos detêm a inelutável capacidade de potenciar a mudança. Muitas vezes a circunstância antecede o efeito: é para mudarem que algumas pessoas mudam de sítio. Mas muitas vezes é casual. A necessidade de criar novas rotinas activa novas redes neuronais e a presença destas altera, por vezes apenas ligeiramente, a percepção da realidade.

A mudança possui esse tremendo feedback positivo: uma pequena mudança activa uma nova rede que nos expõe a uma nova sensação; ou à mesma sensação causada por um diferente objecto. Não que a memória ou o espaço sensorial seja injectivo. Ou as pessoas; principalmente as pessoas. O que seria deste mundo se uma pessoa nos podesse transmitir apenas apenas uma sensação? Seria um mundo sem ambiguidade. A ausência de injectividade das sensações é o que nos permite aceder a esse intangível lodoso que é a ambiguidade. O objecto poder ser varias coisas ao mesmo tempo. Um anti-clivagem. Um ser inteiro. Não é um grande feito mas é assim que funciona. Os regressos, tal como as pessoas, carecem de injectividade. Podia ser o mesmo, mas nunca é; é sempre diferente; e isso perturba-me de alguma forma. Principalmente no voltar. Voltar devia saber sempre ao mesmo e não sabe. Voltar a casa. Ao cheiro da almofada de sempre. Ás arestas memorizadas. Não é. É sempre diferente. E eu preferia que fosse; preferia que pelo menos isso fosse fixo.

Mas se assim fosse, talvez não voltasse. Talvez não houvesse segundo regresso. Se o regresso fosse injectivo, talvez não o fosse.

Thursday, October 27, 2011

Sobre o Humor


The incongruity theory is the reigning theory of humor, since it seems to account for most cases of perceived funniness, which is partly because “incongruity” is something of an umbrella term. Most developments of the incongruity theory only try to list a necessary condition for humor—the perception of an incongruity—and they stop short of offering the sufficient conditions.

In the Rhetoric (III, 2), Aristotle presents the earliest glimmer of an incongruity theory of humor, finding that the best way to get an audience to laugh is to setup an expectation and deliver something “that gives a twist.” After discussing the power of metaphors to produce a surprise in the hearer, Aristotle says that “[t]he effect is produced even by jokes depending upon changes of the letters of a word; this too is a surprise. You find this in verse as well as in prose. The word which comes is not what the hearer imagined.” These remarks sound like a surprise theory of humor, similar to that later offered by René Descartes, but Aristotle continues to explain how the surprise must somehow “fit the facts,” or as we might put it today, the incongruity must be capable of a resolution.
In the Critique of Judgment, Immanuel Kant gives a clearer statement of the role of incongruity in humor: “In everything that is to excite a lively laugh there must be something absurd (in which the understanding, therefore, can find no satisfaction). Laughter is an affection arising from the sudden transformation of a strained expectation into nothing” (I, I, 54).

Arthur Schopenhauer offers a more specific version of the incongruity theory, arguing that humor arising from a failure of a concept to account for an object of thought. When the particular outstrips the general, we are faced with an incongruity. Schopenhauer also emphasizes the element of surprise, saying that “the greater and more unexpected [. . .] this incongruity is, the more violent will be his laughter” (1818, I, Sec. 13).

As statedby Kant and Schopenhauer, the incongruity theory of humor specifies a necessary condition of the object of humor. Focusing on the humorous object, leaves something out of the analysis of humor, since there are many kinds of things that are incongruous which do not produce amusement. A more robust statement of the incongruity theory would need to include the pleasurable response one has to humorous objects. John Morreall attempts to find sufficient conditions for identifying humor by focusing on our response. He defines humorous amusement as taking pleasure in a cognitive shift. The incongruity theory can be stated as a response focused theory, claiming that humor is a certain kind of reaction had to perceived incongruity.

Henri Bergson’s essay “Laughter” (1980) is perhaps the one of the most influential and sophisticated theories of humor. Bergson’s theory of humor is not easily classifiable, since it has elements of superiority and incongruity theories. In a famous phrase, Bergson argues that the source of humor is the “mechanical encrusted upon the living” (p. 84) According to Bergson “the comic does not exist outside of what is strictly human.” He thinks that humor involve an incongruous relationship between human intelligence and habitual or mechanical behaviors. As such, humor serves as a social corrective, helping people recognize behaviors that are inhospitable to human flourishing. A large source of the comic is in recognizing our superiority over the subhuman. Anything that threatens to reduce a person to an object—either animal or mechanical—is prime material for humor. No doubt, Bergson’s theory accounts for much of physical comedy and bodily humor, but he seems to over-estimate the necessity of mechanical encrustation. It is difficult to see how his theory can accommodate most jokes and sources of humor coming from wit.

Three major criticisms of the incongruity theory are that it is too broad to be very meaningful, it is insufficiently explanatory in that it does not distinguish between non-humorous incongruity and basic incongruity, and that revised versions still fail to explain why some things, rather than others, are funny. We have already addressed the third criticism: it confuses the object of humor with the response. What is at issue is the definition of humor, or how to identify humor, not how to create a humor-generating algorithm. The incongruity theorist has a response to this criticism as well, since they can claim that humor is pleasure in incongruity.



Tuesday, October 04, 2011

As 3 formas de nunca perder uma guerra desde as Cruzadas até Hiroshima


Existe uma curiosa circunstância na actividade bélica que se manteve imutável por mais de cinco séculos – na realidade até Oppenheimer reunir um grupo de cientistas em Los Álamos e aí formar o centro de pesquisa nuclear que iria criar a primeira bomba atómica. Citando o livro sagrado dos Hindus, o Bhagavad-Gita, Oppenheimer mais tarde terá dito, e eu tenho de repetir: “Now I am become Death, the destroyer of worlds.” Na realidade, apenas aqui esta verdade imutável sobre a guerra cessou de ser e sendo que essa era que a guerra apenas pode ser ganha, ou, no mínimo, combatida de forma a tornar a tornar a derrota quase impossível de três maneiras diferentes.


A primeira é através de um estado plenamente militarizado. Isto significa, é claro, o recrutamento militar obrigatório – mas não só. O recrutamento militar obrigatório foi pela primeira vez criado na Suécia no princípio do século XVII mas sem grande efeito como a Guerra com a Prússia o demonstrou quando a Paz de Nystad foi assinada.


O primeiro estado inteiramente militarizado foi, precisamente, o pequeno estado da Prússia como a Guerra dos Sete anos veio demonstrar de forma indubitável. Entre 1756 e 1763, A Prússia liderada por Frederico II, (que no curso dessa guerra lograria atingir ao epiteto de o Grande) e assistida em terra apenas pelo Eleitorado de Hanôver defrontou e, de uma forma ou de outra derrotou, pois manteve o satus quo ante bellum, a Rússia, França, Áustria e seus aliados do Sacro-Império Romano, Suécia e Espanha. “Not a country that has an army but an army that has a country, in which, as it were, it just billeted” – nas palavras do ajudante de campo do seu filho, Von Berenhorst. Na realidade, a Prussía era um estado com pouco mais de dois milhões de habitantes e com um exército de mais de duzentos mil homens. O rácio de homens para militares era de ¼, o que, se excluirmos crianças, idosas, doentes e claro, estropiados de guerra, torna a afirmação de Von Berenhorst numa realidade. Mas não era apenas esta organização no processo de recrutamento que fazia a Prussia prevalecer, ou pelo menos, não se quebrantar. Existia uma verdadeira cultura de militarização da sociedade. A nobreza apenas podia almejar privilégios ou terras caso participassem na guerra. E tal como Esparta, mais de 2000 anos antes, era nesse sentido que eram educados desde crianças. Frederico era, no seu próprio direito, um homem notável e muito à frente do seu tempo. Correspondia-se com Voltaire – com o qual partilhava uma certa tendência anti-eclesiástica – e proclamava-se com o primeiro servidor da nação. É extraordinário verificar como, em menos de um século o discurso absolutista dos Bourbons se havia tornado obsoleto: o estado era agora a nação, e o rei, um seu servo.

A segunda é através do poder económico; e aqui, nada terá sido mais determinante para França e Reino Unido durante a segunda guerra dos 100 anos do que a sua capacidade de financiar uma guerra prolongada. Aliás, quase que se pode argumentar que a própria Revolução Francesa foi resultado dessa tentativa desesperada de Louis XVI em competir com o príncipe eleitor da casa de Hanôver, o rei George III, pelo domínio terrestre na Europa, colonial na América e marítimo, por todo o mundo. Três anos após o fim da Guerra da Independência dos Estados Unidos, cerca de 50% das receitas francesas eram esgotadas pelo serviço de dívida. O país estava, por todas as definições possíveis na bancarrota. As vitórias de Lafayete, embora colocassem um fim às pretensões britânicas nos Estados Unidos não trouxeram nenhuma vantagem política com a excepção da reconquista de Granada e das ilhas Dominicanas pois o Canada continuou quase inteiramente na posse dos Britânicos. Os Britânicos pelo contrário encontravam-se muito aquém do seu limite, como as guerras napoleónicas o iriam comprovar, pois por essa mesma altura acumulavam um surplus de mais de 1 milhão de Libras. Como era possível tal discrepância?

A razão prende-se na forma como o sistema político organizou o seu sistema fiscal, e claro está, na mais importante instituição do Império Britânico: o Banco de Inglaterra. A colecta de impostos no Reino Unido era realizada por uma burocracia profissionalizada e provinha sobretudo de impostos indirectos (impostos directos representavam apenas 18% da colecta) sobre o consumo cobrados nos portos e às portas de fábricas – portanto invisíveis aos contribuintes pois encontravam-se incorporados no preço. Quando estas receitas não eram suficientes, o Banco de Inglaterra emitia Consolas (títulos de obrigação perpétua) que cobriam o deficit.

“The stability of the bank of England is equal to that of the Britsh government. It acts, not only as an ordinary bank, but as a Great engine of the state.” – na palavras de Adam Smith. Ora porquê que Necker (ministro Francês das Finanças da altura) não fazia o mesmo? Pela simples razão que não existia, nem existiria até Napoleão o criar 1808, um banco de França. Mas tal não teria sido suficiente. Os impostos em França eram cobrados, não por uma burocracia profissionalizada, mas por entidades privadas que realizam a colecta em troca de uma comissão. E eram sobretudos impostos directos (sobre a terra) cobrados, não aos nobres, mas directamente aos camponeses. O imposto indirecto mais significativo (a gabelle sobre o sal) não era uniforme. Variava de 5% a 25%, tornando o contrabando de sal entre regiões com taxas de imposto diferentes num negócio recorrente. Um pormenor significativo da aversão dos Franceses a um sistema fiscal justo, transparente e burocrático é a entrada da palavra Budget na Enciclopédie Méthodique: “Termo parlamentar Inglês”. Não existia orçamento, nem, claro está , parlamento, antes um Compte Rendu au Roi o que tornava impossível perceber o verdadeiro estado das finanças públicas até a situação se ter tornado insustentável – algo que nos é familiar a nós, Portugueses. Por essa altura, uma das formas de rendimento mais importantes para o estado era a venialidade. A venialidade assentava num pagamento anual para obter uma isenção, privilégio ou até um título de nobreza. Por altura da Revolução francesa, existiam mais de 70 mil portadores de venialidades em França, o que era um negócio ruinoso para o estado na medida em que as isenções em muito ultrapassavam os pagamentos. Mas era também uma questão de risco moral. “Noble status can only be gained by the sword, by bravery and outstanding service.” Assim terá respondido Frederico quando abordado no sentido de vender títulos de nobreza na recém conquistada Silésia para financiar a continuação da guerra. Assim ficava marcada a diferença de espírito entre França e Prússia.

Os exemplos futuros destas duas formas de ganhar uma guerra ficariam expressas na última grande guerra de todas: WW2. Aqui, e de novo, embora em lados opostos, o terceiro Reich assentou a sua força na imposição de um estado plenamente militarizado. Por essa altura, não se tratava contudo de uma questão de impor o serviço militar obrigatório: tal era já comum na Europa; mas sim de inculcar uma cultura bélica permanente desde a infância, um fanatismo metódico, uma lealdade sem limites.

Do outro lado, a mesma força económica assente, não só no Banco de Inglaterra, mas nos Estado Unidos. Durante a Grande Guerra (WWI), o Reino Unido quase perdera a guerra por uma combinação de incompetência militar e, sobretudo, inabilidade económica ao tentar financiar a guerra, não com dívida, mas com moeda. Na WW2 não cometeu o mesmo erro, não obstante tenha tido um acesso superior aos mercados americanos – agora plenamente do lado britânico após Pearl Harbour.

Existe ainda uma terceira forma de ganhar uma guerra, ou de, pelo menos, não a perder, e essa é a minha preferida pois é a mais evidente e a responsável pelos episódios mais dramáticos e sangrentos das Guerras Europeias desde o século XVIII e essa é possuir um território que se estenda por mais de 10 mil Km com temperaturas no Inverno que atinjam -50 graus. Essa terceira forma é muito simplesmente de ser um país chamado Rússia, essa nação nunca derrotada no seu solo que encontra nas dificuldades da sobrevivência do seu povo, a impossibilidade de vitória dos seus invasores. Aqui caíram Napoleão e Hitler de forma estrondosa. Napoleão perdeu 480 mil homens da sua Grande Armée, e Hitler bastante mais entre Stalingrad, Kursk e outras grandes batalhas contra o exercito vermelho.

Friday, September 16, 2011

Esta Fome, Esta Paz

Esta paz inquieta, interna, ilusória. Aquele sítio. Aquela fome.
Debruço-me sobre esta forma de beleza estéril
Que cospe beijos como ventosas,
E que verte esta fome inquieta, densa, aguçada,
Esta vontade apoiada
Entre o nada e o que resta quando as palavras faltam
E o sorriso perdura, milimétrico, ao apagar-se.


A pele que se esgueira à expressão e os vincos realizando-se
Em incandescência furibunda,
aquela certeza, aquele descanso,
Aquela forma de tudo percepcionar para além da existência.

Esta paz: o roncar da onda que se encolhe antes de arrebentar.
Esta luz simétrica entre a dor e o prazer,
Aí rezar, ou aí exercer a humildade de forma fiel,
Experimentando os vincos do linho bruto desfazendo-se em carne fria,
fome pavorosa, crente, torpedeada.

Este ponto único, solene, vestido de mãos enormes e dedos luminosos,
Embalando o tempo,
Embalando a eternidade que desova nas rugas dos lábios
Rompendo-se em crostas salivantes,
Rompendo-se em migalhas de sangue fundente que engargalam a vontade,
E ANIQUILAM, ARRUINAM, ESTERILIZAM
qualquer forma de generosidade sem pretensão.

Oh Loyolas sarnentos, oh Deuses cúmplices,
Deixai-me atingir o ser
E aí permanecer
Sozinho com a minha fome!

Thursday, September 01, 2011

Acordar em Combray

Acordou meio obstruído na respiração, e por isso respirou fundo. Virou-se de um lado para o outro, aconchegou-se mais um pouco, virou a almofada e fechou os olhos com força. Fechar os olhos e imaginar que tudo está bem, foi o que fez. Imaginou a mesa posta para o pequeno-almoço, e logo sentiu o cheiro das torradas quentes e do café acabado de fazer. Imaginou o carro reluzente parado à entrada com o motorista de camisa ao xadrez e boina bem funda na cabeça; imaginou-o com um pequeno fio de bigode à anos trinta e olhar compenetrado. Em seu redor, imaginou um relvado bem arranjado e acabado de regar, emanando o odor da relva fresca. Um relvado amplo, delimitado por canteiros com jasmins e camélias e por pinheiros bravos enroscados por trepadeiras de verde musgo. Viu a casa de fora: Viu-a grande, branca e antiga como num conto da Sophia. Acrescentou uma cerejeira em flor, caruma estaladiça enroscando-se como cotão na brisa morna, e o zumbir ciclotrónico dos grilos; acrescentou apenas o refluir rochoso de um riacho anónimo galgando o seu curso. Imaginou tudo isso e virou de novo a almofada, esticou-se e fixou-se na janela entreaberta respingada pela cacimba exterior. Assim ficou entretido a contar o tempo que uma gota de chuva sobrevivia na superfície de vidro: doze segundos parecia ser a esperança máxima de vida de um elemento meio vítreo, meio líquido. Começou a sentir a presença de vida dentro dele, o coaxar dormente dos pulmões, o baloiçar intranquilo do coração. Virou-se para o outro lado; não gostava de sentir o bater do seu próprio coração. Não conseguia contudo abandonar o cenário sinestésico que criara, uma espécie de Combray sem Proust, um país das maravilhas sem Alice mas, de imediato, imaginou Proust, Alice, e Sophia a tomarem chá nessa sua casa de campo imaginária e a discutir trivialidades com a rainha de copas a servir biscoitos de limão. Foi dessa forma que dele emergiu um primeiro sorriso, um esquisso de sorrir, um breve alongar dos músculos faciais que de imediato o deixou exausto. Era ainda cedo, perto das sete, mas já se começavam a ouvir passos ténues fora do quarto. Alguém entrou e ele cumprimentou: ah, enfermeira Luísa, hoje veio de branco! Fica-lhe muito bem… A enfermeira sorriu, de forma algo forçada, e, sem nada dizer, começou a passear-se de um lado para o outro no quarto, preparando o banho. Consegue pôr-se direito? – Disse num tom gélido. A sua Combray, que ainda perdurava no seu espírito, desapareceu de imediato, assim como as migalhas do sorrir que obtivera antes; com os braços elevou o corpo para cima; ficou assim sentado, na sua imobilidade permanente, e fechou de novo os olhos. Mas desta vez, apenas sentia o cheiro a desinfectante. Assim começara mais um dia.

Tuesday, July 19, 2011

memória-acto

Lisboa com a fundura do seu cinzento estaladiço que me recheia a imaginação de memórias perdidas de tempos arrancados, tempos inefáveis presentes em sombras e olhares e gestos e sabores. Um espaço inteiramente dedicado à chuva deslizando pelas janelas e torneando os parapeitos; ao cheiro fecundo da calçada húmida; e às faces juvenis desmaiadas, cheias de imperfeições e singularidades, vozes em grupo ecoando pelas ruas em perfeitas correrias. Essa é Lisboa em tons de memória inquieta, e eu lá estou, eu meio peão, meio encenador, relembrando-me enquanto vivo os sons e a matéria densa – como se a vida lavrasse o ar com uma urgência imparável – que em cada movimento, e em cada momento, se encontra um pedaço de eternidade com a sua perfeição irrepetível de vida vivida. E logo que vivido, fecunda uma memória-acto, um perdão pelo tempo se ter escoado, e eu não te cerrado as mãos para o acolher, deslizante, subtil, único.

Wednesday, January 19, 2011

Entre nós

Entre nós e os mortos um silêncio entre vivos vigora
Agora que já nada resta para dizer
A fúria mansa e diária de se existir e nada se fazer
Nada se existir ao fazer
E interrogam-se entre nós aqueles que dizem
Que os outros nada fazem
E ainda assim apenas o fazem para nada
Ter de fazer
Entre nós e os outros uma lava fétida percorre
Os dias e estamos todos de mão estendida
A pedinchar ou mais tempo ou algum sentido
Mas nunca ambos
Pois com o tempo não bastaria perceber-lhe o sentido
Seria forçoso exibi-lo e isso cansa
Até porque o ter o sentido em nada revoga
Esta mundana experiência de não-morte
Somos gatafunhos de estéril vida individual
Ao abrigo de uma qualquer futura dialéctica
E impõe-se a questão
Entre mim e os mortos e os outros
Que podemos fazer
Somos matéria cósmica comum indistinta numa concha
De nada
Entre nós e os mortos a surpresa da absolvição
O fascínio pela libertação de endorfinas
E para além do princípio do prazer
O feitiço paralisante da reprodução em massa e do contínuo exercício do poder
Entre nós e tudo,
Somos a mão que se estende e perfura a noite galopante
A mão que se ergue e dobra a gravidade
Até as unhas se encavalitarem mas sem dor
Apenas uma picada e depois um alívio contínuo.
Mas somos apenas isso
Uma mão estendida

Friday, November 26, 2010

O espaço inter-pasmódico


A manhã estridente e estaladiça raiando minúsculas virgulas ao acordar. Um acordar feito de pausas virguladas, abstémias, cínicas. Preencha este formulário por favor. A primeira questão é: costuma ver virgulas pela manhã? Vejo virgulas nos gestos empoeirados de carinho, e pontos de exclamação pequeninos na exaltação militar do amor entre roedores. A segunda é: qual a sua palavra em francês preferida. Essa é fácil: désolé. Admiro infinitamente a capacidade de exprimir simultaneamente uma compaixão pela não satisfação de um desejo e um poderoso enfado moral pela existência de desejos tout court. Mas afinal qual é, désolé ou tout court? Olhe se não percebeu, posso apenas comunicar a minha desolação. Touché, respondeu-me o meu interlocutor. Vestia bata de médico e chapéu de coco. Vamos então seguir para o exame de visão, continuou.

Foi aí que tive de me ausentar. Já na altura da guerra recusaram a minha incorporação sob o pretexto de miopia poética. Sabe, da guerra pode-se fazer poesia mas só depois. Durante a guerra os poetas têm a desagradável tendência de morrer e levar com eles batalhões inteiros. Mas daí surgem versos magníficos, repliquei. Mas que nada têm a ver com a guerra, têm a ver com o espaço inter-pasmódico do poeta. Assenti com ar de orgulhosa ignorância. Pois, pois, o espaço inter-pasmódico que fica ali entre… a hipófise e a tíbia não é? Quase, respondeu-me o alferes. Situa-se entre a clavícula e o esterno. Mais ou menos aqui. E colocou-me uns enormes dedos junto do meu pescoço. Apoiou com força e eu verti uma página do livro do Cesário. Está a ver? É mesmo aqui.

Continuei essa tarde toda tentando reencontrar o meu espaço inter-pasmódico para o retirar e aderir à hiper-realidade espacial para poder ir para a guerra. Mas quando o consegui, a guerra já tinha acabado. Hélas!

Mas então é hélas? É sim senhor. Estou apto? Infelizmente não. O seu conhecimento da língua de Baudelaire não revela as qualidades indispensáveis para o habilitar a uma protese nova. Désolé...

Thursday, February 25, 2010

A realidade e eu


Passar pelos mesmos actos vezes sem conta; passear por eles. A repetição. A repetição de gestos e actos e palavras. A antecipação daí decorrente. E depois a repetição da antecipação. Repetida até que tudo se esgota. Tudo se esgota, indiferente ao que foi antecipado, indiferente ao que foi sonhado e até murmurado junto a almofadas partilhadas antes de o adormecer ocorrer. Em rigor, não se esgota; diria que converge. A convergência entre o antecipado e o vivido; o vivido tornando-se menos esfarpado, e o antecipado mais alcancável. Possuir a consciência disso é quase uma condenação; uma condenação ao uma vivência iterativa de expectativas, até à convergência.


Quando cheguei a casa pareceu-me evidente que a minha sede de desconstrução me sufocava cada vez mais. Dizem que a experiência de desconstrução mais terrível se verifica sob o efeito da mescalina. O Huxley tomou e escreveu sobre essa experiência de desconstrução do seu ser até ao nível atómico e de como toda a realidade se verga, se subjuga à nossa percepção – uma realidade vazia de valor absoluto. Eu não tinha tomado mescalina ou qualquer outra substância vertida do peiote pelo que estranhava esta sede. Angústia de convergência talvez. Relativização. Desde miúdo que gostava de relativizar tudo. Até ao ponto em que, cheio de imortalidade, me lembro de pensar: não importa, fazes isso noutra vida. E logo o que quer que me tivesse acontecido perdia valor. Valor que eu passava a possuir.


Os dias assim mordidos por esperanças intactas, mordiscado por dentadinhas inexistentes que ainda assim se sentem como sugeridas. Os dias assim são dias alternativos, o outro lado da elipse por assim dizer, o outro ramo da árvore, o que não sendo, foi sugerido, e antecipado, e sonhado por entre a bruma dos corpos ainda quentes, aquele que podia ter sido. Viver assim é o esplendor da individualidade. Consegue-se habitar um presente alternativo por forma que toda a vivência presente seja insignificante, matéria friável e decomposta que é percorrida mas não vivida, sentida, habitada. É viver-se dentro de si. É habitar-se. Algo de muito terrífico me deve constragir a habitar a realidade. Algo de espesso e medonho e ainda assim irrisível, fogo fátuo derramando-se na arrebentação do oceano; ou não. Talvez apenas um mito, um receio mitológico que me faz instaurar uma ditadura mental, um mito que o sendo só é o tudo porque não é nada, decidindo dessa forma pensar, mas não existir. Viver os dias assim num mundo que não existe, um pedaço de realidade estéril agarrada a um lençol que vai perdendo calor, viver os dias assim é inverter a lógica cartesiana, é protestar para que se possa pensar e aí viver, num pensamento que é uno com sensações, memórias, sentimentos, horários de comboios gastos, pedaços de música familares e sabores de beijos a Verão – e aí não existir porém. Esta é a expressão suprema da individualidade: sobrepor-se à realidade.


Passar pelos mesmos actos vezes sem conta; passear por eles. Um ciclo. Uma elipse. Habitar-se e ser-se despejado de si. Aproximar-se, gatinhando da realidade e achar tudo esplendoroso, incerto, magnífico. Desejar-se a incerteza. Por vezes acabo assim, e prefiro a aleatoriedade. O esplendor do impossível. E então percebo. Percebo como o meu entendimento do que é real o é de uma forma tão antecipada que quase que não é vivída. É um jogo. Um jogo de antecipação como se me tornasse no espectador de mim mesmo. Como o sábio que assim se contenta, eu apenas me distraio.

Wednesday, November 25, 2009

O fim no meio

Ao passo do So What, um So What ainda inserido em cassete e como tal com um som mais abafado, menos profundo, mas ainda assim aguçado e com notas altas. Um So what dos anos noventa que esquentava a estrada que era percorrida com pressa; a estrada percorrida de forma ávida com conversa avulsa servindo de pano de fundo ao som da radio-cassete. Esta ligeira inversão das causalidades ajustava-se bem a nós. Chegávamos sempre tarde, porque tinhamos saído sempre atrasados, e isso porque a noite anterior havia sempre sido demasiado prolongada. Uma sucessão de sempres que se desovava sobre a viagem. Passado algum tempo (o tempo necessário para um electrão se converter de cassete em byte), lembro-me das viagens, mas não as associo aos destinos. Daí a correspondente inversão de causalidade: as viagens pareciam conter um fim por si (que perdurou), e não servirem de meio para chegar a lado algum. O meio era portanto o fim.

E tal, creio,foi exactamente o que aconteceu a seguir.

Thursday, November 19, 2009

O Mito de Sísifo e a verdadeira questão


Le Mythe de Sisyphe é uma obra indecorosa. É indecorosa pela inteligência tentacular e pela clareza da escrita. Nela Camus constroi um mundo cercado de premissas pontiagudas, edifica uma cerca que remete o leitor para o absurdo existêncial e para o que fazer com ele. Aceitando o princípio do absurdo da existência, a unica verdadeira questão que resta à filosofia é o suicídio – valerá a pena viver uma existência absurda, e sendo essa existência absurda, não é o suicídio a única resposta coerente? Assim se interoga Camus. Não, é a sua resposta. Se Sísifo leva uma existência absurda, é nesse absurdo que ele deverá viver. Uma vivência revoltada, elevando um rochedo por uma escarpa para depois o deixar cair, elevando-o de novo, deixando-o cair de novo, e assim para toda a eternidade. Essa existência é a metáfora do absurdo para Camus com o resultado que Sísifo leva uma vida revoltada, mas hipotéticamente realizada. Talvez feliz. O suicídio não é a resposta filosófica. Concordo com a resposta. Sim, é provável que Sísifo sinta revolta; sim é também provável que sinta o suficiente para se deixar viver. Mas não concordo com a premissa. A premissa do absurdo.


A realização do absurdo por Camus, e as consequências dessa realização, é um problema comum a todo o existêncialismo, que erra, como toda a estrutura do existêncialismo erra, ao derivar uma tese geral – uma premissa dialéctica que advém da observação da história enquanto movimento fenomenológico – para o nível particular da existência de cada indivíduo. Erra clamorosamente.


Erra porque não admite a inacção ao nível individual perante o cavalgar imparável da história. Erra porque extrai desse cavalgar a vontade combinada de todos os seres. Erra porque reduz a vontade do ser, à vontade dos seres em seu redor. Erra porque parte da singular premissa que o ser humano é uma térmita, um ser únicamente gregário e social, sem vontade própria se não a que lhe é implantada por uma torrente macroscópica dialéctica. Erra no fundo, no atomo da questão ao assumir que a história é o resultado da vontade combinada dos seres que nela habitam, pelo que do seu desenrolar, se pode retirar conclusões sobre os seus intervenientes ao nível individual.

O ser humano não é uma térmita; é um lobo com uma lealdade implantada para os aos seus e uma desconfiança intrínseca em relação aos outros. Aldous Huxley elabora exaustivamente sobre esse aspecto semi-grupal da nossa identidade no Regresso ao Admirável Mundo Novo. A busca identitária realiza-se no ser humano entre aqueles que o acompanham; a sua lealdade é devida ao seu clã, à sua tribo, aqueles que ele assume que são lhe são iguais. Não a todos. Apenas a alguns. Tal qual resolução da questão Hegeliana que é a identificação do outro como um igual – o senhor e o escravo.


O absurdo não existe em Sísifo enquanto ser social. Existe em Sísifo enquadrado individualmente num movimento dialéctico. A revolta de Sísifo nesse plano seria nula caso não estivesse sozinho nesse afã estéril. Seria não existente caso fosse partilhado com o seus – com aqueles que ele reconhece como iguais a ele. A resolução da questão de Camus encontra-se na credibilidade da aceitação da história. Um homem, Sísifo, que desprezou a morte e os Deuses em vida, é condenado a passar o resto da eternidade num trabalho vão: erguer um rochedo por uma colina para depois o deixar cair. Sísifo executa esssa tarefa diligentemente, em vez de preferir a morte. Nele ergue-se uma estrutura identitária mais forte que a futilidade da existência: a culpa. A culpa da sua futilidade em vida, mas que apenas faz sentido numa existência sujeita ao juízo dos outros, e como tal, Sísifo executa a sua tarefa acompanhado pelos os outros que o culpam e o forçam a castigar-se, buscando assim a remissão. Culpa, castigo, remissão. Uma das mais poderosas estruturas identitárias da nossa civilização aí se encontra presente. Em Sísifo, observando o rochedo despenhar-se do novo no sopé da colina não existe nenhum absurdo.


A credibilidade do castigo é também medida pela sua aceitação. Por alguma razão Prometeu, condenado a estar preso a uma árvore para que uma águia lhe depenicasse o figado durante todos os dias até ao fim da eternidade, dado que este lhe crescia de novo durante a noíte, se encontra preso. Não seria credível que alguém de livre vontade aceitasse tal sofrimento sem preferir a morte. No caso de Sísifo, ele não prefere a morte.

Caso um extraterrestre que nos visitasse, a existência poder-lhe-ia parecer estranha, desobjectivada, desprovida de sentido se fosse encarada a um nível estrictamente individual com a tela da história por trás. Mas não o é ao nosso nível semi-grupal – nível esse composto por um universo de lealdades e afectos pelos outros, valores e tradições pelos demais – todos os elementos que nos permitem criar essa maciça ilusão de continuídade através da preservação da identidade.


Chegado aqui, apresenta-se a verdadeira questão filosófica do mundo de hoje. Um mundo que aniquilou tudo aquilo que absorvia essa sensação de estranheza; um mundo que aboliu as religiões, matou Deus, inutilizou as ideologias, relativizou tudo, globalizou tudo, tornou tudo num produto standard, pôs tudo online, e que no processo desagregou as famílias que agora, a existirem, vivem em pontos diferentes do mundo, em apartamentos minúsculos, com um filho ou nenhum, e sem amigos – apenas elementos orgânicos de um processo subreptício designado por, wait for it, networking.


A verdadeira questão, é imaginar como estabelecer uma identidade – algo que foi um dado adquirido durante milhares e milhares de anos, algo que originou costumes e tradições (tudo amuletos de identidade), algo que precipitou guerras (ainda precipita segundo alguns: Samuel Huntington), algo que nos definiu de acordo com a nossa natureza, e essa é segundo Huxley, uma natureza semi-social, como lobos.


A verdadeira questão é como nos definir para além da condição de cidadãos – em que a cidadania se resume à participação eleitoral – submersos num sistema em que as instituições se revelam impotentes, incapazes de prevenir a aniquilação do planeta, ou garantir o funcionamento regular do mercado – sem cíclicas espirais de destruição maciça de valor em troca da apresentação de deslumbrantes rácios EPS. A verdadeira questão é como nos definir para além da simples condição de consumidores, simples autómatos de criação de riqueza e distribuição da mesma em pequenas, médias ou grandes superfícies, num exercício esgotante de hedonismo. Cidadãos num estado de cidadania mediocre, destituídos de identidade, leves como uma pena, e com um cartão de crédito. Eis-nos. E não nos satisfaz.


Como redefinir essa identidade? A esta questão não tenho resposta; apenas verifico um equilíbrio densamente instável.


Verifica-se um regresso a valores tradicionais em todo o mundo – valores ligados à religião, e à família. Um regresso extremo, sem ponderação, como todos os movimentos que se fazem por reacção e não por construção – e.g. o cresimento de ordens religiosas como a Opus Dei. Tenho certo por certo que parte da resposta aí se encontra: numa redescoberta da espiritualidade. Mas não me parece contudo que seja neste formato. Uma redecoberta impositiva que inscreve fronteiras artificais num mundo global; uma que impõe modelos anacrónicos na determinação do papel da mulher; uma ainda sustentada por alicerces de culpa. Não me parece que seja víavel aceitar uma nova espiritualidade com velhos princípios porque esses, esmagam, como sempre esmagaram, a individualidade. No mundo de hoje, a individualidade já não pode ser negada.


Verifica-se ainda um movimento para tornar próxima essa espiritualidade perdida através de uma abordagem inovadora: algo presente no fenómeno de proliferação de seitas, entre as quais, a Igreja da Cientologia, conhecida entre outras coisas, por ter sido criada por um escritor de ficção científica – profeta suposto de uma confederação das galáxias criada há 75 milhões por um tal de Xenu. Centenas de milhares de pessoas seguem estas seitas e dedicam a elas grande parte dos seus recursos e tempo. À parte da efabulação estranhamente aceite por pessoas aparentemente inteligentes e bem sucedidas, o relevante na Cientologia e em outras seitas é o seu apelo pelo universal e galáctico, como se os mitos terrenos já não fossem suficientes. E de facto, começam a não ser porque nos encontrámos cada vez mais longe deles e das parábolas que representavam, e mais próximos do exterior, mais conscientes da finitude e da precariedade do nosso pequeno planeta.


Verifica-se também a criação de mecanismos artificiais de sustentação de uma identidade conjunta como nas novas redes sociais: e.g. facebook. Algo que não é verdadeiramente genuíno, nem nunca o poderá ser. Algo que representa em termos simbólicos a ilusão de uma tribo, mas que na práctica não passa de uma rede de contactos oportunistas.


Verifica-se a proliferação de ONG’s. Organizações de defesa do consumidor. Organizações de defesa do ambiente, dos animais, das minorias, de todos os que não são como nós ou que são, que partilham ou não os mesmo interesses, sem se saber exactamente o que é a maioria ou o que é que a define. O que é o nós, posto de forma mais simplística. De tudo isto, uma coisa estou certa: é um equilíbrio meta-estável. Tal não nos diz o que vai acontecer; apenas nos diz que não vamos ficar assim durante muito mais tempo. A malaise de 1914 prolifera e esta noção de final de história – da qual já foi apoainte convicto –, desagrega-se em torno dessa primal questão dialéctica que é a dirrecionalidade da história. Se considerarmos que não nos tem levado para nenhum sítio que os arautos nos indicaram, a existir tal direcionalidade, afinal para onde nos leva?


A única questão filosófica que se deve pôr é a seguinte: após a destruição do fragmentado tecido indentitário que evolutivamente nos preservou grupalmente enquanto clãs com lealdade familiar, e que progressivamente nos elevou a povos acompanhados de religiões com lealdade cultural, será que é possível criar uma indentidade ainda mais elevada, erguendo-nos à condição global de humanos terrestres, ou, antes pelo contrário, mergulharemos num novo foclore identitivo em extrema rotura social?


Certo é que a história progrediu de tal modo que o indivíduo se libertou da armadura que lhe conferia a protecção suficiente para a resolução da questão existencial. E sem essa placenta, Sísifo não será capaz de continuar a empurrar o rochedo.

Monday, November 03, 2008

O fim do indigente



Então o senhor acomodou-se ao balcão e disse, Em alternativa ao amor, queria então a indigência. Uma indigência pouco elaborada. Não quero uma túnica com manchas e buracos. Não gosto de farrapos. Basta um olhar de canino esfomeado e abandonado. Depois pensou um pouco e completou, Basta esfomeado e quero também uma camisa de linho – e apenas linho porque não gosto de misturar tecidos. Posto isto, bebeu de um trago um copo de branco que por ali estava caído. E desfaleceu – sem pagar.


Foi assim o fim do indigente

Mãos e olhares e outros cheiros



O cheiro da malha molhada. A malha lambida por chuva e suor diário. E as maçãs do rosto rosadas. As mãos muito frias. Um frio que se alonga aos dedos juntos, ou apenas juntando-se, como as gotas de chuva interceptadas sobre os poros do vidro. Mãos que se encontram, ao acaso, por uma infinitude de leis naturais de escoamento, e que assim permanecem. As mãos e os olhares. Apenas estes se encontram sujeitos a tais leis de atracção gravítica. Os restantes membros não se encontram; são orientados nesse sentido.

Tudo o resto é determinado, e acessório dessa naturalidade molecular que é o silêncio se aproximar como uma cobra, e despejar sobre esse olhar fugidio, a impaciência da primeira palavra – ou a certeza do primeiro gesto.

Wednesday, April 16, 2008

saliva pólvora

Às vezes é voraz; a fome é trucidante por astros e corpos. A boca cerzida com uma saliva pólvora e as mãos trémulas como helicópteros moribundos.

As vezes, a caruma esfuma-se nas gengivas gastas; as palavras não se soltam: enforcam-se a partir da língua.


Carrego nos pulmões uma vala comum de léxicos em desuso; eles conversam num dialecto medieval. Gosto de os ouvir. O som do alaúde percorre-me todos os dias em que a fome graça e é meu mister a abundância de espírito. Tenho de criar um logótipo para este estado.


No empedrado de calcário deparo-me com cabelos louros muito lisos nas juntas das pedras. Todas as pedras são olhos cinzentos e todos os dias são pérolas azuis.

Todas as bocas expelem bolas de cotão, mas alguns emitem dentes de leão. A diferença é que um é indicado para tratar do reumatismo, e o outro não. Um flutua no vento e o outro gasta o ar – é como um perfume: se for bom, logo se desprende e segue; se for mau, satura o ar com um hálito fétido.


Por vezes acorda-se velho, e com saudades do cheiro a alfazema. Mas logo a juventude emerge, e com ela, os desconhecidos e abundantes campos de alfazema revelam-se.

Thursday, February 14, 2008

Acontece-nos



Eu gostava daquele prédio. Gostava do pátio das traseiras asfaltado onde as crianças jogavam à bola. Via alguns jogos nas tardes domingo. E não era o único. Os miúdos ensaiavam as tabelinhas, os remates de longa distância, as fintas de corpo. E sabiam-se observados pela massa associativa do quarteirão. Por vezes ouvia-se um aplauso das bancadas de vidro seguido de um, Boa miúdo, e o miúdo fingia não ouvir mas via-se que ficava orgulhoso e sem jeito. Normalmente após um Boa miúdo, o miúdo em causa subia as meias, passava a mão pelo cabelo suado, e dava um ok desajeitado para o companheiro de equipa. Fingia que não era nada com ele.
Eu gostava das birras do Joaquim que era o dono da bola. O pai assistia aos jogos das bancadas de vidro e não se cansava de gritar, Vai Joaquim, vai! Vai para o golo! Quando as coisas não lhe corriam bem, o Joaquim mandava calar o pai e ameaçava os outros que se ia embora com a bola. O pai mandava-o jogar em vez de falar, o que, como é óbvio, ainda o enfurecia mais. Eu exibia mentalmente um cartão amarelo por protestos, e dava mais um gole na cerveja. Passava os Domingos assim, e não me importava nada.
Quando mudei de casa passado algum tempo, passei a ocupar os meus Domingos com uma esplanada simpática que havia lá perto. A casa era maior, com mais luz e espaço para arrumar os meus discos. Á frente, havia um jardim com uma fonte que orvalhava o ar com o cheiro a terra molhada. Era um sítio calmo e com pouco barulho, mas isso depressa começou a incomodar-me mais do que a satisfazer-me. Com o tempo, toda aquela acalmia meio bucólica começou a saturar-me e as saudades do meu antigo apartamento comprimido entre outros tantos iguais surgiram. Sentia que faltava ali qualquer coisa; talvez as crianças, talvez os gritos do pai do Joaquim. Alguma coisa.
Fazia pouco sentido que fossem as crianças. Eu sempre tinha gostado de crianças, mas com perímetro de segurança devidamente montado à volta. Tinha mesmo tomado a decisão, plenamente consciente, de não deixar semente – o que foi, apesar de tudo, uma decisão fácil de tomar para quem tinha uma mulher que não podia ter filhos. Bem sei que, ao conhecer essa circunstância, podia ter tentado arranjar uma solução; ou então outra mulher. Mas não. Acho que na realidade, até fiquei satisfeito com toda essa ausência potencial de vida.
E apesar de tudo, era dos miúdos que sentia falta. Não dos miúdos em si; era da sua ausência de destino. Um miúdo não tem peso; é leve como um dente de leão. Pode vir a ser tudo. Eu já não podia ser coisa alguma a não ser aquilo que era. Era um homem cheio de destino, ou cujo destino havia preenchido sem dar conta de si. Eu era como uma farinheira cheia pronta a ir para o fumeiro. E aqueles miúdos eram só tripa – tripa transparente e ávida de destino.
Durante a guerra – sim, estive numa guerra, não interessa qual porque elas são todas iguais – conheci um oficial que de vez em quando, um quando meio satisfeito mas ao mesmo tempo conformado, dizia, Todos os homens têm um destino a cumprir excepto os soldados, que primeiro têm de cumprir o seu dever. Depois costumava sorrir num monossílabo, assim entre o assentimento e o desprezo. Era um tipo curioso. Morreu já depois da guerra num acidente de automóvel. Talvez tivesse razão.
Quem andou na guerra tem uma dificuldade do caraças em entender que um tipo sobreviva à guerra e depois morra num acidente. Acham-se isentos. Têm a mania que controlam essas coisas todas. Até qualquer coisa parecida com o destino. Primeiro o dever, depois o destino. Deve ser algum mecanismo de compensação. Deve ser isso.
Eu nunca me senti culpado pelos que lá ficaram. Ficaram lá os que tinham de ficar. Nem, tão pouco, me senti especial ou um herói. Aliás, na guerra nunca conheci um herói. Pelo menos vivo.
Ultimamente costumo ir outro jardim que é aqui perto – são duas paragens de autocarro. É menos bonito e tem menos sombras, mas tem miúdos. Tem um gramado cheio que Joaquins a jogar à bola. Gosto mais deste. Sou invadido pela leveza habitual enquanto tento discernir o quê que estes miúdos vão ser daqui as uns anos. Também tem umas mães engraçadas, mas eu já estou demasiado velho para essas coisas.
Houve um tempo - não há tanto quanto isso, embora a mim me pareça que foi noutra vida - em que ainda sentia essa leveza em mim, e não precisava da leveza dos outros. Já era casado há uns vinte anos, mas saí de casa sem uma hesitação. Não era, diga-se, a primeira vez que saía de casa. Mas dessa vez, não estava propriamente a sair de casa – estava a sair de uma vida que, de repente, tinha compreendido que não era a minha. Nessa altura, pela primeira vez, estava a cumprir um destino. Mas é claro que, na altura, não o sabia.
Chamo-lhe destino mas sei muito bem que não existe nada escrito sem ser pela nossa mão. O destino somos nós. Infelizmente, achava que destino era aquilo que já sabia que ia acontecer antes de acontecer. Era uma ideia que se tinha antes e que, de repente, acontecia. Mas não é assim que se passa.
O destino acontece-nos, era assim que ela dizia; e tinha razão. Acontece-nos quando o vivemos, e é tão inevitável que não vale a pena ter pressa. Vai acontecer. Na altura não o sabemos. Claro que não o podemos saber. Isso era batota. Destino não é querer muito uma coisa e depois tê-la. Isso é ambição. E aquilo que obtemos nunca é igual ao que idealiza-mos - a desilusão é inevitável.
Destino é ter sem desejar, sem lutar por isso, sem fazer absolutamente nada, e mesmo assim receber o que ainda não sabemos que queremos – e queremos acima de qualquer coisa na vida.
E foi assim que se passou. Uma encharcada de destino súbita; quase fiquei diabético.

Monday, January 28, 2008

Kind of Blue


Havia um azul calamitoso naquele olhar que eu nunca esperei ponderar. A natureza humana esconde-se em todo o tipo de tons de azul. E este era o azul mais imponderável que conhecera. Era, certamente, o meu tipo de azul.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. Apartamentos esconsos na Escandinávia, estradas nacionais não cartografadas, bancos de jardim na Avenida da Liberdade. Estive em todos esses sítios. Mas nunca me deparei com um azul assim. E não posso lá regressar.

A natureza humana e a sua degenerescência. Continuo um óptimo produtor de serotonina segregada em parques de estacionamento vazios; pródigo manufactor de afectos e coisas que estrangulam violentamente o coração em dias escuros. Ou é então a visão que tinge o horizonte com essa opacidade. Talvez para esconder o azul, e mais particularmente este tom de azul; o meu tipo de azul.

É tudo uma gigante comédia. Uma comédia num palco com uma audiência muda que se ri com ganidos ferozes. Uma comédia humana. Continuamos a lambuzarmo-nos de serotonina, mas a degenerescência é avassaladora no traço, na dureza, e no brilho. A experiência da vida é avassaladora vista deste lado.

É difícil sentir o azul a chegar; ele aproxima-se como uma maré vaga e vai humedecendo a carne com uma doçura intransigente. A doçura do marulhar embriagado dos beijos e do adormecer. Eu sei uma coisa ou outra sobre a intransigência. E sei que é azul em toda a sua superfície acrílica que é no que se torna a carne após um curto período de exposição. O azul é radiação.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. E desta vez não posso mesmo voltar. A existência é o meu exílio, e lá gastarei o que me resta de eternidade, sem remorsos, sem azul, sem ti. Muito provavelmente, sem nada.