Wednesday, January 19, 2011

Entre nós

Entre nós e os mortos um silêncio entre vivos vigora
Agora que já nada resta para dizer
A fúria mansa e diária de se existir e nada se fazer
Nada se existir ao fazer
E interrogam-se entre nós aqueles que dizem
Que os outros nada fazem
E ainda assim apenas o fazem para nada
Ter de fazer
Entre nós e os outros uma lava fétida percorre
Os dias e estamos todos de mão estendida
A pedinchar ou mais tempo ou algum sentido
Mas nunca ambos
Pois com o tempo não bastaria perceber-lhe o sentido
Seria forçoso exibi-lo e isso cansa
Até porque o ter o sentido em nada revoga
Esta mundana experiência de não-morte
Somos gatafunhos de estéril vida individual
Ao abrigo de uma qualquer futura dialéctica
E impõe-se a questão
Entre mim e os mortos e os outros
Que podemos fazer
Somos matéria cósmica comum indistinta numa concha
De nada
Entre nós e os mortos a surpresa da absolvição
O fascínio pela libertação de endorfinas
E para além do princípio do prazer
O feitiço paralisante da reprodução em massa e do contínuo exercício do poder
Entre nós e tudo,
Somos a mão que se estende e perfura a noite galopante
A mão que se ergue e dobra a gravidade
Até as unhas se encavalitarem mas sem dor
Apenas uma picada e depois um alívio contínuo.
Mas somos apenas isso
Uma mão estendida

Friday, November 26, 2010

O espaço inter-pasmódico


A manhã estridente e estaladiça raiando minúsculas virgulas ao acordar. Um acordar feito de pausas virguladas, abstémias, cínicas. Preencha este formulário por favor. A primeira questão é: costuma ver virgulas pela manhã? Vejo virgulas nos gestos empoeirados de carinho, e pontos de exclamação pequeninos na exaltação militar do amor entre roedores. A segunda é: qual a sua palavra em francês preferida. Essa é fácil: désolé. Admiro infinitamente a capacidade de exprimir simultaneamente uma compaixão pela não satisfação de um desejo e um poderoso enfado moral pela existência de desejos tout court. Mas afinal qual é, désolé ou tout court? Olhe se não percebeu, posso apenas comunicar a minha desolação. Touché, respondeu-me o meu interlocutor. Vestia bata de médico e chapéu de coco. Vamos então seguir para o exame de visão, continuou.

Foi aí que tive de me ausentar. Já na altura da guerra recusaram a minha incorporação sob o pretexto de miopia poética. Sabe, da guerra pode-se fazer poesia mas só depois. Durante a guerra os poetas têm a desagradável tendência de morrer e levar com eles batalhões inteiros. Mas daí surgem versos magníficos, repliquei. Mas que nada têm a ver com a guerra, têm a ver com o espaço inter-pasmódico do poeta. Assenti com ar de orgulhosa ignorância. Pois, pois, o espaço inter-pasmódico que fica ali entre… a hipófise e a tíbia não é? Quase, respondeu-me o alferes. Situa-se entre a clavícula e o esterno. Mais ou menos aqui. E colocou-me uns enormes dedos junto do meu pescoço. Apoiou com força e eu verti uma página do livro do Cesário. Está a ver? É mesmo aqui.

Continuei essa tarde toda tentando reencontrar o meu espaço inter-pasmódico para o retirar e aderir à hiper-realidade espacial para poder ir para a guerra. Mas quando o consegui, a guerra já tinha acabado. Hélas!

Mas então é hélas? É sim senhor. Estou apto? Infelizmente não. O seu conhecimento da língua de Baudelaire não revela as qualidades indispensáveis para o habilitar a uma protese nova. Désolé...

Thursday, February 25, 2010

A realidade e eu


Passar pelos mesmos actos vezes sem conta; passear por eles. A repetição. A repetição de gestos e actos e palavras. A antecipação daí decorrente. E depois a repetição da antecipação. Repetida até que tudo se esgota. Tudo se esgota, indiferente ao que foi antecipado, indiferente ao que foi sonhado e até murmurado junto a almofadas partilhadas antes de o adormecer ocorrer. Em rigor, não se esgota; diria que converge. A convergência entre o antecipado e o vivido; o vivido tornando-se menos esfarpado, e o antecipado mais alcancável. Possuir a consciência disso é quase uma condenação; uma condenação ao uma vivência iterativa de expectativas, até à convergência.


Quando cheguei a casa pareceu-me evidente que a minha sede de desconstrução me sufocava cada vez mais. Dizem que a experiência de desconstrução mais terrível se verifica sob o efeito da mescalina. O Huxley tomou e escreveu sobre essa experiência de desconstrução do seu ser até ao nível atómico e de como toda a realidade se verga, se subjuga à nossa percepção – uma realidade vazia de valor absoluto. Eu não tinha tomado mescalina ou qualquer outra substância vertida do peiote pelo que estranhava esta sede. Angústia de convergência talvez. Relativização. Desde miúdo que gostava de relativizar tudo. Até ao ponto em que, cheio de imortalidade, me lembro de pensar: não importa, fazes isso noutra vida. E logo o que quer que me tivesse acontecido perdia valor. Valor que eu passava a possuir.


Os dias assim mordidos por esperanças intactas, mordiscado por dentadinhas inexistentes que ainda assim se sentem como sugeridas. Os dias assim são dias alternativos, o outro lado da elipse por assim dizer, o outro ramo da árvore, o que não sendo, foi sugerido, e antecipado, e sonhado por entre a bruma dos corpos ainda quentes, aquele que podia ter sido. Viver assim é o esplendor da individualidade. Consegue-se habitar um presente alternativo por forma que toda a vivência presente seja insignificante, matéria friável e decomposta que é percorrida mas não vivida, sentida, habitada. É viver-se dentro de si. É habitar-se. Algo de muito terrífico me deve constragir a habitar a realidade. Algo de espesso e medonho e ainda assim irrisível, fogo fátuo derramando-se na arrebentação do oceano; ou não. Talvez apenas um mito, um receio mitológico que me faz instaurar uma ditadura mental, um mito que o sendo só é o tudo porque não é nada, decidindo dessa forma pensar, mas não existir. Viver os dias assim num mundo que não existe, um pedaço de realidade estéril agarrada a um lençol que vai perdendo calor, viver os dias assim é inverter a lógica cartesiana, é protestar para que se possa pensar e aí viver, num pensamento que é uno com sensações, memórias, sentimentos, horários de comboios gastos, pedaços de música familares e sabores de beijos a Verão – e aí não existir porém. Esta é a expressão suprema da individualidade: sobrepor-se à realidade.


Passar pelos mesmos actos vezes sem conta; passear por eles. Um ciclo. Uma elipse. Habitar-se e ser-se despejado de si. Aproximar-se, gatinhando da realidade e achar tudo esplendoroso, incerto, magnífico. Desejar-se a incerteza. Por vezes acabo assim, e prefiro a aleatoriedade. O esplendor do impossível. E então percebo. Percebo como o meu entendimento do que é real o é de uma forma tão antecipada que quase que não é vivída. É um jogo. Um jogo de antecipação como se me tornasse no espectador de mim mesmo. Como o sábio que assim se contenta, eu apenas me distraio.

Wednesday, November 25, 2009

O fim no meio

Ao passo do So What, um So What ainda inserido em cassete e como tal com um som mais abafado, menos profundo, mas ainda assim aguçado e com notas altas. Um So what dos anos noventa que esquentava a estrada que era percorrida com pressa; a estrada percorrida de forma ávida com conversa avulsa servindo de pano de fundo ao som da radio-cassete. Esta ligeira inversão das causalidades ajustava-se bem a nós. Chegávamos sempre tarde, porque tinhamos saído sempre atrasados, e isso porque a noite anterior havia sempre sido demasiado prolongada. Uma sucessão de sempres que se desovava sobre a viagem. Passado algum tempo (o tempo necessário para um electrão se converter de cassete em byte), lembro-me das viagens, mas não as associo aos destinos. Daí a correspondente inversão de causalidade: as viagens pareciam conter um fim por si (que perdurou), e não servirem de meio para chegar a lado algum. O meio era portanto o fim.

E tal, creio,foi exactamente o que aconteceu a seguir.

Thursday, November 19, 2009

O Mito de Sísifo e a verdadeira questão


Le Mythe de Sisyphe é uma obra indecorosa. É indecorosa pela inteligência tentacular e pela clareza da escrita. Nela Camus constroi um mundo cercado de premissas pontiagudas, edifica uma cerca que remete o leitor para o absurdo existêncial e para o que fazer com ele. Aceitando o princípio do absurdo da existência, a unica verdadeira questão que resta à filosofia é o suicídio – valerá a pena viver uma existência absurda, e sendo essa existência absurda, não é o suicídio a única resposta coerente? Assim se interoga Camus. Não, é a sua resposta. Se Sísifo leva uma existência absurda, é nesse absurdo que ele deverá viver. Uma vivência revoltada, elevando um rochedo por uma escarpa para depois o deixar cair, elevando-o de novo, deixando-o cair de novo, e assim para toda a eternidade. Essa existência é a metáfora do absurdo para Camus com o resultado que Sísifo leva uma vida revoltada, mas hipotéticamente realizada. Talvez feliz. O suicídio não é a resposta filosófica. Concordo com a resposta. Sim, é provável que Sísifo sinta revolta; sim é também provável que sinta o suficiente para se deixar viver. Mas não concordo com a premissa. A premissa do absurdo.


A realização do absurdo por Camus, e as consequências dessa realização, é um problema comum a todo o existêncialismo, que erra, como toda a estrutura do existêncialismo erra, ao derivar uma tese geral – uma premissa dialéctica que advém da observação da história enquanto movimento fenomenológico – para o nível particular da existência de cada indivíduo. Erra clamorosamente.


Erra porque não admite a inacção ao nível individual perante o cavalgar imparável da história. Erra porque extrai desse cavalgar a vontade combinada de todos os seres. Erra porque reduz a vontade do ser, à vontade dos seres em seu redor. Erra porque parte da singular premissa que o ser humano é uma térmita, um ser únicamente gregário e social, sem vontade própria se não a que lhe é implantada por uma torrente macroscópica dialéctica. Erra no fundo, no atomo da questão ao assumir que a história é o resultado da vontade combinada dos seres que nela habitam, pelo que do seu desenrolar, se pode retirar conclusões sobre os seus intervenientes ao nível individual.

O ser humano não é uma térmita; é um lobo com uma lealdade implantada para os aos seus e uma desconfiança intrínseca em relação aos outros. Aldous Huxley elabora exaustivamente sobre esse aspecto semi-grupal da nossa identidade no Regresso ao Admirável Mundo Novo. A busca identitária realiza-se no ser humano entre aqueles que o acompanham; a sua lealdade é devida ao seu clã, à sua tribo, aqueles que ele assume que são lhe são iguais. Não a todos. Apenas a alguns. Tal qual resolução da questão Hegeliana que é a identificação do outro como um igual – o senhor e o escravo.


O absurdo não existe em Sísifo enquanto ser social. Existe em Sísifo enquadrado individualmente num movimento dialéctico. A revolta de Sísifo nesse plano seria nula caso não estivesse sozinho nesse afã estéril. Seria não existente caso fosse partilhado com o seus – com aqueles que ele reconhece como iguais a ele. A resolução da questão de Camus encontra-se na credibilidade da aceitação da história. Um homem, Sísifo, que desprezou a morte e os Deuses em vida, é condenado a passar o resto da eternidade num trabalho vão: erguer um rochedo por uma colina para depois o deixar cair. Sísifo executa esssa tarefa diligentemente, em vez de preferir a morte. Nele ergue-se uma estrutura identitária mais forte que a futilidade da existência: a culpa. A culpa da sua futilidade em vida, mas que apenas faz sentido numa existência sujeita ao juízo dos outros, e como tal, Sísifo executa a sua tarefa acompanhado pelos os outros que o culpam e o forçam a castigar-se, buscando assim a remissão. Culpa, castigo, remissão. Uma das mais poderosas estruturas identitárias da nossa civilização aí se encontra presente. Em Sísifo, observando o rochedo despenhar-se do novo no sopé da colina não existe nenhum absurdo.


A credibilidade do castigo é também medida pela sua aceitação. Por alguma razão Prometeu, condenado a estar preso a uma árvore para que uma águia lhe depenicasse o figado durante todos os dias até ao fim da eternidade, dado que este lhe crescia de novo durante a noíte, se encontra preso. Não seria credível que alguém de livre vontade aceitasse tal sofrimento sem preferir a morte. No caso de Sísifo, ele não prefere a morte.

Caso um extraterrestre que nos visitasse, a existência poder-lhe-ia parecer estranha, desobjectivada, desprovida de sentido se fosse encarada a um nível estrictamente individual com a tela da história por trás. Mas não o é ao nosso nível semi-grupal – nível esse composto por um universo de lealdades e afectos pelos outros, valores e tradições pelos demais – todos os elementos que nos permitem criar essa maciça ilusão de continuídade através da preservação da identidade.


Chegado aqui, apresenta-se a verdadeira questão filosófica do mundo de hoje. Um mundo que aniquilou tudo aquilo que absorvia essa sensação de estranheza; um mundo que aboliu as religiões, matou Deus, inutilizou as ideologias, relativizou tudo, globalizou tudo, tornou tudo num produto standard, pôs tudo online, e que no processo desagregou as famílias que agora, a existirem, vivem em pontos diferentes do mundo, em apartamentos minúsculos, com um filho ou nenhum, e sem amigos – apenas elementos orgânicos de um processo subreptício designado por, wait for it, networking.


A verdadeira questão, é imaginar como estabelecer uma identidade – algo que foi um dado adquirido durante milhares e milhares de anos, algo que originou costumes e tradições (tudo amuletos de identidade), algo que precipitou guerras (ainda precipita segundo alguns: Samuel Huntington), algo que nos definiu de acordo com a nossa natureza, e essa é segundo Huxley, uma natureza semi-social, como lobos.


A verdadeira questão é como nos definir para além da condição de cidadãos – em que a cidadania se resume à participação eleitoral – submersos num sistema em que as instituições se revelam impotentes, incapazes de prevenir a aniquilação do planeta, ou garantir o funcionamento regular do mercado – sem cíclicas espirais de destruição maciça de valor em troca da apresentação de deslumbrantes rácios EPS. A verdadeira questão é como nos definir para além da simples condição de consumidores, simples autómatos de criação de riqueza e distribuição da mesma em pequenas, médias ou grandes superfícies, num exercício esgotante de hedonismo. Cidadãos num estado de cidadania mediocre, destituídos de identidade, leves como uma pena, e com um cartão de crédito. Eis-nos. E não nos satisfaz.


Como redefinir essa identidade? A esta questão não tenho resposta; apenas verifico um equilíbrio densamente instável.


Verifica-se um regresso a valores tradicionais em todo o mundo – valores ligados à religião, e à família. Um regresso extremo, sem ponderação, como todos os movimentos que se fazem por reacção e não por construção – e.g. o cresimento de ordens religiosas como a Opus Dei. Tenho certo por certo que parte da resposta aí se encontra: numa redescoberta da espiritualidade. Mas não me parece contudo que seja neste formato. Uma redecoberta impositiva que inscreve fronteiras artificais num mundo global; uma que impõe modelos anacrónicos na determinação do papel da mulher; uma ainda sustentada por alicerces de culpa. Não me parece que seja víavel aceitar uma nova espiritualidade com velhos princípios porque esses, esmagam, como sempre esmagaram, a individualidade. No mundo de hoje, a individualidade já não pode ser negada.


Verifica-se ainda um movimento para tornar próxima essa espiritualidade perdida através de uma abordagem inovadora: algo presente no fenómeno de proliferação de seitas, entre as quais, a Igreja da Cientologia, conhecida entre outras coisas, por ter sido criada por um escritor de ficção científica – profeta suposto de uma confederação das galáxias criada há 75 milhões por um tal de Xenu. Centenas de milhares de pessoas seguem estas seitas e dedicam a elas grande parte dos seus recursos e tempo. À parte da efabulação estranhamente aceite por pessoas aparentemente inteligentes e bem sucedidas, o relevante na Cientologia e em outras seitas é o seu apelo pelo universal e galáctico, como se os mitos terrenos já não fossem suficientes. E de facto, começam a não ser porque nos encontrámos cada vez mais longe deles e das parábolas que representavam, e mais próximos do exterior, mais conscientes da finitude e da precariedade do nosso pequeno planeta.


Verifica-se também a criação de mecanismos artificiais de sustentação de uma identidade conjunta como nas novas redes sociais: e.g. facebook. Algo que não é verdadeiramente genuíno, nem nunca o poderá ser. Algo que representa em termos simbólicos a ilusão de uma tribo, mas que na práctica não passa de uma rede de contactos oportunistas.


Verifica-se a proliferação de ONG’s. Organizações de defesa do consumidor. Organizações de defesa do ambiente, dos animais, das minorias, de todos os que não são como nós ou que são, que partilham ou não os mesmo interesses, sem se saber exactamente o que é a maioria ou o que é que a define. O que é o nós, posto de forma mais simplística. De tudo isto, uma coisa estou certa: é um equilíbrio meta-estável. Tal não nos diz o que vai acontecer; apenas nos diz que não vamos ficar assim durante muito mais tempo. A malaise de 1914 prolifera e esta noção de final de história – da qual já foi apoainte convicto –, desagrega-se em torno dessa primal questão dialéctica que é a dirrecionalidade da história. Se considerarmos que não nos tem levado para nenhum sítio que os arautos nos indicaram, a existir tal direcionalidade, afinal para onde nos leva?


A única questão filosófica que se deve pôr é a seguinte: após a destruição do fragmentado tecido indentitário que evolutivamente nos preservou grupalmente enquanto clãs com lealdade familiar, e que progressivamente nos elevou a povos acompanhados de religiões com lealdade cultural, será que é possível criar uma indentidade ainda mais elevada, erguendo-nos à condição global de humanos terrestres, ou, antes pelo contrário, mergulharemos num novo foclore identitivo em extrema rotura social?


Certo é que a história progrediu de tal modo que o indivíduo se libertou da armadura que lhe conferia a protecção suficiente para a resolução da questão existencial. E sem essa placenta, Sísifo não será capaz de continuar a empurrar o rochedo.

Monday, November 03, 2008

O fim do indigente



Então o senhor acomodou-se ao balcão e disse, Em alternativa ao amor, queria então a indigência. Uma indigência pouco elaborada. Não quero uma túnica com manchas e buracos. Não gosto de farrapos. Basta um olhar de canino esfomeado e abandonado. Depois pensou um pouco e completou, Basta esfomeado e quero também uma camisa de linho – e apenas linho porque não gosto de misturar tecidos. Posto isto, bebeu de um trago um copo de branco que por ali estava caído. E desfaleceu – sem pagar.


Foi assim o fim do indigente

Mãos e olhares e outros cheiros



O cheiro da malha molhada. A malha lambida por chuva e suor diário. E as maçãs do rosto rosadas. As mãos muito frias. Um frio que se alonga aos dedos juntos, ou apenas juntando-se, como as gotas de chuva interceptadas sobre os poros do vidro. Mãos que se encontram, ao acaso, por uma infinitude de leis naturais de escoamento, e que assim permanecem. As mãos e os olhares. Apenas estes se encontram sujeitos a tais leis de atracção gravítica. Os restantes membros não se encontram; são orientados nesse sentido.

Tudo o resto é determinado, e acessório dessa naturalidade molecular que é o silêncio se aproximar como uma cobra, e despejar sobre esse olhar fugidio, a impaciência da primeira palavra – ou a certeza do primeiro gesto.

Wednesday, April 16, 2008

saliva pólvora

Às vezes é voraz; a fome é trucidante por astros e corpos. A boca cerzida com uma saliva pólvora e as mãos trémulas como helicópteros moribundos.

As vezes, a caruma esfuma-se nas gengivas gastas; as palavras não se soltam: enforcam-se a partir da língua.


Carrego nos pulmões uma vala comum de léxicos em desuso; eles conversam num dialecto medieval. Gosto de os ouvir. O som do alaúde percorre-me todos os dias em que a fome graça e é meu mister a abundância de espírito. Tenho de criar um logótipo para este estado.


No empedrado de calcário deparo-me com cabelos louros muito lisos nas juntas das pedras. Todas as pedras são olhos cinzentos e todos os dias são pérolas azuis.

Todas as bocas expelem bolas de cotão, mas alguns emitem dentes de leão. A diferença é que um é indicado para tratar do reumatismo, e o outro não. Um flutua no vento e o outro gasta o ar – é como um perfume: se for bom, logo se desprende e segue; se for mau, satura o ar com um hálito fétido.


Por vezes acorda-se velho, e com saudades do cheiro a alfazema. Mas logo a juventude emerge, e com ela, os desconhecidos e abundantes campos de alfazema revelam-se.

Thursday, February 14, 2008

Acontece-nos



Eu gostava daquele prédio. Gostava do pátio das traseiras asfaltado onde as crianças jogavam à bola. Via alguns jogos nas tardes domingo. E não era o único. Os miúdos ensaiavam as tabelinhas, os remates de longa distância, as fintas de corpo. E sabiam-se observados pela massa associativa do quarteirão. Por vezes ouvia-se um aplauso das bancadas de vidro seguido de um, Boa miúdo, e o miúdo fingia não ouvir mas via-se que ficava orgulhoso e sem jeito. Normalmente após um Boa miúdo, o miúdo em causa subia as meias, passava a mão pelo cabelo suado, e dava um ok desajeitado para o companheiro de equipa. Fingia que não era nada com ele.
Eu gostava das birras do Joaquim que era o dono da bola. O pai assistia aos jogos das bancadas de vidro e não se cansava de gritar, Vai Joaquim, vai! Vai para o golo! Quando as coisas não lhe corriam bem, o Joaquim mandava calar o pai e ameaçava os outros que se ia embora com a bola. O pai mandava-o jogar em vez de falar, o que, como é óbvio, ainda o enfurecia mais. Eu exibia mentalmente um cartão amarelo por protestos, e dava mais um gole na cerveja. Passava os Domingos assim, e não me importava nada.
Quando mudei de casa passado algum tempo, passei a ocupar os meus Domingos com uma esplanada simpática que havia lá perto. A casa era maior, com mais luz e espaço para arrumar os meus discos. Á frente, havia um jardim com uma fonte que orvalhava o ar com o cheiro a terra molhada. Era um sítio calmo e com pouco barulho, mas isso depressa começou a incomodar-me mais do que a satisfazer-me. Com o tempo, toda aquela acalmia meio bucólica começou a saturar-me e as saudades do meu antigo apartamento comprimido entre outros tantos iguais surgiram. Sentia que faltava ali qualquer coisa; talvez as crianças, talvez os gritos do pai do Joaquim. Alguma coisa.
Fazia pouco sentido que fossem as crianças. Eu sempre tinha gostado de crianças, mas com perímetro de segurança devidamente montado à volta. Tinha mesmo tomado a decisão, plenamente consciente, de não deixar semente – o que foi, apesar de tudo, uma decisão fácil de tomar para quem tinha uma mulher que não podia ter filhos. Bem sei que, ao conhecer essa circunstância, podia ter tentado arranjar uma solução; ou então outra mulher. Mas não. Acho que na realidade, até fiquei satisfeito com toda essa ausência potencial de vida.
E apesar de tudo, era dos miúdos que sentia falta. Não dos miúdos em si; era da sua ausência de destino. Um miúdo não tem peso; é leve como um dente de leão. Pode vir a ser tudo. Eu já não podia ser coisa alguma a não ser aquilo que era. Era um homem cheio de destino, ou cujo destino havia preenchido sem dar conta de si. Eu era como uma farinheira cheia pronta a ir para o fumeiro. E aqueles miúdos eram só tripa – tripa transparente e ávida de destino.
Durante a guerra – sim, estive numa guerra, não interessa qual porque elas são todas iguais – conheci um oficial que de vez em quando, um quando meio satisfeito mas ao mesmo tempo conformado, dizia, Todos os homens têm um destino a cumprir excepto os soldados, que primeiro têm de cumprir o seu dever. Depois costumava sorrir num monossílabo, assim entre o assentimento e o desprezo. Era um tipo curioso. Morreu já depois da guerra num acidente de automóvel. Talvez tivesse razão.
Quem andou na guerra tem uma dificuldade do caraças em entender que um tipo sobreviva à guerra e depois morra num acidente. Acham-se isentos. Têm a mania que controlam essas coisas todas. Até qualquer coisa parecida com o destino. Primeiro o dever, depois o destino. Deve ser algum mecanismo de compensação. Deve ser isso.
Eu nunca me senti culpado pelos que lá ficaram. Ficaram lá os que tinham de ficar. Nem, tão pouco, me senti especial ou um herói. Aliás, na guerra nunca conheci um herói. Pelo menos vivo.
Ultimamente costumo ir outro jardim que é aqui perto – são duas paragens de autocarro. É menos bonito e tem menos sombras, mas tem miúdos. Tem um gramado cheio que Joaquins a jogar à bola. Gosto mais deste. Sou invadido pela leveza habitual enquanto tento discernir o quê que estes miúdos vão ser daqui as uns anos. Também tem umas mães engraçadas, mas eu já estou demasiado velho para essas coisas.
Houve um tempo - não há tanto quanto isso, embora a mim me pareça que foi noutra vida - em que ainda sentia essa leveza em mim, e não precisava da leveza dos outros. Já era casado há uns vinte anos, mas saí de casa sem uma hesitação. Não era, diga-se, a primeira vez que saía de casa. Mas dessa vez, não estava propriamente a sair de casa – estava a sair de uma vida que, de repente, tinha compreendido que não era a minha. Nessa altura, pela primeira vez, estava a cumprir um destino. Mas é claro que, na altura, não o sabia.
Chamo-lhe destino mas sei muito bem que não existe nada escrito sem ser pela nossa mão. O destino somos nós. Infelizmente, achava que destino era aquilo que já sabia que ia acontecer antes de acontecer. Era uma ideia que se tinha antes e que, de repente, acontecia. Mas não é assim que se passa.
O destino acontece-nos, era assim que ela dizia; e tinha razão. Acontece-nos quando o vivemos, e é tão inevitável que não vale a pena ter pressa. Vai acontecer. Na altura não o sabemos. Claro que não o podemos saber. Isso era batota. Destino não é querer muito uma coisa e depois tê-la. Isso é ambição. E aquilo que obtemos nunca é igual ao que idealiza-mos - a desilusão é inevitável.
Destino é ter sem desejar, sem lutar por isso, sem fazer absolutamente nada, e mesmo assim receber o que ainda não sabemos que queremos – e queremos acima de qualquer coisa na vida.
E foi assim que se passou. Uma encharcada de destino súbita; quase fiquei diabético.

Monday, January 28, 2008

Kind of Blue


Havia um azul calamitoso naquele olhar que eu nunca esperei ponderar. A natureza humana esconde-se em todo o tipo de tons de azul. E este era o azul mais imponderável que conhecera. Era, certamente, o meu tipo de azul.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. Apartamentos esconsos na Escandinávia, estradas nacionais não cartografadas, bancos de jardim na Avenida da Liberdade. Estive em todos esses sítios. Mas nunca me deparei com um azul assim. E não posso lá regressar.

A natureza humana e a sua degenerescência. Continuo um óptimo produtor de serotonina segregada em parques de estacionamento vazios; pródigo manufactor de afectos e coisas que estrangulam violentamente o coração em dias escuros. Ou é então a visão que tinge o horizonte com essa opacidade. Talvez para esconder o azul, e mais particularmente este tom de azul; o meu tipo de azul.

É tudo uma gigante comédia. Uma comédia num palco com uma audiência muda que se ri com ganidos ferozes. Uma comédia humana. Continuamos a lambuzarmo-nos de serotonina, mas a degenerescência é avassaladora no traço, na dureza, e no brilho. A experiência da vida é avassaladora vista deste lado.

É difícil sentir o azul a chegar; ele aproxima-se como uma maré vaga e vai humedecendo a carne com uma doçura intransigente. A doçura do marulhar embriagado dos beijos e do adormecer. Eu sei uma coisa ou outra sobre a intransigência. E sei que é azul em toda a sua superfície acrílica que é no que se torna a carne após um curto período de exposição. O azul é radiação.

Há sítios que apenas se podem visitar uma vez. E desta vez não posso mesmo voltar. A existência é o meu exílio, e lá gastarei o que me resta de eternidade, sem remorsos, sem azul, sem ti. Muito provavelmente, sem nada.

Friday, January 25, 2008

A conquista do chão

Quando era criança não conseguia chegar às janelas. Vivia num andar com as janelas mais perto do tecto do que do chão. Quando era criança vivia mais perto do chão do que do tecto, e passava lá a maior parte do meu tempo.

Quando chovia, punha-me em bicos dos pés sobre o parapeito das janelas e observava-a a cair. Mas não era propriamente isso que queria; o que eu queria era chegar à janela e encostar a minha cara junto ao vidro. Ia buscar uma cadeira e colava a minha testa na face do vidro – antecipando o arrepio de frio que iria ter. Então ficava imóvel, com as pernas esticadas sobre a cadeira e a cara esbugalhada sobre o vidro vertendo gotas pelo exterior; observava-as escorrendo, seguia-lhes a trilho com os dedos minúsculos e esperava que a respiração condensasse.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, passava as tardes de chuva com cara encostada à janela, esperando que a minha respiração condensasse. Depois entretinha-me a desenhar sobre aquela ardósia baça; formas desbotadas, sem cores, sem planos. Desenhos efémeros, que sabia irem-se extinguir em breve. Ainda assim, preferia o vidro a chorar aguarelas às folhas de papel engomadas; preferia os meus dedos à colecção de lápis de cera.

Percorria cada parcela condensada da janela imensa como se estivesse a delimitar um território; tinha a sensação que cada novo pedaço de janela desenhado era um pedaço meu, um ponto elevado de onde podia observar toda a extensão das minhas conquistas no chão.

Quando era criança e vivia mais perto do chão do que do tecto, sentia que aquele era o meu território, cada esquina, cada aresta, cada lasca de tinta desfeita sobre o rodapé, cada nó da madeira sem verniz no soalho.

Foi então que me habituei a observar a chuva com a cara encostada à janela, a seguir o trilho das lágrimas esgueirando-se pelo olhar, as pessoas caminhando pela rua com o ar desanimado, as arvores ondulando, as folhas suicidando-se serenamente, e a luz da tarde pousando-se sombria sem que eu desse conta, até me chamarem para ir tomar banho.

Monday, January 07, 2008

If then else




Se a manhã acordar fria como a morte
e o céu surgir com olheiras e luas desmaiadas
se as flores acordarem cegas e
o mar estiver espesso como lava
se a boca acordar ácida e as mãos geladas e
o estômago encolhido como um feto
Se as palavras soarem a silêncio destilado e os
gestos a cimento venenoso
se o acordar for lento e impiedoso
então sabes bem que será porque dormimos
no mesmo sonho e acordamos a querer adormecer
de novo.

Monday, December 17, 2007

A infinita complexidade do Natal



O cheiro do feno, a simplicidade da palha. Na casa da vaca, estendia-me naquele estrado vegetal e meditava. Tentava; o local pressupunha meditação. Por ali teriam pernoitado homens fugidos, animais feridos, amantes ocasionais. Imaginava-me, também eu, em aventuras que também justificassem dormir num estábulo. E ali ficava estendido, escondido de uma hipotética turba em cólera concentrada no largo da Igreja, perscrutava os granitos maciços e tentava não espirrar – sempre tive uma ligeira alergia ao pó dos fenos.

Em criança, divertia-me essa expectativa de me encontrar desaparecido, e, principalmente, de saber que me procuravam. Mas logo me fartava desse jogo às escondidas solitário e começava a preocupar-me com presença da bicharada típica dos locais húmidos do campo: salamandras, moscardos, algumas pulgas. Um ecossistema infinitésimo, de ruídos varejados. Até hoje não me recordo de um ruído mais característico do que o das cobras de campo a deslizar sobre o restolho seco.

A terra; a terra adormecida. O milho espalhado na eira. As nespereiras fustigadas pelos corvos. A terra molhada. As cerejeiras em flor. O latir dos cães à noite. O cicrilar dos grilos no Verão. A terra coberta de geada. Os bichos da peçonha passeando pelos empedrados.

Hoje em dia, sinto-me como o Jacinto regressando de Paris; nem sempre foi assim. Gastei a minha infância com aquela montanha à minha volta. Aquele frio latejando as correrias. Um mundo ultra sinestésico sem musica ou literatura; apenas terra e bicharada de todos os géneros. E cheiros, uma multiplicidade de cheiros perfeitamente distinguíveis entre eles, como um caldo quente cheio de verduras e legumes.

Depois ela morreu. A senhora. Num pequeno instante, findou-se toda a beleza do mundo. Todas as coisas belas: podia enumerá-las com toda a propriedade pois é onde repouso quando o sono envelopa sem cuidado a consciência. Quantas vezes não senti uma vergonha aguda só por imaginar o que ele me diria caso pudesse. Ainda hoje, adormeço com aquele olhar infinito sobre mim. E acredito, sem piedade, que a maior felicidade da vida era ser criança e enfeitar a árvore de Natal com ela.

Monday, December 03, 2007

A singularidade do laranja




La vérité appartient à ceux qui la cherchent et non point à ceux qui prétendent la détenir."
(Condorcet / 1743-1794 / Discours sur les conventions nationales, avril 1791)


A verdade é como o açúcar nas rabanadas; sem açúcar as rabanadas passam a ser outra coisa qualquer, mas demasiado açúcar, torna as rabanadas intragáveis. A verdade deve ser doseada como um parasita deve dosear a colonização do seu hospedeiro. Se for de mais, o hospedeiro morre – assim como o parasita; se for de menos, o hospedeiro consegue desenvencilhar-se do parasita. Um equilíbrio de segunda ordem, vago, incerto, não linear – uma espécie de equilíbrio amoroso.

Não me permito cair nessa tentação fácil – a analogia entre o parasita e o hospedeiro, e o exercício dos afectos. Mas permito-me pensar no estado de transição: não na passagem do sinal vermelho para verde, mas na singularidade do laranja.

O laranja é tão instável que no limite não existe – ou não é nomeado. A mudança de fase da matéria, o tipo de escoamento de um fluído, ou qualquer estado binário implica uma transição não regida pelas leis aplicáveis aos estados imediatamente anteriores e posteriores.

É errado dizer que a água congela aos 0º. Normalmente, o processo de solidificação da água inicia-se através da cristalização de certas impurezas na sua geometria. Mas expurgada de todos os sais, e em algumas circunstâncias de arrefecimento, o zero deixa de ser zero para a água – o mínimo alcançado foi 18º negativos. Mas tal não implica que a água se encontre num domínio estável em cada um desses dezoito graus entre o 0º e -18º. Não se encontra: diz-se em transição; no fundo, é como o sinal laranja – não existe se não numa fase de transição entre dois outros estados.

A singularidade do laranja é óbvia; a partir do instante em que algum processo está laranja, há pelo menos uma coisa já se sabe: que não vai permanecer laranja. Infelizmente, não é possível conhecer o sentido da mudança, pois o fenómeno tem histerese.

Normalmente, uma reacção ocorre num sistema, antes em equilíbrio, que se altera de um estado inicial para outro. E pouco mais. Mas quando a reacção é histerética, não é suficiente conhecer o estado inicial – é necessário saber como é que se chegou até lá. Um sistema em histerese tem memória.

Em alguns países, o sinal laranja não surge apenas entre o verde e vermelho, mas também entre o vermelho e o verde. Ou seja, antes de o sinal passar a verde, passa a laranja primeiro. Isso tornaria o sistema histerético – olhando o sinal laranja, seria impossível saber se ele ia mudar para verde ou para vermelho. Para o saber, era necessário saber como é que ele ficou laranja; sem essa informação, apenas se sabe que, em breve, ele vai mudar.

Não me parece surpreendente que sejamos histeréticos – apesar de tudo, temos memória. O que me surpreende é a dificuldade em apreender o laranja. Principalmente quando é um bom laranja. Ou seja, em perceber que algumas vezes, se vive um estado transitório – um bom estado transitório, mas ainda assim transitório.


Mas, a verdade é que nem isso é plenamente verdade: depende como é se chegou ao bom laranja. E é isso que torna o laranja tão singular.

Friday, November 09, 2007

As sombras exterminadas



O cabelo pingando sobre a cara. O cabelo morno. O céu escarlate no amanhecer ténue. As vezes o dia nasce assim, sem filtros ou luvas. Um rendilhado de luz jorrando sobre as sombras estéreis. As vezes, a luz é apenas isso: o que faz sombra. As vezes serve apenas para esconder parte, e mostrar apenas o que se quer ver; como quando apenas se quer apreciar o cabelo pingando sobre a cara. Ela dormia e não reparava em nada.

Acordei com o concerto de Aranjuez a transitar insolente na cabeça. Talvez por evocar um despertar. Um despertar tranquilo e ostensivo. Há despertares que são luminosos e outros sombrios e ambos conseguem ser tranquilos como apenas as coisas simples conseguem ser. Coisas evidentes e sem jogos de sombras.

Tinha-a visitado no dia anterior. Acho que não me reconheceu. Sempre que vou ao lar vê-la lembro-me do Estrangeiro. E penso em não voltar. E penso como será vela-la com estranhos à minha volta exultando a sua ténue sobrevivência. As mãos dela pousadas sobre o regaço, e os olhos fixos na morte. Foi assim que a vi. Com metástases no coração e manchas nas mãos. As mãos dela. Nunca tinha segurado as mãos a ninguém; para segurar as mãos é preciso que as mãos não se mexam; as mãos imóveis coalhando cada minuto. Quando me levantei, ela reagiu. Olho-me, segurou-me a mão. Tenho a certeza que não terei ninguém a segurar-me as mãos quando chegar a minha vez. Talvez o meu irmão. Talvez ela. Não; acho que teria demasiada vergonha.

Ela mexeu-se; o cabelo respingado de luz; e eu sentado à janela. Tinha um acordar insolente e maldisposto. Mas eu tinha o Aranjuez na minha cabeça e tinha visitado a minha mãe no dia anterior. Estava incapaz de lidar com o momento. Parecia que toda a acção iria contaminar irremediavelmente a eternidade. Tal como a eternidade nos contamina todos os dias mais um bocadinho.

Já fizeste café ou ficaste aí entretido a olhar para mim?

Não estive a olhar para ti.

Então?

Estive a imaginar-te mais velha. Uma tu velhinha.

Fico bem?

Nem por isso… Ainda assim, o café está ao teu lado.



Thursday, October 18, 2007

Céu na boca


Por vezes sucede deparar-me com um largo desprendimento da vontade – um estado muito particular de aceitação da realidade na sua forma mais explícita. A realidade escancarada de olheiras encardidas de suor e de saliva seca no céu da boca. Acho particularmente importante que todos os homens tenham engolido a sua porção de céu que suporta a indigestão mental da vontade. A vontade sobre o céu.

Por vezes o céu esconde-se sob uma pleura pulmonar de cinzentos. Olho para cima, e vejo os meus membros intactos a esvoaçarem – sem um desígnio, sem uma vontade. Apenas um céu enfiado na boca.

A vontade é um equilíbrio particularmente instável – como aliás todos os estados de transição. A vontade é um metal magnético próximo do ponto de Curie – prestes a perder todas a suas propriedades, prestes a desfazer-se em pó lavrado de cabelos pretos. Mas até lá, ela existe, magnetizando os movimentos, contorcendo os olhares, remexendo a carne. E depois cede. Desaparece. Transforma-se num pedaço de chumbo sem vida.

Há coisas tão pequenas que podem mudar tudo isso. E em tudo as coisas pequenas sublimam aquela perfeição atroz de poderem crescer infinitas. Basta um milésimo de um cheiro aflito, um pouco, apenas um pouco de nada, para toda a eternidade romper silenciosa sobre as mãos.


Um pouco de nada, às vezes, é mais do que suficiente, para invalidar toda a poesia todo mundo. Ela acontece-nos, visceral, diante de nós, e as palavras cessam, e os músculos calam-se.

A certeza impera, a vontade deflagra e o céu arde, dentro da boca encardida de magnetismo indestrutível.





Wednesday, October 03, 2007

Neblina e Abelhas

A neblina recorrente das manhãs apodrecidas e sem aconchego. As manhãs em que a neblina escorrega pelas frinchas da janela e desliza até aos tornozelos imóveis. Por vezes acordo e tenho o quarto cheio de neblina. E de abelhas cegas que zumbem junto aos retratos mortos no papel de parede. A neblina esfrega-se nas mãos dos corpos quentes, e o dia irrompe – embriagado de absinto logo pela manhã, esfarrapando o vidro da garrafa com o olhar raiado de vulcões estéreis. Traz sempre um copo a mais e eu não sei dizer que não.

O zumbido das abelhas é incómodo e odeio insectos com pêlos.

Thursday, September 20, 2007

Speculari



Especulação: do latim speculari que significa olhar coisas distantes, no espaço e no tempo.

Nós estamos no promontório extremo dos séculos!… Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade omnipotente. – Manifesto futurista, Marinetti, 1909

A capacidade de acumular conhecimentos, e de os transmitir de uma geração para outra, esteve na génese da evolução do sapiens; esta tradição oral – e como tal frágil e algo gasosa – solidificou-se com a invenção da escrita, objectivando os conceitos, facilitando o acesso, e aumentando a amplitude temporal da colheita de informação (antes limitada à memória da geração passada). No fundo, tratou-se da invenção da memória ROM da humanidade – que coincide com o fim de um período designado por pré-história.

Tal permitiu que Newton lesse os trabalhos de Euclides e de Kepler, e proferisse a célebre sentença “cheguei longe porque me apoiei nos ombros de gigantes”. Frase essa que mais tarde foi repetida por Einstein, embora se referisse a James Maxwel, e não a Newton. E toda a ciência encontrou uma função causal, permitindo que as perguntas de uns fossem respondidas por outros.

Existe, no entanto, um domínio da actividade humana que não apreendeu ainda as vantagens do acumular do cognoscível e que ciclicamente se repete, e sempre reagindo como se de uma nova realidade se tratasse: a história financeira.

O domínio das finanças é o campo de actividade do sapiens com menor apetência para a consideração dos acontecimentos passados como base sustentável para o esclarecimento do presente. Nesse domínio, é quase absoluto o fim da história. O que a torna direccional, e como tal dialéctica.

Existem dois tipos de especuladores: aqueles que crêem que o valor de um activo vai crescer indefinidamente, sem colocar nunca a hipótese que, a partir de certo ponto nesse crescimento, o seu valor transaccionável seja superior ao seu valor real; o segundo tipo de especulador tem a consciência perfeita que o é, e sabe que o valor pelo qual está adquirir um activo é superior ao seu valor real, e que o valor pelo qual o pretende vender, ainda o é mais. O seu segredo – julga ele – é que saberá sair a tempo, aproveitando ao máximo a valorização ilusória desse bem. O problema é que raramente definem a tempo que tempo é esse.

O especulador lida com o mercado de uma forma estranhamente idêntica à forma como um futurista lida com a sociedade e com a arte. “Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível?” Assim falava Marinetti. O futuro é glorioso, não por mais nenhuma característica se não a que se encontra no futuro. E de facto, o impossível é o limite na cabeça de especulador.

A especulação congrega dois elementos tão perigosos em conjunto que deviam habitar universos diferentes: a vontade absoluta de ganhar dinheiro, e o desejo relativo em ganhar mas do que o outro. São dois elementos diversos que juntos se reúnem numa dinâmica de grupo auto-catalizadora em dois estádios. O reagente inicial – a vontade de ganhar dinheiro – desagua em dinheiro – que por sua vez é catalisador para ganhar mais do que o outro. Porque não fomos os únicos a ganhar. Mesmo quando o resultado não é o ganho mas a perda, essa perda é também por ela, um catalisador para desejar reaver o capital inicial. É de facto uma reacção única; o resultado da reacção é indiferente – resulta sempre na catalisação da reacção inicial.

A especulação é benigna quando são pequenas bolhas que seguem a corrente do rio de uma empresa. Mas torna-se num problema grave quando as bolhas são as empresas levadas num rápido especulativo”. Foi assim que Keynes definiu a especulação e introduziu o conceito universal de bolha. A formação desse rio encerra a materialização de um comportamento irracional característico de uma tomada de decisão em grupo – decisão essa que nunca seria tomada individualmente. Acresce a esta irracionalidade o auto-comprazimento conjunto contra os que preferem designar de movimento especulativo uma forma honesta de ganhar dinheiro. Esses cavaleiros do apocalipse são mesmo escorraçados do circuito financeiro, como mulheres menstruadas de um navio quinhentista.

É um facto pouco conhecido que vários economistas previram com alguma precisão o crash de 1929. Entre eles, um dos fundadores da reserva federal Norte-Americana, e o editor da Economist. Em 1987, o NY Times encomendou um artigo a John Kenneth Gailbraith sobre a euforia económica marcada pelas junk bonds, e o intenso M&A na era Reagan. O artigo era tão demolidor que o Times preferiu não o publicar. Reclamavam que apresentava um cenário demasiado pessimista, e que, com a estrutura actual do sistema financeiro, era impensável acontecer um crash. O impensável aconteceu em Outubro desse mesmo ano.

A história é cíclica em relação à excessiva valorização de um activo, e os bancos têm um papel essencial neste processo. Não existe nenhuma inovação significativa a nível bancário desde que estes se lembraram que podiam emitir títulos de dívida na forma de notas num volume superior ao valor dos depósitos em moedas. Passa sempre tudo por emprestar dinheiro sobre o valor de um activo. Os nomes dessas operações podem ser diferentes, mas o princípio é sempre o mesmo. O valor agora é inferior ao valor amanhã, pelo que, contra a consignação desse activo, posso emprestar dinheiro. Os activos variam – podem ser tulipas, blue chips, ou activos imobiliários. Mas o princípio é sempre o mesmo.

Mais intrigante ainda é a reacção após crash do mercado. São feitas análises no sentido de identificar factores exógenos ao próprio mercado que justifiquem o seu mau comportamento (e.g. em 1987, o factor determinante identificado foi o deficit do governo federal dos U.S.A).

É no entanto errado pensar que a especulação é um mau per se; mesmo o investidor a longo prazo é um especulador porque espera que os activos adquiridos se valorizem. Caso contrário não investiria. E a especulação traz liquidez o que torna os mercados mais eficientes. E também jardins bem mais bonitos.

Friday, August 31, 2007

O entardecer em Elsinore


Por aqueles tempos, o céu encontrava-se despido de horizonte e o luar era escasso como o pêlo de um cão velho.


O silêncio depositava-se, atencioso, sobre uma concha de feltro e aí adormecia. As conchas verdadeiras já haviam sido todas usadas – restavam algumas, raras, usadas pelos pescadores para desembaraçar as redes.


Durante o dia, o mato ardia sôfrega. E à noite abrandava o lume na serra. As pessoas fugiam, encosta abaixo, com os aquários gigantes onde repousavam as sereias moribundas.

E era essa a tragédia que invadia os antigos e os sábios: a morte agonizante das sereias eternas que habitavam as montanhas nos rios esplêndidos. Agora os rios secavam, e a terra, outrora fresca e deslizante, era agora seca e empedernida de uma caruma de crustáceos.

Na sua demanda, os habitantes das terras reuniam-se à noite na busca de uma razão para o flagelo que os afligia. Os sacerdotes invocaram uma culpa ímpia, e que após a devastação viria uma salvação mais bela do que o imaginável – mas apenas para os justos e fieis.

Como se tratava de uma terra pobre, em que só os donos das terras altas entendiam ao certo de que fidelidade se tratava, os sacerdotes foram assassinados por uma horda de adúlteros inquietos. E por algumas mulheres castas que, pelo acaso, se encontravam próximas do local.

De imediato a perdição foi proclamada pelos sábios pela perda de vidas tão próximas dos deuses. Foi elaborado um auto que condenava os assassinos, mas que não os pretendia punir – sendo sábios, sabiam que estes estavam em maioria.


Foi então que o céu se cegou, e a noite mergulhou sobre todos como um sono iluminado pela floresta ardente. O fim foi proclamado e um festim imenso se iniciou. Durante dez dias, ninguém adormeceu sem ser por exaustão. E o desespero a todos cegou.


Findos os dez dias, os homens e mulheres viram, não um, mas dois sois emergirem no horizonte. A luz era mais clara do que alguma vez fora vista, e o dia prolongou-se longamente. Entendeu-se assim que a estrela que os iluminava partira em busca de um amor astral – e que finalmente o encontrara. Só após a exultação pela sobrevivência durante estes dias tão vazios de sentido, repararam os homens e as mulheres que as crianças haviam desaparecido e que deles não havia rasto.


Procuraram muitas semanas pelas crianças, subiram as montanhas, partiram para o mar, desceram os vales mais distantes. Ninguém ao certo sabia o que acontecera às crianças durante aqueles dez dias de folia total. Ninguém parecia também querer lembrar-se.


As sereias foram arduamente inquiridas por uma resposta; mas mais do que não responder, elas pareciam não o querer fazer. Os homens decidiram então deitá-las ao mar, pois delas já não tinham necessidade. As sereias partiram com o seu olhar doce e materno. E desiludido.



Os sábios, receosos que, ao não darem uma explicação pelo desaparecimento das crianças fossem sujeitos à mesma fúria que os sacerdotes haviam sofrido, partiram, também eles, em balsas de pinho verde e com escassos mantimentos. Mas sendo sábios, e pouco sabendo da arte de navegar, logo se deixaram levar por ventos desconhecidos que os levaram a uma vazio imenso de vontade e de fé, onde o canibalismo reinou durante três meses.

Foi numa noite de luar abrasivo que as sereias mortas deram à costa – eram sereias de rio que nada sabiam do oceano infindo. As suas carcaças descosidas pela fome e pelo cansaço marulhavam na maré baixa. Tinham a expressão sedosa e lamuriante – mas não recriminavam ninguém; pretendiam morrer em paz.


Os homens e mulheres alinharam-se em frente ao oceano; deram as mãos e assim ficaram durante muito tempo – corroídos pela culpa, pelos erros, e pela perda das crianças.


No dia seguinte abandonaram Elsinore com poucos haveres, Apesar de ninguém o dizer de forma explícita, ninguém possuía já muita vontade de continuar a acordar dia após dia.
E assim findou Elsinore.


Monday, July 30, 2007

A excepção que confirma a regra – 2ª edição, porque agora de mais premente utilidade


A entropia na teoria da informação corresponde à incerteza probabilística associada a uma distribuição de probabilidade. Cada distribuição reflecte um certo grau de incerteza e diferentes graus de incerteza estão associados a diferentes distribuições (embora diferentes distribuições possam reflectir o mesmo grau de incerteza). De um modo geral, quanto mais "espalhada" a distribuição de probabilidade, maior incerteza ela irá reflectir.
Por exemplo, se alguém lançar um dado de seis faces, sem saber se ele é viciado ou não, a probabilidade mais razoável a ser atribuída a cada resultado possível é 1/6, ou seja, representar a incerteza usando a distribuição uniforme. Esta atitude segue o conhecido princípio da razão insuficiente de Laplace, onde atribuir probabilidades iguais aos eventos possíveis é a maneira mais razoável de alguém reflectir sua ignorância (e sua incerteza) quanto às probabilidades de ocorrência de cada evento.
Por outro lado, provendo-se a informação de que o dado é viciado e que ele dá números maiores, i.e. que a média é por exemplo 3.5 e não 3, então a pessoa naturalmente irá assumir uma distribuição alternativa à uniforme para expressar sua incerteza.
A informação complementar implica uma actualização da função distribuição para discernir o resultado de um evento enquanto variável aleatória – e não elemento determinístico. Ou seja, mais informação tem normalmente a desagradável consequência de obrigar uma alteração na forma de raciocinar; desagradável porque o arquétipo de pensamento anterior é contestado face à defesa pelos seus anteriores utilizadores – ainda não cientes da nova informação.
Estranhamente, é costume entre os humanos insistir no arquétipo anterior, apesar de já possuírem a nova informação que o invalida (e.g. o teclado qwerty). O que não deixa de criar a não menos desagradável consequência – de forma a continuar a validar o sistema antigo – de criar excepções às regras agora já não aplicáveis porque erradas.
Seguindo o nosso exemplo do dado viciado em canabis, assumir-se-ia agora que a probabilidade continua sempre 1/6, menos na faceta que origina o 4; e eis o paradigma antigo aglomerado com a nova informação que o invalida.
Isso a propósito de um artigo do Jared Diamond que aqui se reproduz à distância de um click:


http://www.geocities.com/malibu_malv/curse_qwerty.html

Reproduzir esta informação e torná-la apta a servir de base às relações interpessoais, é uma missão que o governo negará possuir qualquer envolvimento ou contacto.